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Destino Amaldiçoado

por Andrusca ღ, em 15.02.11

Finalmente algum romance... eheh

 

Capítulo 7

Latim

 

- Chegaste, estava a ver que te ias baldar. – Exclamou Chad.

- Quem eu? Nunca. – Respondi num tom de brincadeira.

Estávamos a enfeitar o High Spot para a festa de Halloween no fim-de-semana. Sheilla estava a tentar encontrar uma boa banda por isso eu, Chad, Luc e Louis oferecemo-nos para ajudar nos enfeites. Eu adoro o Halloween.

- Então, vão-se mascarar de quê? – Perguntei.

- De nada, porquê? – Respondeu Louis.

- Porque é Halloween… não gostam do Halloween?

- Não é dos meus dias preferidos. Mas já vi que tu gostas.

- Claro que sim, é o único dia do ano em que os demónios não atacam. E além disso é bom poder fingir ser outra pessoa. Por isso é que nunca me mascarei à bruxa. – Disse eu, entre risos.

- Então, se não te vais mascarar à bruxa vais-te mascarar a quê? – Perguntou Luc.

- Ainda não sei bem, mas seja o que for, vai ser um disfarce de pessoa má, estava a pensar lobisomem, ou “lobimulher”. – Gozei.

- Pois, pois. – Disse ele, em tom sarcástico.

Estávamos a dar-nos melhor cada dia que passava. Sentia-me bem na presença dele, como se os problemas se evaporassem. Estava a começar a ficar apaixonada, mas não podia ser, afinal, em breve estaria morta.

- Bem, já falta pouco e eu tenho que ir buscar os pequenos à escola. Vocês dão conta disto? – Perguntou Louis.

- Claro, vai descansado. – Respondeu Chad.

- Então até já. – Disse Louis.

Chad aproveitou e saiu também, apesar de ter dito a Louis que cuidava daquilo tudo. Ele era muito porreiro, mas quando se tratava de trabalhar, sempre que se podia esquivar, esquivava-se.

- Parece que somos só nós. – Disse Luc, olhando-me fixamente.

- Parece que sim. – Respondi, sorrindo.

Já só faltava pôr uma faixa a dizer “Feliz Halloween”.

- Eu posso pendurá-la. – Disse a Luc.

- Ok, eu vou guardar o que sobrou, volto já.

Subi ao escadote e com um pouco de magia, para chegar à faixa, pendurei um lado, depois o outro, mas quando ia a descer escorreguei e ia a cair, quando Luc me agarrou.

Senti-me a corar.

- Estás bem? – Perguntou.

- Sim, obrigada.

Ele era tão lindo, e tão forte, e parecia que estava sempre lá quando eu precisava dele.

Começou a aproximar a sua cara da minha. Parecia um momento de filme, em que se seguia o beijo… Mas eu desviei a cara.

- Já me podes largar sabes? – Perguntei, não muito alto, mas o suficiente para ele ouvir.

- Claro, desculpa. – Respondeu pousando-me no chão.

O ambiente ficou um pouco estranho. Ele ficou mais calado. Eu também não queria dizer nada, porque se dissesse, seria a coisa errada.

Voltámos para a sua casa, mas a caminhar. Vimos uma janela partida e corremos para ver o que tinha passado. Louis, Sheilla e Chad estavam de roda de uma mesinha, a olhar para uma folha de papel que dizia:

 

«Temulentus dormiens non est excitandus, tractent fabrilia fabri, ubi mel, ibi apis, abyssus abyssum invocat. Alea jacta est.»

 

- Ninguém acorde o cão que está a dormir, cada qual no seu ofício, onde há mel, há abelhas, um abismo atrai o outro. A sorte está lançada. – Sussurrei. – Que raio?!

De repente viraram-se todos para mim.

- Do que é que estás a falar? – Perguntou Sheilla.

- Do texto. É latim, não sabiam? – Era estranho não saberem, afinal, é uma língua muito dominada por bruxas e bruxos.

- Não. Não sabia que falavas latim. – Disse-me Chad.

- Aprendi no secundário. Não sou nenhuma especialista, mas sei o básico. Há montes de feitiços em latim, os mais poderosos até.

- Sim, nós sabemos que há, apesar de não sabermos falar, mas nunca pensei que soubesses falar latim. – Disse Louis, admirado.

- Mas mudando de assunto, quem é que mandou isto? – Perguntou Luc.

- Não sabemos, ouvimos o barulho do vidro a partir e quando chegámos vimos esse papel no chão, pegado a uma pedra. – Esclareceu Sheilla.

- Isso vai ser um problema. Que é uma ameaça nota-se, mas o que quererá dizer? Será que alguém o acordou e ele agora pensa que fomos nós e vem-se vingar? – Perguntei eu.

- Pois, não faço a mínima ideia. – Disse Luc.

Pareciam todos um pouco confusos.

Ouvi um zumbido e comecei a olhar em volta.

- Não ouvem?

- Não ouvimos o quê? – Perguntou Luc.

- Este zumbido. Parece uma...Abelha! – Exclamei.

- Não ouço nada.

- Não, está ali, uma abelha.

De repente já não estava uma abelha, mas sim uma mulher.

- Então, receberam a minha mensagem vejo. – Obviamente não era uma pergunta.

- Nota-se muito? – Perguntou Chad, que depois assumiu uma postura mais séria. – E tu, quem és?

- Neste momento? Um dos vossos piores pesadelos. Terminus pendeo in exordium e neste caso, eu comecei melhor que vocês. – Afirmou.

- Ela disse que o fim depende do princípio. – Esclareci eu.

Chad ia responder, mas ela desvaneceu-se. Transformou-se numa aranha e desapareceu.

- Óptimo, temos que combater a mulher-animal. – Disse Chad, num tom de gozo.

Fui buscar o livro. Estava na casa dos Connor desde que o tentaram roubar da minha. Era mais seguro, além disso, eu já lá passava mais tempo que na minha própria casa.

- O nome dela é Stellianthy. – Disse.

- Nome lindo. Acho que mulher-animal era melhor. – Brincou Chad.

- Como a destruímos? – Perguntou Luc.

- Aqui diz que não a podemos destruir na sua forma original, como uma mulher normal. O meu palpite é que talvez se ela se transformar num bicho qualquer, possamos matá-la. – Respondi.

- Bem, então acho que agora é só esperar. – Disse Sheilla.

- O que é que se passou aqui? – Perguntou uma voz aflita, por trás de nós.

- Claire, chegaste! Pensei que ias ajudar a enfeitar o High Spot. – Disse Sheilla.

- E ia, mas entretanto tive uma crise em casa. Apareceram formigas do nada, tive que chamar pessoas para as desinfestar e tudo. Mas estão todos bem?

- Sim, foi uma demónia. Possivelmente a responsável pelas formigas.

- Pois... o que sabemos dela?

Depois de Sheilla explicar tudo, Claire decidiu ficar e ajudar. Sue juntou-se a nós mais tarde. Sheilla e Louis decidiram deixar os meninos com Rick. Esperámos por algum ataque durante todo o resto do dia, mas à noite, chegou a um ponto em que nos deixámos de dormir lentamente, um a um.

Senti um calafrio, reparei que já não estava deitada no sofá fofinho de Sheilla, mas sim numa cama de pedra. Estava gelada. Levantei-me e olhei em volta, estava numa sala de pedra, toda ela. Não havia janelas e só havia uma porta, também ela de pedra. Tentei abri-la de todas as maneiras possíveis mas em vão.

- Vejo que acordaste. – Disse uma voz suave.

Meio segundo depois, Stellianthy estava à minha frente.

- Parece que sim. Onde é que estou? – Perguntei, com voz de poucos amigos.

- Num sítio muito especial para mim. Sabes, não conseguirás sair. Nem a explodir a porta vais conseguir sair daqui.

- Eu sei, já percebi, já tentei.

- Eu trouxe uns amigos especiais, espero que não te importes.

Saiu pela porta, que abriu com uma grande facilidade.

Ouvi uns sonsinhos, mas não conseguia identificar de onde vinham. Olhei para todos os lados, até que os vi, aos meus pés. Escorpiões. Dei um salto enorme. Tentei imobilizá-los, mas nada resultava, eram imunes. Desejei estar a sonhar, mas não estava. Era real. Subi para a cama de pedra.

- Luc, Luc consegues ouvir-me? Preciso de ajuda. Luc!

Sendo o meu anjo da guarda, esperava que me pudesse ouvir, porém não aconteceu nada.

Os escorpiões andavam atrás de mim. Eram imensos e estavam agora a subir para a cama. Estava a começar a entrar em pânico. Já tinha estado em muitas situações, mas nunca com escorpiões.

- Luc, por favor, se me ouves ajuda-me. Preciso de ti. Oh meu Deus, o que é que eu faço agora?!

Ouvi uns ruídos de trás da porta.

- Jô, estás ai?

Era a voz por que tanto esperava ouvir. Luc, ele tinha-me vindo salvar.

- Sim. Não consigo sair.

- Tem calma, nós vamos ajudar. Que se passa aí?

- São escorpiões, montes e montes de escorpiões.

- Ok, tem calma, está quase.

Apesar de os escorpiões estarem a chegar mais ao pé de mim, o som da sua voz fez-me acalmar. A porta abriu-se e os escorpiões desapareceram.

- Estás bem? – Abraçou-me.

- Sim.

- Detesto interromper este momento tão bonito mas podemos ir andando? – Disse Chad, sendo irónico.

- Pois, vamos lá. – Disse Luc ainda abraçado a mim.

- Jô estás bem. – Declarou Claire, com alívio.

Sue e Sheilla vinham atrás.

- Encontrámo-la, agora é esperar que ela se transforme. – Disse Sue, no seu tom de voz calmo.

- Ela não se vai transformar, não sabendo que estamos cá, não se tiver outra opção. – Disse.

- Então não lhe podemos dar outra opção. – Disse Chad.

- Que queres dizer?

- Precisamos de encurralá-la, não podemos ter medo dos bichos que ela nos põe à frente. – Quem me respondeu foi Sheilla.

- Fácil para ti dizer, não foste tu que ficaste fechada numa sala cheia de escorpiões.

- Nem tu. – Luc falava num tom sereno. – Não te lembras de ler que tudo o que ela criasse eram alucinações? Eles não eram reais, por isso é que os teus poderes não funcionavam.

- Eu tenho um plano. – Disse Chad, com um sorriso triunfador.

Passado um pouco entrámos todos na sala em que a nossa mulher-animal estava.

- Parece que ainda estás viva. – Disse ela para mim, mostrando-se descontente.

- Aparentemente.

- Bem, vamos ver se é por muito tempo.

Lançou-me mais escorpiões.

- Calma Jô, não são reais, lembra-te disso. – Sussurrou-me Luc ao ouvido.

Olhei para ele e acenei.

- O quê, não tens mais truque nenhum? Só escorpiões? – Perguntei em voz alta.

Pareceu indignada. Levantou a mão e saíram abelhas. Mas eu continuei.

- Nós não temos medo dos teus animaizinhos de estimação. Não tens mais nada?

Ela estava furiosa. Transformou-se numa leoa. Isso sim, era real. Estava à nossa frente, a rugir, pronta a atacar, e nós éramos a presas indefesas.

Chad assumiu a conversa.

- Aposto que consegues melhor. Que tal um dragão?

- Chad. – Advertiu-o Sheilla.

Stellianthy transformou-se então num dragão enorme e cuspiu uma labareda de fogo, porém, nós continuávamos sem mostrar medo. Ela estava encurralada, sem saída possível, estávamos em roda à sua volta. Transformou-se numa aranha de novo e quando ia a fugir pisei-a.

- A magnis maxima. – Disse-lhe. Olharam todos para mim. – Para grandes causas, grandes efeitos. – Esclareci.

Fui para a minha casa dormir.

Já era sexta-feira. A festa de Halloween estava a chegar. Fui até à casa dos Connor à tarde, mas só estava Luc. Estava a ler uns livros de bruxaria.

- Oi, passa-se alguma coisa? – Perguntei.

Ele parecia um pouco transtornado.

- Estás bem Luc? – Insisti.

- Ontem mal te consegui sentir, por um momento pensei que estivesses...

- Morta. – Completei.

- Eu só te quero mater viva percebes? Por isso é que quero que treines mais, e que caces mais, para ficares mais experiente, para quando for o momento da batalha estares pronta.

- Por muito bem que lute, vai sempre haver quem lute melhor. Eu aprecio que me queiras manter viva, eu também me quero manter viva. Mas para isso também tenho que comer, descansar, divertir-me… não pode ser só lutar, treinar, caçar. Tu levas isto tudo muito a sério.

- Só não quero que te aconteça nada.

- Raramente te divertes, já reparaste? Tenho uma coisa para te mostrar, anda.

- Agora, mas...

- Não há mas, anda lá, tu vais adorar. – Puxei-o.

Passeámos durante a tarde toda, mas o melhor sítio estava para vir. Andámos até ao parque, e atravessámo-lo todo.

- Ok, onde é que estamos a ir? – Perguntou desconfiado.

- Tem calma, estamos quase lá.

Passámos por um prédio em ruínas e chegámos a um sítio muito escondido.

- Não acredito. – Disse-me, de boca aberta.

- Eu disse que ias gostar.

À nossa frente estava um pequeno lago com uma pequena mas esplêndida cascata, uns arbustos em volta, algumas flores e um banco de pedra.

- Encontrei-a quando estava a fugir de um deles. Nem tudo é mau, ou vida ou morte. Eu não quero morrer, mas se não aproveitar a vida é como se já estivesse morta não achas? – Perguntei, andando em direcção à cascata.

- Não sei o que dizer. – Disse, seguindo-me.

- Óptimo.

Andei até ao meio do lago, através das pedras, sempre com ele a seguir-me. Parámos os dois na mesma.

- Eu não te compreendo, sabes? – Disse-me, olhando-me nos olhos.

- Então somos dois. – Respondi suspirando.

O momento de filme ia acontecer. Olhámo-nos os dois, aproximámo-nos e beijámo-nos. Foi maravilhoso. Já tinha tido alguns namorados mas nunca tinha gostado deles como gostava de Luc. No momento em que os meus lábios se cruzaram com os dele os problemas foram esquecidos. Era como se estivesse num sonho. A diferença é que ao contrário da maioria dos meus sonhos, deste eu não queria acordar. Escorregámos e íamos a cair, mas no momento em que abri os olhos estávamos no meu quarto, ele tinha-nos teletransportado.

Acordei na manhã seguinte, já era sábado, dia de Halloween e Luc… Luc estava deitado ao meu lado, ainda adormecido.

- Oh meu Deus, o que é que eu fui fazer?! – Perguntei a mim mesma.

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