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Destino Amaldiçoado

por Andrusca ღ, em 16.02.11

Capítulo 8

Halloween

 

Levantei-me, vesti-me e fui preparar o pequeno-almoço. Luc foi ter comigo pouco depois.

- Bom dia. – Disse sorridente.

- Bom dia. – Respondi.

- Jô nós... nós precisamos de falar.

Respirei fundo.

- Eu sei mas...

O meu telemóvel tocou.

- Salva pelo telefone. – Sussurrei. – Estou?

- Olá Jô, era para saber se sempre te vais mascarar para a festa de máscaras do High Spot, porque eu não sei do que me vestir e achei que se ainda não tivesses fato, podias ir comigo comprar e assim ajudavas-me. – Disse Sheilla, do outro lado da linha.

- Tem calma Sheilla, respira. Sinceramente já nem sei se estou no espírito.

- Mas aconteceu alguma coisa?

- Claro que não. Olha, eu já tenho roupa, mas posso ajudar-te. Dá-me dez minutos que já vou ter contigo.

- Óptimo, obrigada. Já agora, sabes do Luc? Ele não dormiu em casa.

- Não, bem tenho que ir. Até já. – Desliguei.

- Era a minha mãe? – Perguntou Luc.

- Sim era. Precisa de ajuda para o fato de Halloween. Tenho que ir ter com ela.

- O que significa que não vamos ter a nossa conversa. – Disse ele, dando um sorriso forçado.

- Pelo menos agora não. – Respondi enquanto bebia o leite. – Queres comer alguma coisa?

- Não, estou bem. Vamos, eu levo-te. Chegas lá mais depressa.

- Ok.

Chegámos à casa e Sheilla já estava à minha espera.

- Então, pensei que tinhas dito que não sabias do Luc. – Disse-me, olhando para nós, confusa.

- E não sabia, encontrei-o agora. – Menti, embora não muito bem.

Ele olhou para mim e notou-se que estava desiludido.

- Estás com cara de quem não dormiu muito. Tiveste algum pesadelo? – Perguntou Sheilla, preocupada.

- Não exactamente. Bem, vamos?

- Sim claro, deixa-me ir buscar as minhas chaves do carro. Também queres vir? Pode ser que encontres algo giro para usares. – Disse, dirigindo-se agora a Luc.

- Não, tenho a certeza de que não me vou mascarar. Divirtam-se.

Fomos até ao centro comercial, estavam filas horríveis, havia montes de pessoas a comprar os fatos à última hora. Já se viam crianças na rua, mascaradas, a bater às portas a pedir doces. Vimos vários fatos, Sheilla experimentou um de enfermeira, de freira e de sevilhana, mas não lhe agradou nenhum. Decidiu-se por fim por um à Capuchinho Vermelho. Após o comprar soltei um risinho.

- Que foi? – Perguntou.

- Nada é só que… eu gosto do Halloween porque me posso mascarar de qualquer coisa que não tenha a ver comigo, e se pensarmos bem, a Capuchinho Vermelho é a menina inocente e bondosa, e bem, tu és sempre a boa da história.

- Estás a dizer que te vais mascarar à loba má?

Começámos as duas a rir.

- Não, estou a dizer que, se me mascarar, vai ser a uma coisa que não tenha muito a ver comigo.

Voltámos para a mansão, os pequenos Chad e Luc já tinham sido vestidos pelas suas versões mais velhas, e por Sue e Claire, que também já estavam nos seus fatos, de Fada das Neves e Rainha, respectivamente. Os pequenos estavam de fantasmas. Sheilla foi vestir o seu fato para ir passear com os pequenos e pedir doces. Aparentemente, não era só eu que gostava do Halloween.

- Então e tu, não te mascaras? – Perguntou o adulto Chad.

Troquei um olhar com Luc.

- Sim, daqui a nada. – Respondi, sorrindo, sem vontade.

- Óptimo, eu levo-te a casa. – Disse ele, muito apressado.

- Ok...

Num piscar de olhos estava em casa, na minha sala de estar.

- Passa-se alguma coisa com o Luc? – Perguntou-me Chad, assim que chegámos, sem me dar tempo nem para respirar.

- Eu sabia que tinhas qualquer coisa na manga. Não sei. – Menti.

- Ele anda estranho desde manhã, e não passou a noite em casa.

- Pois, não sei de nada. Espera aqui que eu vou-me mudar.

- Sim minha comandante. – Gracejou.

Fiquei na dúvida se deveria ou não disfarçar-me, afinal, depois do que se passara com Luc não estava bem no espírito, apesar de ter adorado estar com ele, sabia que estava errado, por várias razões.

Decidi mascarar-me, até porque já tinha dito que o faria, e se voltasse atrás iriam perceber que alguma coisa não estava bem. Vesti um vestido cai-cai, preto e justo até à cintura, que depois caía rodado e com umas poucas riscas largas vermelhas brilhantes, era curto, não chegava ao joelho. Calcei umas botas de salto alto, pretas e curtas e pus uma capa como as dos vampiros. Pus uma sombra escura nos olhos e um risco com o lápis preto. Pintei os lábios de vermelho vivo. Quando saí do quarto Chad ficou sem reacção.

- Por isso é que gostas do Halloween hã?

- Claro, também posso ser a má da fita, de vez em quando. – Disse, rindo-me.

Já passava da hora do almoço por isso comemos lá na minha casa. Fomos ter com o resto da família depois.

- Bem, tenho que admitir que não estava à espera de uma vampira, pensei numa heroína ou uma coisa do género. – Brincou Josh.

- Também eu. – Concordou Claire.

- Eu disse, no Halloween, não sou eu, é uma pessoa completamente diferente. Neste caso, uma pessoa má. Muahahaha. – Gracejei, fazendo o meu riso maléfico, enquanto eles se riam.

- Tu estás... espectacular. – Disse Luc.

- Obrigada.

Passámos a tarde de um lado para o outro com os miúdos, o que fez com que eu e Luc não tivéssemos a nossa conversa. Chegou a noite, e com ela, a festa no High Spot.

O bar estava cheio e estávamos todos a divertirmo-nos muito até que a luz faltou por alguns segundos. Quando voltou, as pessoas estava todas viradas para nós. A música tinha parado.

- Matem as Bruxas. – Dizia uma.

- Elas devem morrer. – Apoiava outro.

- Devem todos morrer. – Sublinhava outro.

Entreolhámo-nos e corremos para a sala dos fundos, onde ficámos escondidos.

- O que é que se está a passar? – Perguntou Rick, apavorado.

- Tem calma querido, está tudo bem. – Disse Claire, embora a sua cara não fosse muito convincente.

- Era suposto hoje ser tipo um feriado para os demónios. O que é que se está a passar? Porque é que as pessoas estão a ficar loucas? – Perguntei eu, enquanto ajudava a barricar a porta.

- Não sei. – Respondeu Chad. – Bem, isto parece o Baile dos Mortos-Vivos.

Olhámos todos para ele, não era hora de piadas.

- Ok, desculpem, têm razão, não é engraçado.

- Temos de ver se há alguma coisa no livro. – Disse Luc.

- Também acho. – Respondi.

- Então vão, nós vamos tentar impedi-los de saírem do bar, ver se não fazem estragos. – Disse Sue.

Neste momento o que menos queria era ficar a sós com Luc, mas que outra solução é que havia?

- Tudo bem. – Concordei.

Luc agarrou-me e teletransportou-nos. Abri os olhos e... estava no mesmo lugar. Então lembrei-me que no meio da confusão, nenhum de nós tinha usado os poderes, tínhamos apenas… fugido. Tentei mover qualquer coisa. Nada. Nem explodir, nem mover, nenhum de nós conseguia usar os poderes, era como se nunca os tivéssemos recebido.

- Vão a conduzir. – Disse Josh enquanto dava as chaves do carro a Luc. – O meu carro está aqui perto estacionado. Vão.

Apesar de ser um anjo da guarda, Josh levava uma vida muito normal e moderna, até porque não tinha muitas pessoas para tomar conta, por ser casado com Sue.

Saímos pelas traseiras e corremos em direcção ao carro. Era um Volkswagen Scirocco, de cinco lugares, cinzento por fora e preto por dentro, com pele. Quando Luc ia tirar as chaves do bolso um homem jogou-se contra ele, derrubando-o. Atrás dele vinham muitas outras pessoas, com os seus disfarces de Halloween, algumas com espadas, outras usavam ancinhos, armas de todo o tamanho e feitio. Lutei com algumas, tentando ao máximo não as magoar muito, porque apesar de tudo, o que estava a acontecer não era culpa delas. Conseguimo-nos livrar delas por uns segundos e entrámos no carro. Luc conduzia a toda a velocidade, tentando chegar a casa o mais rapidamente possível. Era a primeira vez que o via a conduzir. Quando chegámos a casa a rua estava deserta, entrámos e barricámos portas e janelas, pois mais cedo ou mais tarde haveriam de ir lá à nossa procura.

Fomos ao escritório buscar o livro mas só encontrámos uma pequena advertência sobre um ritual que se passava de 200 em 200 anos, na noite de Halloween. Aparentemente na noite de Halloween as bruxas perdiam os seus poderes e as pessoas conseguiam perceber quem elas eram e caçavam-nas para as matar, como faziam com as Bruxas de Salém. Não dizia como parar, apenas que não poderia ser evitado. Voltámos a guardar o livro. Telefonei a Sheilla e contei-lhe sobre o que sabíamos, ela disse que estavam todos bem e que nós devíamos ficar em casa, estaríamos mais seguros, visto que a nossa magia não funcionava. A ideia de ficar sozinha naquela casa com Luc não me agradava muito, mas fui obrigada a concordar.

- Já que vamos ficar em casa, sozinhos, podíamos ter a nossa conversa não achas? Tens andado a fugir do assunto e a evitar-me o dia todo. – Disse Luc, entregando-me uma faca que fora buscar à cozinha.

- Uma faca? Para que é que eu quero isto?

- Para te protegeres, não sabemos ao certo se podem ou não entrar aqui.

- Nós não os vamos magoar, eles são inocentes, não podemos...

- Agora quanto à nossa conversa... estou à espera.

- Eu não quero ter essa conversa. – Disse olhando-o nos olhos. – Mas cá vai: eu gosto de ti, muito, mas o que aconteceu foi um erro, não devia ter acontecido e eu sei que me devia ter esforçado mais para que não acontecesse, mas aconteceu, e agora já está, mas nós não podemos continuar porque não está certo. Porque eu vou morrer, lembras-te?

Ele parecia triste e passados uns momentos respondeu-me.

- Pensava que tinhas dito que o futuro não interessava, que devíamos viver o presente, aproveitá-lo, foi isso que eu fiz.

- Luc…

- Não, deixa-me acabar. Eu gosto de ti, gosto mesmo muito de ti e espero poder evitar a tua morte, mas não sei que conseguirei, e se não conseguir, eu gostava de aproveitar enquanto ainda estás viva. Tu és importante para mim, muito importante.

E depois o quê? Em vez de chorar a morte de uma amiga chorava a de uma namorada? Como é que isso era justo?

- Luc eu... eu não posso, desculpa.

Ele parecia devastado. Ouvimos um vidro a quebrar e vimos pessoas a virem direitas a nós. Corremos escadas acima.

- Vamos separar-nos, vai pela direita, eu pela esquerda e Jô, eu sei que não os queres magoar, mas promete-me que se não tiveres outra alternativa o farás. Tem cuidado.

- Prometo, tu também.

Entrei no quarto da Sheilla, estava apavorada, ainda bem que os pequenos se encontravam agora com o avô. Escondi-me debaixo da cama. Estava mais assustada por saber que eram pessoas inocentes e por não as querer magoar do que se fossem demónios. Nós não tínhamos qualquer plano, éramos só nós, eu mascarada, a escondermo-nos e a fugir, tentando sobreviver à noite. Esperava que quando o sol nascesse tudo voltasse ao normal. Ouvi a porta abrir-se e o chão ranger. Espreitei e vi um sapato preto enorme com um laço vermelho. A colcha começou a levantar-se lentamente e uma cara toda pintada de branco, com uma grande bola vermelha no nariz, espreitou, sorrindo maleficamente. Soltei um grito e rastejei até ao outro lado da cama mas ele agarrou-me pelo pé e estava a puxar-me para trás. Dei-lhe um pontapé com o pé que estava livre e saí de debaixo da cama. Ele estava com um fato vermelho, com bolas de todas as cores e tinha um facalhão enorme nas mãos. Estava agora a dirigir-se para mim. Saltei para a cama e fugi do quarto. Desci as escadas a correr e entrei na cozinha. Enquanto estava a fugir tirei a capa, dificultava-me a fuga. Fiquei aterrorizada, as facas já tinham sido todas levadas. Havia mais pessoas na casa do que pensava. Escondi-me dentro de um armário.

- Ridículo, estou a ser perseguida por um palhaço maquiavélico e mais não sei o quê e escondo-me num armário. – Resmunguei, sussurrando.

Reparei que o palhaço me tinha acertado com o facalhão sem que eu notasse e rasgou-me um pouco do vestido, e fez-me um arranhão na perna. Perguntei-me como estaria Luc. A cara dele depois da nossa conversa metia-me pena, eu sei que não deixei mostrar, mas estava tão devastada como ele.

Ouvi passos e gelei completamente. A porta do armário abriu-se e estava um drácula a olhar para mim. Usava um fato preto, sapatos pretos, uma capa parecida à minha e uns dentes falsos. Tinha uma das facas da cozinha na mão. Agarrou-me, pôs-me ao ombro e levou-me para a sala. Eu esperneava e tentava soltar-me, mas não adiantava.

- Larga-me. Deixa-me em paz. – Gritava eu.

Ele mandou-me para o sofá. À minha frente estavam várias pessoas, vestidas de fantasmas, um lobisomem, anjos, e o palhaço maquiavélico que me tinha encontrado no quarto. Todos eles estavam muito direitos, como zombis, com facas nas mãos, a olharem para mim. Desejei ter os meus poderes, seria tudo bem mais fácil. E o sol? Quando nasceria de novo? Ouvi passos e olhei para as escadas. Luc vinha a andar, sendo empurrado por um cavaleiro dos tempos antigos. Sentou-se no sofá e o cavaleiro juntou-se aos outros, encarando-nos.

- Estás bem? – Perguntou-me Luc, em tom baixo.

- Sim, e tu?

- Também.

Mal me olhava nos olhos.

- A bruxa deve morrer. A bruxa tem que morrer. – Dizia um deles.

- O bruxo fica para me servir. Ele deve ver a bruxa queimar. – Dizia outro.

- Se morrermos agora... – Começou Luc.

- Não vamos morrer. – Interrompi.

Ele soltou um sorriso, embora pequeno.

Vi os mascarados a fazerem uma fogueira com os móveis. Queriam-me queimar.

- A Sheilla vai-nos matar quando descobrir que os deixámos arruinar a casa. – Disse eu, olhando para Luc, para tentar aliviar o ambiente. Ele soltou uma gargalhada baixinha.

- Se eles não nos matarem antes. – Sussurrou.

O palhaço agarrou-me e prendeu-me a um poste, construído por eles, de madeira, mas muito forte. Ele estava-se a rir, maquiavélicamente, à espera do desfecho da história.

Luc gritava para eles pararem mas nada podia fazer pois tinha sido agarrado por uns cinco deles. O cavaleiro acendeu um fósforo e mandou-o para a madeira, fazendo com que começasse tudo a arder à minha volta. Estava a ficar com muito calor, o fogo começava-se a aproximar muito rapidamente quando de repente tudo desapareceu. O poste em que estava amarrada desapareceu e eu caí para trás. Luc ajudou-me a levantar. Os móveis que supostamente estavam queimados, permaneciam agora nos seus sítios habituais, as facas estavam onde pertenciam e as pessoas desapareceram. O meu vestido estava intacto e nem eu nem Luc tínhamos um arranhão sequer. O sol tinha nascido. Explodi uma almofada, sorrindo de seguida por saber que os poderes tinham regressado.

O resto da família chegou, fora toda teletransportada por Sue, Josh e Chad. Estavam todos bem. Disseram que o High Spot estava intacto, como se aquela noite não tivesse acontecido. Tinha sido uma noite de esquecer, um verdadeiro filme de terror e no entanto, horas depois, ninguém além de nós se lembrava. Sue levou Claire e Rick a casa e depois foi com Josh para a sua.

- Bem, eu também vou para casa. – Disse.

- Queres que te leve? – Perguntou Luc.

- Não é preciso, obrigada. – Respondi.

Ele agarrou-me num braço, suavemente e puxou-me, sussurrando-me ao ouvido.

- Tu vais viver, eu não vou desistir de ti.

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