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Destino Amaldiçoado

por Andrusca ღ, em 17.02.11

Capítulo 9

Bebé

 

Acordei já deviam ser onze horas. Fui dar uma volta e comprar umas coisas que precisava para a casa e para mim. Quando cheguei a casa, Sue estava à minha espera. Assustei-me e derrubei os sacos, espalhando as compras pelo chão da entrada.

- Bom dia. – Disse ela, ajudando-me a apanhar as coisas. – Andas um pouco stressada não?

- Um bocado. – Respondi. – Não estava à espera de encontrar ninguém em casa…

De repente o rosto dela assumiu outra feição. Uma feição mais preocupada.

- Um teste de gravidez? – Perguntou, indignada a olhar para mim, enquanto apanhava o pacote do chão.

Fiquei sem palavras mas recompus-me.

- Sim. – Respondi com os olhos fixados no chão enquanto apanhava o resto das coisas e as metia nos sacos.

- Não sabia que estavas a ver alguém.

- Não estava, quer dizer, não estou.

- E no entanto vais fazer um teste de gravidez.

- Pois… - Estava a ficar sem argumentos. – Não te preocupes com isso, de certeza que não é nada.

- Bem, vim saber se querias vir jantar à minha casa hoje. Eu e o Josh finalmente acabámos de a preparar e vamos dar um jantar.

- Acabaram de a preparar, mas vocês já a compraram há tanto tempo.

- Pois, mas temos estado sempre ocupados… enfim, contamos contigo. Até logo.

Foi-se embora sem me dar tempo para responder.

Arrumei as compras e dei um jeitinho à casa. Reparei que já há muito tempo que não a limpava como deve de ser, mas também não ia ser hoje. A cara de Luc veio-me à cabeça. Não falava com ele há três dias. Passaram-se duas semanas desde a nossa conversa e apesar de continuarmos a treinar juntos, as coisas tinham-se modificado muito.

Ele tinha estado fora numa caçada. Supostamente regressou hoje de manhã.

Fiz o teste de gravidez e depois ouvi a campainha e fui abrir. Fiquei chocada.

- Estou Sheilla? – Disse, pelo telefone.

- Sim querida, tudo bem? – Respondeu Sheilla.

- Não exactamente. Tenho um bebé.

- Como assim?

- Eu explico depois, podes vir cá ter à minha casa? Agora?

- Claro.

Desliguei e passados poucos minutos Sheilla chegou, com Chad, Luc e Sue. Luc veio ter comigo num passo apressado e abraçou-me.

- Eu sei que não queres ter nada comigo, mas quero que saibas que estou aqui para o que precisares, não vai faltar nada a esta criança, prometo.

- Hã? – Perguntei, confusa, afastando-o.

- Sim, a Sue disse que tinhas um teste de gravidez e tu telefonaste a dizer que tinhas um bebé.

- Whoa, whoa, whoa, eu não estou grávida Luc.

- Não? Mas disseste que tinhas um bebé… - Ele parecia tão confuso como eu.

- Pois… - Disse eu, apontando para o sofá.

- Como é que ele apareceu aqui? – Perguntou Chad.

- Não é um ele, é uma ela. Tocaram à campainha mas eu só a vi a ela. Mas trazia um bilhete. – Esclareci.

Mostrei-lhes o bilhete.

 

«Pedimos-lhe que trate da nossa filha. Neste momento não temos as condições necessárias para cuidar dela. Ela chama-se Cynthia e é muito sossegada. Por favor trate bem dela.»

 

- Uau. – Começou Sheilla. – Que vais fazer agora?

- Não sei, é obvio que não vou ficar com ela, quer dizer, ela parece adorável mas eu não tenho vida para isso, além disso há sempre demónios à minha volta, não a ia querer criar num ambiente desses. Estava a pensar em encontrar os pais dela.

- Os meus filhos cresceram num ambiente desses e desenvolveram-se muito bem.

- Pois, mas eles têm poderes para se defenderem. A Cynthia é indefesa.

- Como é que pretendes encontrar os pais dela? – Perguntou Chad.

- Não sei, eles enviaram uma manta junto com ela, é uma manta muito rara e muito cara, eu sei porque tive uma destas. Pensei em ver quem comprou as mantas e visitar as pessoas.

- Boa ideia. – Disse Luc ainda sem me olhar directamente.

- Vocês estão estranhos, os dois, e não é de hoje. – Disse Sue. – Porque é que a abraçaste quando chegámos e pensávamos que ela estava grávida. E porque é que disseste que a ias ajudar?

- Oh meu Deus! – Gritou Chad logo após Sue falar. – Vocês dormiram juntos?!

Ficámos os dois sem reacção.

- Dormiram mesmo, ai mãezinha… tens a certeza que não estás grávida? – Continuou, quase em pânico.

- Sim tenho.

- Então o quê? Vocês agora namoram, é? – Perguntou Sheilla.

Pela primeira vez em algum tempo Luc olhou-me directamente e nem ele nem eu sabíamos o que dizer.

- Não. Foi só uma noite. – Acabou ele por dizer.

- Exacto. – Disse eu. «Foi só uma noite», o problema era que não me sentia assim, apesar de o afirmar. Estas palavras, «foi só uma noite», arderam como se me tivessem aberto ao meio e feito uma fogueira dentro de mim.

- Têm a certeza? – Não sei porquê, mas ao contrário do que pensei, ela não pareceu nada aliviada.

- Absoluta, fica descansada Sheilla. – Confirmei.

- Até que não ficava muito mal, quer dizer, sem sobrinhos por enquanto. – Disse Chad.

Eu e Luc trocámos um olhar como os de antigamente.

- Bem, eu procuro os compradores das mantas. – Disse Sue, quando percebeu que eu e Luc estávamos a ficar desconfortáveis com o rumo da conversa.

- Eu ajudo. – Apressou-se Luc a dizer.

- Eu tenho que ir levar o lanche aos pequenos, o Chad hoje tem uma festa de aniversário lá na escola e fiz um bolo. Passo pela sala do Luc e entrego um também para não ficar com ciúmes.

- Vão-me deixar aqui sozinha com ela? – Perguntei aflita, apontando para a bebé.

- Há algum problema?

- Bem, e se acontecer alguma coisa, quer dizer, eu não sou muito boa com crianças e…

- Jô, tu és óptima com crianças, tu és babysitter dos meus filhos e além disso adoras a pequenada. Vais-te sair lindamente.

- Não te preocupes, eu fico contigo. – Disse Chad.

- Boa, agora vou ter que ser babysitter de duas crianças. – Brinquei.

Todos se foram embora há excepção de Chad, que ficou comigo e com a bebé. Cynthia parecia muito frágil. Ainda não tinha muito cabelo, era muito novinha, aparentava talvez quatro, cinco meses. Tinham-na deixado dentro de uma alcova com a manta que Sue levou, com o papel, com uma chucha, uma fralda de pano e um coelho de peluche. Todas as coisas aparentavam ser muito caras, desde a roupa que ela vestia até ao que se encontrava dentro da alcofa, de certeza absoluta que ela não era indiferente aos pais, talvez tenha sido uma questão que necessidade. Tinha estado a dormir mas agora acordara. Tinha uns olhos castanhos-escuros.

Começou a chorar e eu agarrei-a ao colo.

- O que é que se passa? – Perguntou Chad, ficando aflito.

- Não sei, talvez tenha fome ou cólicas.

- A mim parece-me que é da fralda.

- Pois, agora já notei obrigada. – De repente lembrei-me. – Chad, não temos fraldas!

- E agora? As do Luc não lhe cabem?

- Cabem-lhe demais, o Luc já tem quase dois anos e ela deve ter uns cinco meses. – Também já estava na altura de Luc largar as fraldas…

- Pois… e agora?

- Agora vais comprar umas fraldas, mas despacha-te.

- Eu?

- A não ser que queiras ficar aqui com ela enquanto eu vou.

- Até já.

Chad não se demorou muito. Regressou com três pacotes diferentes de fraldas. Disse que não sabia quais comprar por isso achou melhor trazer várias.

Sue regressou pouco depois.

- Tinhas razão, não foram vendidas muitas mantas daquelas. Apenas 30.

- Agora só temos que ver quem as comprou e que seja daqui perto. – Disse Chad.

- Já fiz isso. – Continuou Sue. – Desta zona só duas famílias compraram. Os Straccionars e uma velhinha, a senhora Randall.

- Eu apostava nos Straccionars. – Disse eu.

- Boa, eu e o Chad vamos lá. A bebé está a começar a deixar-se de dormir, era boa ideia pô-la na cama não achas Jô?

- Primeiro vou dar-lhe comida. Trouxeste leite certo Chad?

- Sim já pus no frigorífico. Até logo.

- É a segunda vez que me deixam contigo. Bem, vamos lá comer. – Disse eu, para a pequena Cynthia.

Dei-lhe um biberão de leite e deitei-a na minha cama. Deixou-se de dormir logo de seguida. Quando saí do quarto dei de caras com Luc.

- Vim ver de ti, como é que te estás a aguentar?

- Mais ou menos. Obrigada, apesar de não estar grávida, foi bom saber que se estivesse podia contar contigo.

- Joanna, tu podes sempre contar comigo. Para tudo.

- Eu sei. – Respondi, deixando escapar um sorriso.

A bebé começou a chorar outra vez. Entrámos os dois no quarto e ela estava de barriga para cima, a olhar-nos e começou a rir-se. Deitei-me ao lado dela, tentado fazer com que se acalmasse, e que dormisse. Voltou a adormecer e nós fomos para a sala.

- Ela acorda muitas vezes? – Perguntou Luc.

- Algumas, mas depois deixa-se sempre de dormir. Pelo menos até agora…

- Sabes, quando eu era mais novo costumava ouvir histórias, sobre ti, como nos tratavas.

- A sério?

- Sim, o Chad contava-me algumas, apesar de não ser lembrar muito bem, ao menos tinha algumas lembranças, eu não tinha nenhumas. Ele dizia que tu eras muito bonita, e muito querida, mas também muito forte e teimosa. – Ri-me.

- É típico dele. – Comentei.

- E agora poder vir aqui e ver que isso é tudo verdade, e pensar que um dia vou estar a pensar em tudo aquilo que foste antes de…

- Ei, quem sabe, talvez isso não aconteça.

- Positiva até ao fim.

- Sempre.

Ouvimos um estrondo vindo do quarto.

- O que é isto? – Perguntei sobressaltada.

Corremos até lá e vimos um demónio, ao lado da cama, pronto a agarrar na bebé. Era de um nível inferior por isso explodi-o. A bebé estava a chorar. Fui ter com ela e agarrei-a, apertando-a contra mim.

- Shh, está tudo bem, está tudo bem. – Dizia-lhe.

Sue voltou e confirmou que aquela família era a família da pequena Cynthia. Luc teletransportou-nos até lá e entregámos a bebé aos pais. Eles pensavam que o demónio só ia atrás dela dentro de casa, por isso acharam melhor dá-la, para a sua segurança. Depois de lhe explicarmos o sucedido, tudo ficou bem e voltámos para as nossas vidas. Afinal, tinha sido apenas coincidência que Cynthia tenha ficado à minha porta. Uma feliz coincidência.

Anoiteceu. Estávamos todos reunidos na casa de Sue e Josh.

- Então maninho, parece que gostas mais da babysitter que devias. – Ouvi Chad dizer a Luc, mas não ouvi a resposta.

O jantar correu lindamente, a comida estava maravilhosa e já era tarde quando fui para casa. Sue levou-me.

- Podemos falar um bocadinho? – Perguntou.

- Claro, diz.

- Estás bem?

- Claro que sim, que pergunta é essa? O que é que queres saber mesmo?

- Jô, o que se passou com Luc, não foi só uma noite pois não?

Respirei fundo.

- Foi.

- Gostarias que fosse algo mais?

- Eu acho que estou apaixonada por ele Sue. – Disse-lhe, enquanto sentia uma lágrima a escorrer-me pelo rosto.

- Então querida, que se passa? Qual é o problema?

- O problema é que ele também gosta de mim.

- Mas isso é bom Joanna.

- Não, não é, porque o meu futuro não é bom.

Ela fez uma cara de quem não estava a compreender.

- No futuro deles, eu não existo Sue. Eu vou morrer, e vou morrer em breve.

 

Que acharam?

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