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One-Shot

por Andrusca ღ, em 12.02.11

Hello ^^

Bem, não sei o que é que me deu para surgir com uma coisa destas, mas pronto, hoje apeteceu-me fazer uma one-shot e aqui está ela.

Espero que gostem, e que deixem as vossas opiniões ^^

 

Haunted

 

 

- Do que é que estás a falar? – Perguntei, chateada.

- “Estou a falar de ti! Da maneira como estás a gerir a tua vida! Sabes que fizeste uma má decisão e bolas, nem assim admites que estavas errada. És tão casmurra!” – Desviei o telemóvel do ouvido devido às intensidades dos gritos da minha mãe.

- Não fiz nenhuma má decisão! Precisava de reorganizar a minha vida, não percebes?!

- “Ele morreu Joanne! Lida com isso!”

As suas palavras fizeram com que as lágrimas voltassem a aparecer nos meus olhos. Odiava quando se referia a ele no passado. Odiava quando me pedia para ultrapassar quando sabia que era completamente impossível para mim.

- Mãe, pára. É a minha vida. Eu escolho-a.

- “Quanto tempo estiveram juntos, de qualquer maneira? Um ano? Dois?”

- Foram três, mãe! Foram três e eu engravidei! Tu simplesmente não percebes, pois não?! Ele morreu, e eu perdi o meu bebé! Eu preciso de recomeçar.

- “Sinto que foi um erro tirar-te daquela clínica.”

Estas palavras doeram.

Depois da morte do meu marido, e do meu aborto, a minha mãe pensou que era melhor internar-me por depressão. E naquela altura tinha razão. Estava deprimida. Imaginava coisas. Via coisas mexerem sozinhas, imaginava vozes, gemidos. Sentia respirações quando não havia mais ninguém. Súbitas mudanças de temperatura, entre outras coisas.

No momento não achei que estivesse louca. Ou deprimida. Mas a verdade é que tudo parou no momento em que fui para a clínica. Por isso sim, talvez estivesse mesmo a precisar de uma intervenção.

- “Se precisasses de um novo começo, não ias voltar para essa cidade.”

- É a minha cidade. A minha casa. Mãe… não estou à espera que percebas, espero é que respeites.

- “Não consigo… estás a arranjar uma maneira de arruinares a tua vida.”

- Tenho que ir. A panela está a transbordar. Adeus, adoro-te.

- “Adoro-te. Cuida-te”

Desliguei o telemóvel e também o fogão, mas era tarde demais, a sopa já estava a sair da panela.

Encostei-me à mesa e deixei que todas as lágrimas me caíssem de rajada. Estava cansada de as tentar impedir. Apenas num dia, num estúpido acidente de carro, havia perdido a minha vida.

E a minha mãe, apesar de saber que não faz por mal, ainda faz as coisas piorar.

Tinha perdido a fome, por isso fui para o quarto e deixei-me cair na cama. Já tinha retornado a esta cidade há uma semana, mas nenhum dia fora tão difícil quanto sei que amanhã será. Amanhã vai ser a maior prova de todas. O dia do primeiro aniversário da morte do meu marido, e consequentemente, do bebé que estávamos à espera.

Fechei os olhos e deixei que as lágrimas me escorressem pelas bochechas, chegando assim à almofada que aos poucos ia ficando encharcada. Mas não me importava, afinal, nada mais importava neste momento que desanuviar. E se para isso era preciso deixar que a tristeza e a solidão saíssem por mim em forma de gotas de água, saídas dos meus olhos, então que fosse.

Acordei gelada e cheia de arrepios, o que era de estranhar, pois estávamos em pleno Verão e nas noites anteriores tinha dormido completamente destapada.

Ao respirar conseguia ver o ar meio branco a sair pela minha boca, e a desaparecer pouco depois. Estava mesmo um gelo.

Vesti o meu roupão e calcei uns chinelos e desci as escadas até à cozinha, onde fiquei petrificada a olhar para ela. Estava toda dos avessos. Tudo espalhado no chão, tudo partido. Nem as flores das jarras sobreviveram, ao contrário de estarem no chão, estavam murchas. Mortas.

Senti um arrepio passar-me por todo o corpo e as lágrimas voltaram as escorrer. Porque é que isto estava a acontecer outra vez? Tinha sido exactamente assim que tinha começado da última vez, tinha sido assim que a minha mãe me tivera internado pouco depois. O que é que se estava a passar?!

Tudo o que sabia é que estava aterrada.

Como estava desempregada, e hoje apenas queria ir ao cemitério, pus mãos à obra para arrumar a cozinha, e o que acabei por fazer foi mandar a maioria das coisas para o lixo.

Almocei a sopa que tinha feito ontem à noite, e depois de telefonar à minha mãe para lhe dizer que ainda estava viva e não me tinha suicidado, fui tomar um banho de espuma. Meti-me dentro da banheira e repousei a cabeça, com os olhos fechados. A dor no meu coração não passava por nada. Sentia saudades dele. Precisava do seu toque, do seu odor. Precisava dele acima de tudo. Podia-me ter sido tirado tudo. Tudo. Tudo menos ele.

- Tu… - ouvi. Era apenas um sussurro mas era tão perto de mim que mandei um pulo ao ouvi-lo e abri os olhos. Nada de novo. Comecei a tremer, a água tinha gelado de um momento para o outro e conseguia ver a minha respiração de novo, enquanto que o espelho estava a ficar enevoado.

Engoli em seco e saí da banheira enrolando-me numa toalha.

- Quem está aí? – Perguntei – O que é que querem de mim?

Não obtive resposta. Estaria a alucinar?

Aproximei-me do espelho e limpei-o com uma toalha, para observar o meu reflexo.

Estava pálida e parecia assustada. Aliás, estava mesmo. O meu cabelo preto pelos ombros estava a escorrer, e de um sorriso nos meus lábios nem sinal. Não tinha motivos para sorrir.

Fui para o quarto e vesti uma t-shirt cinzenta com uns skinny-jeans pretos, e calcei uns sapatos de salto alto também pretos.

Agarrei numa mala preta onde tinha o telemóvel, a carteira e as chaves de casa e saí.

Fui até uma florista onde comprei um ramo de rosas negras, e dirigi-me então para o cemitério.

Sentei-me em frente da sua campa. Não sabia o que fazer.

Já aqui tinha estado inúmeras vezes desde que partida, que fora roubado de mim, mas nunca no aniversário desse acto.

Pousei as rosas à frente da campa do meu eterno amor, e abanei a cabeça como sinal de frustração. Ainda não tinha aceitado que nunca mais o iria ver. Era-me uma ideia completamente absurda.

- Sinto a tua falta – murmurei, enquanto uma brisa fria me tocava – mais que tudo, sinto falta do teu toque, do teu sorriso reconfortador… quem me dera que não tivesses partido. Quem me dera ser eu no teu lugar…

E assim falei para uma pedra durante quase três horas, até o sol quase se pôr.

Normalmente o cemitério fazia-me arrepios, mas hoje não. Hoje estava apática a qualquer outra coisa que não o meu amor e a sua partida tudo menos esperada.

Quando me tive que levantar para me vir embora, senti uma grande força de vontade para me voltar a sentar, mas tive que a combater, pois apesar de tudo, a minha mãe tem razão quando diz que tenho que seguir em frente, apesar dessa ideia me parecer impossível de concretizar.

Voltei para casa e mandei-me para cima do sofá, ficando assim por um período indeterminado de tempo.

Ouvi qualquer coisa a partir-se e dei um pulo, ficando logo com a respiração ofegante. Seria um ladrão? Seria um assassino?

Levantei-me toda a tremer e subi as escadas o mais rápido que as minhas pobres pernas me permitiam, e empurrei a porta do meu quarto com cuidado enquanto os meus olhos mergulhavam na breve escuridão que as poucos já estava a pairar.

Nada. Completamente vazio.

Vi que a moldura da mesa-de-cabeceira, com uma fotografia minha com ele, estava no chão e corri até ela imediatamente. Estava rachada ao meio.

Não podia estar a alucinar, certo? Coisas assim simplesmente não caem do nada, certo?

Apanhei a moldura e trouxe-a comigo de volta à sala, onde a separei da fotografia, agarrando nesta última e ficando a observá-la por breves momentos.

Um risco começou a aparecer na face do meu marido – sim, porque eu ainda não me considerava viúva –, que depressa chegou até ao fim de toda a fotografia. Em pânico, larguei a fotografia que caiu no chão e levantei-me do sofá. Isto não pode estar a acontecer, não pode, pensava eu. Mas estava. E mal sabia que o fim estava perto de acontecer.

A minha cortina começou a mexer-se sozinha e eu tinha a certeza que a janela estava fechada. As portas dos armários abriam-se e fechavam-se apenas por si, e os copos cintilavam.

- Não… não… - murmurava, enquanto tinha as mãos na cabeça e apertava o cabelo com toda a força que tinha – Quem és tu?! – Gritei – Deixa-me em paz!

A televisão ligou-se apenas para ficar com interferências, tal como o rádio, e também o candeeiro começou a abanar.

Corri até à porta e tentei abri-la, mas não conseguia. Havia qualquer força a puxá-la na direcção contrária, alguma força que me impedia de a abrir.

- Tu… - ouvi de novo, enquanto sentia uma respiração demasiado perto de mim.

Arrepiei-me dos pés à cabeça e olhava por todos os lados. Queria perceber o que se passava. Queria uma prova visual do que me estava a acontecer. Mas não a conseguia obter.

Nunca acreditei em fantasmas. Sempre achei ridículo. Quando alguém morre, morre e ponto final. Mas isto não tem outra explicação. Esta pode não ter lógica, e é a única que arranjo.

Os copos começaram a vibrar e em poucos segundos partiram-se, fazendo com que bocado esvoaçassem para todos os lados. Eu baixei-me e cobri a cara com as mãos, mas não a tempo de evitar um pequeno corte que me ardia bastante, na bochecha.

- Por favor, para – implorava, já a chorar compulsivamente – Por favor…

Encostei-me à parede o mais que consegui, toda encolhida e a abraçar-me, enquanto via a loucura entrar e tomar a minha casa.

Sabia que não estava a alucinar. Isto era mesmo real. Tinha sido forçada a acreditar em algo que sempre tomara por ridículo.

Não sei o que se passou, apenas que senti um grande ardor por dentro e depois tudo parou, e fiquei completamente vazia. Nenhuma dor, nenhuma saudade, nenhum sentimento.

 

Esta é a história de como morri. Eu, Joanne Clinford, morri com 27 anos.

Os médicos chamaram-lhe suicídio, a minha casa estava de novo normal, e os meus pulsos estavam cortados.

“Como?”, perguntam?

Não sei… a única coisa que sei, é que ninguém está no controle de tudo. Ninguém, e nunca.

 

 

(não revi, por isso peço desculpa se encontrarem algum erro :x)

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