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Destino Amaldiçoado

por Andrusca ღ, em 25.02.11

Capítulo 19

A Proposta

 

A minha vida voltara à normalidade. Andava de novo de um lado para o outro atrás de demónios e a salvar pessoas. Continuava triste e magoada com Luc, apesar de termos conversado e de concordarmos em tentarmos ser amigos. Este já parara de beber e também diminuiu na quantidade de demónios a enfrentar.

A cara de Kevin antes de morrer não me saía da cabeça, a forma como me olhou e também as palavras que disse. Depois do funeral dele destruí mais três demónios e, apesar de estar feliz por estar de novo com os meus amigos, a sensação de vazio continuava cá.

Neste momento estava deitada na minha cama, a pensar em todas estas coisas quando Chad chegou, teletransportado, no meio do meu quarto.

- Acorda Bela Adormecida! – Exclamou, tirando-me os lençóis de cima. – Está um lindo sol lá fora e já é quase meio-dia. Ficar na cama com preguiça é um desperdício de tempo.

- Bom dia para ti também. – Disse, puxando de novo os lençóis para cima de mim. – Para estares com essa conversa deves ter sido empurrado da cama.

- Vá lá. Há montes de coisas para se fazer. Devias aproveitar, és linda, nova e cheia de vida e saúde. – Disse, sentando-se aos pés da cama.

- Ok. – Disse-lhe, sentando-me. – Vou morder o isco… o que é que se passa?

- Não achas graça à conversa pois não?

- Nada mesmo.

- Foi assim que fui acordado. – Lamentou-se, com uma cara chateada.

Soltei uma gargalhada.

- Não tem graça! – Apressou-se a dizer-me.

- Pois, claro que não, claro que não. – Disse, tentando permanecer séria. – Tu é que tiveste azar, eu já estava acordada! – Disse, rindo-me de novo.

Ficámos na brincadeira durante um tempo e depois “expulsei-o” do quarto para me vestir. Vesti umas calças pretas justas, um top roxo escuro e umas sandálias prateadas de salto alto. Fiz duas tranças no cabelo. Combinámos pedir comida e acabámos por comer chinesa no meu sofá, a ver um filme cómico. Lembrei-me de como Chad podia ser divertido, afinal, não era à toa que ele era o meu melhor amigo. Ele começou-se a rir.

- O que foi? – Perguntei-lhe.

- Acho que depois de todo este tempo, nunca te tinha visto com tranças. Muito menos tranças loiras.

- Que engraçadinho. – Disse-lhe, mandando-lhe com uma almofada.

O meu telemóvel começou a tocar mas não reconheci o número. Atendi.

- Estou sim? – Disse.

- Joanna Cronwell? – Perguntaram do outro lado.

- A própria, com quem falo?

- Eric, Eric Paston. Conhecemo-nos nas Bahamas…

- Sim, Eric, eu lembro-me.

Ao ouvir-me pronunciar o nome de Eric, Chad mostrou-se muito mais interessado na conversa.

- Era para falar sobre o que propus lá na ilha. Tratei de tudo, a decisão agora é consigo mas os meus sócios adoraram o que lhes disse sobre você. Se decidir aceitar telefone-me. Ah, tem que tomar a sua decisão até amanhã, sexta-feira…

- Ok, sem problemas.

- Porque o avião mais rápido sai no sábado.

- Desculpe, avião?

- Sim, para o Japão.

Engasguei-me.

- Japão… - Repeti. - Ok, bem, eu telefono até sexta à noite. Falamos depois então. – Disse-lhe.

- Muito bem. Tome conta de si Joanna.

- Igualmente.

Desliguei e encostei-me para trás, rapidamente. Chad ficou a olhar para mim com uma cara de intriga.

- Quem é esse tal Eric? – Perguntou-me.

- É só um homem que eu conheci nas Bahamas. – Respondi, ainda atordoada.

- E o que é que o Japão tem a ver com ele?

- Ele é um empresário, conheci-o num bar nas Bahamas e ele meio que me ofereceu um emprego com VJ, é para apresentar vídeos em eventos ao vivo ou músicas novas que saem para os Tops, na televisão. Ele fez-me umas perguntas e agora telefonou-me a dizer que consegui o emprego.

- Mas isso é óptimo.

- Pois é. É óptimo e é no Japão. Aparentemente é o primeiro canal americano de VJ lá.

A cara dele modificou-se.

- Tu não vais aceitar pois não? – Perguntou-me ansiosamente.

- Não sei, eu disse-lhe que ia pensar.

- O que é que há para pensar? Jô, isso é na China…

- Japão. – Corrigi-o.

- Mesmo assim. Tu não podes ir, então e nós?

- Mesmo que aceite, isto não muda absolutamente nada entre nós.

- Claro que não. – Disse, meio chateado.

- Tu ias-me visitar a toda a hora. Até nem vai ser mau.

- «Vai»? «Até nem vai»? Então significa que vais aceitar?!

- Eu estou a ponderar. Com muito cuidado.

- Incrível, acabaste de voltar e já te queres afastar outra vez.

- Chad…

Ele desapareceu. Respirei fundo. «Perfeito, exactamente o que precisava.» Pensei.

Deitei-me na cama e pus os fones nos ouvidos. Estava a ouvir uma música dos 3 Doors Down, o que me fez lembrar a primeira vez que pus os pés no High Spot. Veio-me um sorriso aos lábios. Decidi ir dar uma volta, desci as escadas e andei sem rumo durante um bom bocado. Vi uma mulher a ser perseguida e comecei a correr para a ajudar, mesmo que não fosse um demónio, podia sempre dar uma mãozinha, além disso, sentia-me um bocado impotente, desde o que acontecera com Kevin. A mulher parou atrás de umas árvores no parque e eu vi-a a desviar-se de um relâmpago. «Raios!» pensei. Corri até ela, apesar de já se encontrar estendida no chão, imóvel, por causa de outro relâmpago. O demónio encontrava-se em cima de uma árvore a rir.

- Esta, já não respira. – Dizia, a cantarolar vezes sem conta até desaparecer.

«Não, não, não, outra vez não, por favor, outra vez não» pensava, vezes sem conta.

Baixei-me ao pé dela e tentei encontrar batimento cardíaco… mas nada. Estava morta. Chamei uma ambulância e corri para casa. Subi as escadas em poucos segundos e entrei em casa, batendo com a porta. Corri até ao quarto e mandei-me para cima da cama, onde permaneci imóvel durante breves segundos. Levantei-me e tirei as malas de viagem de baixo da cama. Comecei a tirar roupa do roupeiro e a guardá-la. O meu telemóvel tocou pouco depois.

- Jô, ainda bem que atendes. Temos um problema. Podes vir aqui? – Era a voz de Sue.

Sabia que se referia à casa dos Connor.

- Claro, dá-me um quarto de hora.

Fui ter a casa deles e vi um casal com três crianças na sala. Disse-lhes bom dia e fui até à cozinha.

- O que é que se passa? – Perguntei a Claire.

- Um demónio tentou matá-los, por sorte eu ia a passar. – Explicou-me. – Eles vinham da morgue, a irmã da rapariga morreu.

- O mesmo demónio? – Perguntei.

- Aparentemente. É um dos lança-relâmpagos. – Disse Sue.

Sentei-me, um bocado atordoada. Olhei para elas.

- Eu vi-o. No parque, matou uma mulher. Eu não cheguei a tempo. – Disse, culpando-me. – Se tivesse chegado dois segundos antes…

- Não podias ter feito nada. – Disse Luc, que acabara de entrar.

- Acho que isso nunca vamos saber.

Disseram-me que Lynn e Tom Killingh já tinham sobrevivido a vários ataques e que se têm estado a mudar de cidade em cidade. A irmã de Lynn, Mary, fora a mulher que tentei ajudar no parque. Também tem estado a fugir, tal como eles. Aparentemente este demónio já matou os pais de Lynn e agora, a sua irmã. Lynn percebeu que Claire era uma bruxa, por isso é que lhe pediu ajuda para proteger o marido e os filhos.

Fui com a família Killingh para a casa deles, para os proteger caso acontecesse algo. As irmãs asseguraram-lhes que eu era a pessoa mais adequada para os proteger, apesar de neste momento eu duvidar disso com todas as minhas forças.

O demónio apareceu algum tempo depois e lutámos. Ele acabou por levar uma das crianças, a rapariga, que devia ter pouco mais de seis anos. Chamámos imediatamente os Connor que foram ter connosco num abrir e fechar de olhos. Lynn e Tom não paravam de chorar, naturalmente, e eu sentia-me tão culpada que tive que sair dali.

Saí do prédio e encostei-me à sua parede, respirando fundo vezes e vezes sem conta. Chad apareceu atrás de mim.

- O que é que foi aquilo? Tu não podes sair assim a correr, estás-te a passar? E os teus deveres? E o que deves àquela família? Estás-me a ouvir Joanna?! – Disse-me furioso.

- Desculpa, eu só... eu não consigo. Desculpa. – Pronunciei, correndo de seguida pela rua abaixo.

Entrei pela casa dos Connor e dirigi-me ao escritório, tirei o meu livro do sítio e comecei a folheá-lo. Encontrei o demónio e os ingredientes para a poção para o destruir. Fiz a poção e um feitiço para me levar até ele.

Depois de ler o feitiço, quando abri os olhos, estava no parque, onde tinha visto Mary morrer, e o demónio estava em cima da mesma árvore. Vi a pequena rapariga acorrentada a uma árvore, mas ao lado dela estavam os pais e o irmão. Os Connor estavam também lá, mas encontravam-se inconscientes. Eu já começava a desesperar, já não conseguia proteger ninguém. Nem as pessoas que devia proteger nem as pessoas de quem gostava. No fim, acabavam sempre por sair magoadas com toda esta história. Elas e eu. Avancei até ao demónio quando ouvi uma voz muito débil e inocente.

- Cuidado. – Disse-me a menina. – Ele é invisível.

Quando voltei a olhar para a árvore ele já não estava lá. Olhei em redor e também não o vi. Senti um empurrão vindo de frente mas não vi nada. Caí no chão.

- Invisível. – Repeti baixinho. – Como é que luto contra algo que não vejo?

Levei com um pontapé na barriga, o que me fez inclinar ainda mais, ainda estendida no chão.

- Oiço. – Disse para mim mesma.

Levantei-me e fechei os olhos. Estava demasiado barulho, os choros, os gritos dos pais para as crianças... tudo.

- Calem-se! – Gritei.

Ouvi um pequeno ruído atrás de mim e bloqueei um ataque dele. Continuei com os olhos fechados e bloqueei ataques atrás de outros até que ele se mostrou.

- Porquê? – Perguntei-lhe. – Porquê esta família? Porquê matá-los a todos?

Ele simplesmente sorriu e respondeu.

- Porque é divertido.

Uma onda de fúria inundou-me. Mandei-lhe a poção e ele desvaneceu-se.

Depois de libertar todos disse aos Connor que tinha aceitado o emprego e que ia para o Japão. Ficaram tristes mas no fim desejaram-me boa sorte. Convidaram-me para ir ao High Spot na noite a seguir para uma pequena festa de despedida. Fomos todos, cada um para a sua casa.

Passei o dia de sexta-feira todo a fazer malas e a cobrir os móveis por causa do pó. Estava triste por partir mas no fundo era uma coisa que me ia fazer bem. Já passava da hora de jantar quando Chad apareceu.

- Vais mesmo? – Perguntou-me, triste.

- Vou. Vais ver que não é nada de especial, podes estar sempre lá.

- Eu não acredito que vais mesmo. – Disse-me, num tom desiludido. – Depois de tudo o que passámos, depois de tudo vais mesmo desistir...

Reparei que não era uma pergunta.

- Não é uma desistência, é uma mudança Chad.

- Chama-lhe o que quiseres. Tu já ajudaste tantas pessoas, já salvaste tanta gente!

- Então e eu hã?! Quem é que me ajuda a mim? Quem é que me salva? Eu não aguento mais Chad… Não aguento perder mais ninguém. Não aguento continuar com esta vida! Bolas, eu tenho 21 anos, devia estar preocupada com a universidade, com roupa, mas não, eu não me posso preocupar com isso quando tenho que salvar o mundo repetidamente!

- Jô...

- Eles morreram... Kevin, Mary... Faz-me perguntar quem será o próximo...

- Isso não assim tão preto e branco Jô, as coisas acontecem e as pessoas vão sempre morrer.

- Pois, mas o Kevin morreu porque se dava comigo. Assim como os meus pais.

- A morte deles não teve nada a ver contigo, simplesmente aconteceu. Lembras-te quando eu e o Luc chegámos do futuro e eu deixei aquela mulher, Karen, morrer? Tu disseste-me que não podia ficar agarrado às perdas. Disseste que me devia concentrar nas vitórias e nesse caso, Karen morreu, mas o marido e os três filhos sobreviveram e acabaram por ficar bem. Disseste que havia o preto e o branco mas que no nosso mundo também havia uma zona mais confortável, mais segura, a zona cinzenta. Disseste que era lá que estavas.

- Eu simplesmente não aguento mais. – Sussurrei, deixando-me cair no chão, e deixando cair uma lágrima. – O fim do namoro com o Luc, as mortes, nunca dormir uma noite inteira...

- Perguntava-me quando ias falar do namoro com o Luc. Cheguei a tentar convencer-me que estavas mesmo bem em relação a isso. – Disse, sentando-se ao meu lado.

- Eu estive nas Bahamas durante duas semanas. Chorei durante os primeiros quatro dias sem parar. – Disse-lhe. – E eu não choro por rapazes, acho que há coisas que valem muito mais a pena chorar, mas chorei. O resto do tempo estive fechada no quarto do hotel a olhar para o tecto sem fazer nada. Então, quando faltavam três dias para regressar, decidi que já chegava. Decidi que não ia derramar nem mais uma lágrima nem desperdiçar outro dia. Saí e fui ver as vistas. Reparei no cabeleireiro e pensei que talvez se mudasse um pouco a aparência, por dentro também ia mudar, por isso pintei o cabelo, mas estava errada. Então, na última noite que lá estava fui até ao bar do hotel onde conheci o Eric e o resto da história já sabes. Por isso sim, talvez esteja a desistir, mas eu preciso de um tempo afastada de tudo isto.

- Ei, podes contar comigo, sabes disso, certo?

- Eu sei. – Disse-lhe, pousando a minha cabeça no seu ombro. – Obrigada.

Após um tempo ele lá me convenceu a ir ao High Spot para a minha festinha de despedida.

Não estive lá mais de duas horas. A família estava lá toda, há excepção dos pequenos, e todos eles se mostraram muito tristes por eu partir. Luc mal se pronunciou, mas assim também era mais fácil para mim. Era uma da manhã quando decidi vir-me embora. Estava uma grande fila à entrada por isso achei melhor sair pela porta de trás. Entrei para a sala que lhe dava acesso quando uma mão me agarrou.

- Não vás. – Pediu Luc.

- Não vale a pena, a sério, está decidido. – Disse-lhe.

Ele aproximou-se.

- Não podes ir. – Disse, aproximando o seu rosto do meu.

Apesar de querer desesperadamente beijá-lo, resisti, afastando-me.

- Adeus Luc. – Disse-lhe, abrindo a porta.

Ele agarrou-me e puxou-me para ele, fazendo com que ficássemos tão perto que o meu coração começou a disparar. Conseguia cheirar o hálito dele, o doce, caloroso hálito dele. Se quisesse ter-me-ia soltado, conseguia mandá-lo para qualquer sítio ou imobilizá-lo, mas não consegui. Estava completamente vidrada apenas nele. A imobilizada era eu, só que a causa não eram poderes mágicos. Eram apenas os seus olhos. Apenas ele.

- Eu imploro-te, por favor. Não vás… - Olhámo-nos nos olhos e ele, aproximando-se, beijou-me.

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