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Espinhos de Rosas

por Andrusca ღ, em 28.09.10

Peço IMENSAS desculpas, e sei que ando a dizer isto vezes demais, mas mesmo assim, juro que não é por não querer postar mais cedo que não posto.

Este é um dos capítulos mais amorosos (L) e acho que pelo título chegam lá ;)

Bjs

 

Capítulo 21

Confissões

 

Ontem Derek passou o dia inteiro a evitar-me, disse que tinha que ir à minha casa tratar das coisas para a começarem a reparar, e cada vez que falou comigo fê-lo em meias palavras.

Dylan já se habituou a ter vampiros por perto, muito mais depressa que eu, e até gosta da companhia dos Thompson.

Abby adora Verónica, é uma coisa extraordinária.

Parece que de nós os três, só eu é que fui guardando rancor ao longo dos anos pela morte do meu pai. Abby agarrou-se à fé, que me faltava, e sempre quis acreditar que tudo o que havia mau, também havia bom, e Dylan, agora que já sabe de tudo, está mais amistoso, quase que não o reconheço. Quer dizer, reconheço, mas não de ultimamente.

Gwen não se queria ir embora ontem à noite, mas como hoje há escola, a mãe dela não a deixou ficar cá. Ela nega, mas acho que tem um fraquinho por Gary.

- Estás despachada? – Era Verónica.

Agarrei na minha mala, que ela tinha trazido da minha casa, e saí do quarto. Desci as escadas e fui ter com eles e os meus irmãos ao hall.

- Estou – respondi.

Verónica levou Abby à escola no seu lamborguini vermelho e eu, Dylan e Gary fomos no carro com Derek. Eu sentei-me atrás, ao lado do meu irmão.

A viagem foi tranquila, até tranquila demais. Derek falava com Gary mas eram apenas sussurros, sussurros rápidos demais para os meus ouvidos de humana captarem bem. Se não me concentrasse ao máximo nem sequer sabia que estavam a falar.

Quando chegámos separámo-nos todos, nenhum de nós ia para a mesma aula.

Vi Gwen no corredor e fui ter com ela.

- Bom dia – disse-lhe.

- Olá, conta-me tudo – pediu, puxando-me para baixo para me sentar no banco ao ser lado.

- Tudo o quê?

- O que fizeram depois de eu me vir embora…

- Nada, os humanos foram dormir, acordaram hoje de manhã, despachámo-nos todos e viemos para aqui.

- Oh, não aconteceu nada de especial?

- Não Gwen, não aconteceu.

- E como vai o meu livro?

- Está… bom. Vou na página 253.

- Já?! E o que é que achas?

- Não sei, o Edward parece estar sempre em sofrimento… mas acho que é bom, visto que é por amor.

- Exacto, vês? Afinal gostas.

- Não disse que gostava. Eu não sei Gwen, é que os vampiros que eu conheço não parecem estar em sofrimento… e se um vampiro bom tem que estar em sofrimento então…

- Isso é ficção, sabes?

- Não, a Pequena-Sereia é ficção. Vampiros são bem reais.

- E os que conhecemos são bons. Por falar neles, o que é que aconteceu ontem? Porque é que o Derek mal falou contigo?

- Não sei – e desviei o olhar para a parede em frente.

- Mesmo?

- Sim.

- Vocês não se beijaram outra vez, beijaram?

- Porque é que pensas isso?

- Porque é que não respondes?

- Não, não beijámos.

- Hum, é pena.

- Gwen… - voltei a olhar para ela.

- Desculpa, mas é que vocês ficam tão fofos juntos! – E juntou as mãos como se estivesse a rezar.

- Gwen, tu tens mesmo que parar com isso.

- Oh poupa-me. Tu estás completamente apanhadinha por ele, e ele por ti. Sabes porque é que ainda não aconteceu nada? Porque és demasiado parva para assumir.

- Bolas, obrigado.

- É verdade. Estás com medo de admitir?

- Tu sabes que se eles estiverem perto te podem ouvir, certo?

- Espero que ele oiça, e depois pode fazer alguma coisa. Vá lá, admite.

- Não. Não vou admitir uma coisa que não é verdade.

- Sabes que um rapaz como ele não vai esperar para sempre, certo?

- Não sei porquê, tempo não lhe falta.

- Ha-ha – riu-se, sem humor –, que engraçada.

- Porque é que não vais tu dizer ao Gary como te sentes?

- Porque ele é gay.

- Então sentes mesmo alguma coisa.

- O quê? Eu não disse isso, eu…

- Apanhada! Vá lá amiga, desembucha.

- Odeio-te – murmurou, a fazer-me olhos de má.

- Eu sei que sim – e ri-me. – Eu não me vou esquecer desta conversa.

- Eu sei que não vais. Eu vou dar-te um conselho, que neste caso só serve para ti.

- Gwen, eu não…

- Pára de lutar. Pára de lutar e mexe-te para agarrares o que queres.

- Boa, muito inspiradora.

Depois das aulas, Verónica e Gwen “raptaram-me” e levaram-me a uma loja de móveis. Ao entrarmos, Verónica abanou o seu cartão de crédito à frente da minha cara.

- O que é que estamos aqui a fazer? – Perguntei.

- Compras. Duh – respondeu Verónica.

- Compras? Com o teu cartão de crédito? Coisas para a casa? Nem penses Verónica, a minha casa não precisa de nada novo – insisti.

Ela soltou uma gargalhada.

- Pois, já a viste? – Agora estava séria, mas não conseguia deixar de ter um sorriso a querer aparecer-lhe nos lábios.

- Sim, quando o vampiro a desarrumou.

- “Desarrumou”? – Perguntou Gwen, também com cara de gozo.

- Ele pode ter partido alguma coisas mas… - e então apercebi-me que desde que o vampiro atacou, nunca mais lá tinha ido – Está assim tão má?

- Bem, não tens um sofá, a televisão está partida, uma das cadeiras da cozinha também, a mesa da cozinha ficou lascada, e acho que é tudo.

- Ok, bem, a televisão do meu quarto pode ir para a sala, não precisamos de uma quarta cadeira na cozinha porque somos só três, e se tivermos visitas pomos lá uma das da sala de jantar; metemos uma toalha bonita na mesa da cozinha para tapar o lascado, e assim só preciso de comprar um sofá.

- Espera, também tens um buraco enorme nas portas de vidro do móvel da sala – disse Verónica.

- Ok hum… tiramos as duas portas, não fica assim tão mau… - Elas ficaram as duas a olhar para mim como se eu fosse alguma extraterrestre – Não olhem para mim assim, eu não vou gastar dinheiro à toa, e não vou deixar que me comprem as coisas.

- O que é que ganhas com esse orgulho todo? – Perguntou Gwen – Aceita, aproveita, eles não precisam do dinheiro.

- Ela tem razão – concordou Verónica.

- Não. E não é orgulho, é… eu nunca tive ninguém para fazer essas coisas, percebem? E saí-me bem.

- Deixa ver se percebi, eu não te posso dar uma prenda porque nunca ninguém te deu uma prenda? – Perguntou Verónica, com o sarcasmo à flor da voz.

- Podes. Podes-me dar uma camisola se quiseres, mas não um sofá ou uma televisão.

- Porque é que não negociamos? – Mas porque é que Gwen quer tanto que eu aceite isto? Nem sequer vai ser ela a oferecer, podia estar do meu lado.

- Ok – respondeu Verónica, ainda antes de eu conseguir abrir a boca para dizer que não – Eu dou um sofá.

- Mas…

- E uma televisão – interrompeu.

- Mas…

- E podes pagar-me com juros – Mas esta gente não me deixa falar?!

- E eu ofereço a reparação do vidro do móvel. E assim só ficas com a mesa da cozinha e com a falta da cadeira, que tal? – Ofereceu-se Gwen.

- Eu…

- Óptimo, está decidido – disse Verónica, enquanto começou a andar pela loja, com Gwen a segui-la.

- Mas eu não concordei – murmurei, frustrada. Mandei os braços ao ar e comecei a andar atrás delas.

Acabámos por escolher um sofá de canto, bege, cinco vezes mais barato do que o que Verónica queria comprar, e uma televisão que deixou Verónica frustrada por ter que trocar o LCD que ela disse que era perfeito e super caro, por ela. Eu disse-lhe que ou aceitava as minhas escolhas, ou nada feito.

Combinámos a entrega para daqui a uma semana.

Verónica deixou-nos na escola para eu ir buscar o meu carro e Gwen o dela, e fomos cada uma para a sua casa, eu queria ver se a casa tinha ficado assim tão mal como elas diziam.

Quando cheguei não estava o carro de nenhum dos irmãos à porta. Abri a porta e entrei para a sala.

- Há um buraco gigante na parede – Murmurei.

A luta entre Derek e o traficante alemão vampiro tinha sido tão rápida para ser seguida com os meus olhos, que nem vi os estragos. Tinham feito um buraco na parede, no sítio onde costumava estar a televisão, que agora já lá não estava. Fizeram também um buraco nas escadas, e partiram a porta da cozinha. Havia penas das almofadas do sofá pelo chão e também os pedaços de espelho partido, da porta do móvel.

A cozinha estava de pernas para o ar.

Subi ao andar de cima, que além da desarrumação habitual, não tinha nada. A confusão tinha acontecido toda tinha sido mesmo no rés-do-chão.

Quando voltei para a casa dos Thompson, Abby e Dylan já lá estavam, tal como os três irmãos.

Na semana seguinte, depois de Derek e Gary terem arranjado a minha parede da sala e o buraco nas escadas, eu, Gwen e Verónica estivemos a limpar e a arrumar a casa. O sofá e a televisão já tinham chegado e a porta do móvel já estava arranjada. A porta para a cozinha também já tinha vindo e Verónica pô-la. A casa já estava pronta para voltarmos para lá, mas acho que eu e os meus irmãos estávamos a empatar um bocadinho. Eles não queriam sair daquela casa enorme nem perder a companhia dos Thompson, e para ser sincera, eu também não. No fim decidimos que amanhã íamos voltar para casa. Verónica e Gary desaconselharam, por causa do outro vampiro que tinha lá estado em casa, mas nós insistimos.

Derek passou a semana inteira a fugir de mim, literalmente. Mal trocámos duas palavras.

Tal como nos outros dias, Verónica levou Abby à escola e eu e Dylan fomos no meu carro para a nossa.

A manhã estava-se a passar rápido, a última aula ia ser Filosofia, com Gwen e Josh. Eu e Gwen estávamos sentadas no banco à porta da sala a conversar quando se fez em silêncio enorme no corredor e um rapaz passou por nós.

Estranho, eu conheço-o, é o Kevin, mas lembro-me dele de maneira diferente. Agora estava a usar um casaco de cabedal e gel no seu cabelo loiro, mas antes usava o cabelo todo acachapado, e calças até acima do umbigo com suspensórios. Acho, não, tenho a certeza, que nunca o tinha visto com um visual à bad-boy.

- Aquele é o… - ia Gwen perguntar.

- Yap – respondi eu, enquanto ele passava por nós com o seu andar completamente equilibrado que espalhava charme.

- É impressão minha ou ele ficou mais…

- Giro?

- Yap

Ele sorriu de uma maneira que nunca o tinha visto sorrir. Onde costumavam estar os seus dentes afastados e amarelos, estava uma bela dentadura branca e bem cuidada.

À medida que ele entrou para a sala, todas as pessoas no corredor inclinaram-se para o observar, tal como eu e Gwen.

- O que raios é que lhe aconteceu? – Perguntei, para o ar.

- Ele está tão…

- Eu sei.

- Ok, mudando de conversa, ainda não vi os Thompson hoje.

- Eles não vêm. A Verónica disse que iam à procura do… agressor.

- Hum, espero que tenham sorte.

- Não tanto quanto eu.

O professor entrou e nós entrámos logo a seguir. Tal como os alunos no corredor, o professor ficou especado a olhar para a nova figura de Kevin.

É que nós estamos habituados aos caracóis fora do lugar, o ranho a cair do nariz e a baba a escorrer, e agora tudo isso se evaporou. É como se ele fosse uma pessoa completamente diferente.

Eu sentei-me ao lado de Gwen, como era costume, e Josh sentou-se ao lado de Kevin, o que me fez um bocadinho de confusão, atrás de nós.

Gwen estava a prestar atenção à aula enquanto eu rabiscava no caderno, e então comecei a tomar atenção à conversa na mesa atrás de nós.

- E como foi? – Era a voz de Josh, sussurrada.

- Estranho meu – respondeu Kevin, no mesmo tom baixo.

- Doeu?

- Como tudo, ao princípio.

Será que ele fez uma operação ou assim?

- E agora consegues sentir tudo? – Insistiu Josh.

- Sim, até os parolos dos humanos a escreverem – e soltou um pequeno riso. Mas ele nunca se viu ao espelho? Parolos, nós? E… humanos? Lutei contra o instinto de me voltar para trás, porque se o fizesse, eles calavam-se.

- Deve ser uma sensação brutal – agora tinha que me esforçar ao máximo para conseguir ouvir os sussurros.

- E é.

- Quando será a minha vez? Estou desejoso que o Aisaec se despache e me escolha – Mas quem raios é que é o Aisaec?!

- Acredita, vale a pena a espera. E não te esqueças que temos aquele trabalhinho para fazer. O Aisaec não quer que o desapontemos.

- Eu sei, está tudo controlado.

- Ele não veio. Consigo distinguir os cheiros, e aqui na escola só estão humanos.

Oh não… detestei a ideia que me passou pela cabeça ainda agora. Não podia ser, podia?

- Então e quanto aos impulsos, à sede? – Perguntou Josh.

“Oh, por favor não respondas o que eu penso que vais responder”, pensei.

- Sinto que conseguia drenar toda a gente daqui em menos de cinco minutos – respondeu Kevin.

Engoli em seco. Não pode ser, pode? Kevin, o geek da escola tornou-se num vampiro? Então isso significa que o que o traficante vampiro disse a verdade e andam mesmo a transformar pessoas. Isso significa que o vampiro que matou o meu pai está metido nisso.

Mas há mais. Primeiro, quem é o Aisaec? E segundo, quem é que o Aisaec quer que Josh e Kevin apanhem?

Ao perguntar-me estas perguntas fiquei sem pinga de sangue ao aperceber-me que Josh também estava metido nisto. Josh, o meu ex-namorado ciumento vai virar um vampiro sádico. E… Kevin disse que só tinha cheirado humanos, por isso estão à procura de um vampiro. As peças começaram a montar-se na minha cabeça como se de um momento para o outro, o puzzle super complicado com centenas de peças se tivesse acabado de construir sozinho. Se eles querem um vampiro, e se o vampiro que matou o meu pai é que o quer, só há um vampiro que se encaixa. Derek. Derek salvou-me dele quando eu era pequena, e agora do traficante. Eles querem o Derek.

Fiquei paralisada e já não conseguia ouvir mais nada na sala, apenas os meus pensamentos, as minhas ideias a encaixarem-se umas nas outras. Agora já não ouvia a conversa da mesa de trás, já tampouco sentia Gwen ao meu lado.

Esforcei-me para regressar à realidade, para não me deixar apoderar pelo desespero.

Olhei para o caderno e comecei a escrever com o lápis.

 

«O Kevin é um vampiro»

 

Dei uma cotovelada suave no cotovelo de Gwen e ela olhou para mim, fiz-lhe sinal com os olhos, ela aproximou-se e olhou para o caderno.

- O quê?! – Gritou.

O professor saltou de susto e virou-se para ela, assim como todos os nossos colegas.

- O que é que foi isto?! – Perguntou o professor, chateado, a olhar para Gwen.

- Desculpe, eu… eu… eu não conseguia ver o que estava no quadro e exaltei-me – respondeu ela, um bocado atrapalhada.

O professor voltou-se de novo para o quadro e recomeçou a escrita, enquanto reclamava baixinho. Estava estampado na cara dele que não tinha acreditado na desculpa. Um a um, os nossos colegas também se foram voltando para a frente.

- Como? – Sussurrou-me ela.

- Aqui não, falamos lá fora – respondi eu, embora saiba que sussurrar é equivalente a falar normalmente para os ouvidos de um vampiro.

Ela ficou apática ao resto da aula, tal como eu. Assim que tocou, ela meteu as coisas para dentro da mala, à balda, e esperou impacientemente que eu também arrumasse as minhas. Assim que puxei o fecho da mala, ela puxou-me pelo braço para fora da sala e ficou a olhar para mim muito séria.

- Explica lá isso – pediu – Como é que o… - pus-lhe a mão na boca para evitar que ela o dissesse.

- Shh, as paredes têm ouvidos – disse-lhe – Anda, hoje almoças comigo.

Fomos para a minha casa, que também já tinha coisas no frigorífico, e Gwen ajudou-me a levar as três malas com a minha roupa e dos meus irmãos, que estavam no porta-bagagens desde que tinha saído da casa dos Thompson.

Aquecemos uma pizza congelada no microondas e depois sentámo-nos à mesa.

- Enquanto toda a gente estava a ouvir a aula, o Josh e o Kevin estavam a falar – expliquei, depois de ela mo implorar umas mil vezes –, e era sobre vampiros. Não achas estranho o Kevin estar tão diferente de repente? É porque é um vampiro.

- Mas como é que é possível?

- Lembras-te de quando te contei que o vampiro que nos atacou cá em casa me disse que andavam a transformar pessoas? É isso que está a acontecer.

- Oh meu Deus… será que há mais vampiros lá na escola?

- Não, de acordo com o olfacto do Kevin, não há lá mais nenhuns além dele e dos Thompson.

- Não sei porquê, mas é reconfortante.

- Sim, mas ainda não te disse o pior. O Josh está na… “lista de espera” para se tornar vampiro.

- Eu nunca gostei desse tipo, mas também nunca imaginei.

- Isso não é o pior.

- Há mais?

- Eu acho que eles querem o Derek.

Depois de lhe explicar a minha teoria toda, ela foi buscar Abby para a levar para a sua casa, para que eu pudesse ir falar com os Thompson descansada. Dylan interceptou-me à saída e insistiu em saber o que se passava e que queria ir comigo. Pelo caminho expliquei-lhe o que tinha acontecido, afinal, já não vale a pena mentir-lhe.

Quando chegámos abri a porta, que estava destrancada como sempre. Acho que quando se é um vampiro forte e veloz não se tem medo de ladrões…

Os três irmãos estavam sentados no sofá. Verónica e Gary trocavam ideias, e Derek, que estava no braço do sofá, permanecia calado. Eles já sabiam que nós estávamos a olhar. À medida que nos fomos aproximando, eles calaram-se e Verónica olhou para mim.

- Nós temos problemas – dissemos as duas, ao mesmo tempo – Tu sabes? – Perguntámos as duas, de novo ao mesmo tempo.

- Eu sei de uma coisa, não sei é se é a mesma – respondeu ela – O que é que sabes?

- Um colega nosso, Kevin, é um vampiro.

- Sim, nós sabemos – disse Gary –, mas há mais. Chloe, lamento, mas o teu ex-namorado também está a um passo de se tornar.

- Sim, eu sei – afirmei –, eu ouvi-os falar na aula. Eles falaram de um tal Aisaec… quem é ele?

Notei que Derek, que olhava para o chão, ficou tenso e pressionou os lábios um contra o outro fortemente. Gary também ficou desconfortável.

Verónica levantou-se, também nada confortável, e pousou uma mão no meu ombro e a outra no de Dylan.

- É o vampiro que matou o vosso pai – pronunciou, a olhar para mim.

Senti uma raiva enorme dentro de mim, mas acho que não era isso que se mostrava na minha cara, acho que eles me viam devastada.

- Ok… bem, ele está a transformar pessoas – disse eu, com a maior naturalidade que consegui. Sim, isto foi uma grande bomba, mas não me posso distrair do motivo principal de ter vindo – E eu acho que ele quer apanhar o Derek.

Nem quando disse o nome dele, Derek olhou para mim.

- Sim, nós calculámos, quando o vimos no bosque ao pé da escola. Perdemos-lhe o rasto quando já estávamos bem entranhados no bosque – disse Gary.

- Ele continua por cá – disse Verónica –, era melhor ficarem cá mais umas noites.

- Claro – respondeu Dylan, que tinha estado calado durante a conversa toda. Vi pela cara dele que estava muito abalado por ter ouvido aquilo do vampiro que matou o nosso pai, Aisaec.

Fui buscar Abby à casa de Gwen e disse-lhes que íamos voltar para a casa dos Thompson. Fui também buscar as malas com a roupa, que ainda não tinha arrumado, a casa.

Quando chegámos, Verónica já tinha posto um bolo na mesa para nós lancharmos, eles alimentavam-nos sempre muito bem. E enquanto nós comemos eles bem, beberam, mas não à nossa frente. Sempre que se iam alimentar, afastavam-se. Acho que lhes agradeço bastante, posso já não os achar maus, mas tenho quase a certeza que se os visse a beber sangue me vomitava toda.

Era quase seis horas quando fui para o quarto de Derek e comecei a ler um livro. Ouvi um pequeno barulhinho e olhei para a porta.

- Posso? – Era Gary, que espreitava para dentro do quarto enquanto batia na porta com os nós dos dedos.

- Claro, entra – respondi, levantando-me da cama.

- Posso-te pedir um conselho numa coisa?

- Ok… - O que é que vem daí?

- Só… - e suspirou – é só que tu és a pessoa mais fácil de falar.

Não consegui evitar uma gargalhada.

- Eu? Quer dizer, para a Gwen claro, para a Abby sim, mas para ti? A sério? É que mal tivemos uma conversa que tivesse mais que três linhas, um para o outro que não fosse sobre vampiros…

- Sim bem, considerando as opções, és a escolha mais indicada.

- Ah, assim faz mais sentido. O que é então?

- Só… é que eu tenho estado confuso.

- Junta-te ao clube – ele mandou-me um olhar capaz de me estorricar – Desculpa, continua.

- Desde que vocês vieram cá para casa, e a Gwen também, que eu tenho andado desorientado. Eu nunca tinha reparado nela, não assim.

- Na Gwen? Desculpa, pensava que tu eras gay.

- Eu sou, quer dizer eu era, ou… não sei.

- Oh meu Deus, estás apaixonado pela Gwen?!

- Não sei. Como é que sei se estou?

- Hum… não sei.

- Como é que tu sabes que estás?

- Eu só… eu sei.

- Sim, mas com Josh, como é que sabias que querias ficar com ele? Como é que sabias que ele era o tal?

- Gary, nós acabámos e ele agora quer-se transformar num vampiro. Ele, definitivamente, não era o tal.

- Eu sei disso mas… nunca pensaste que podia ser?

- Ouve, se estás à procura de uma romântica incurável enganaste-te na porta. Essa é a Gwen. Eu não acredito em finais felizes.

- Sim, já tinha reparado.

- Mas se queres o conselho, eu acho que ela gosta de ti. Dito por alguém que costuma fugir da felicidade porque tem medo de se magoar, arrisca. Ela vale a pena.

Ele sorriu.

- Obrigado. Ah, é verdade, a Verónica deixou uma coisa para ti no armário – esticou o braço e abriu a porta do armário de Derek – A Verónica e eu vamos sair com a Abby, e o Dylan disse que também ia espairecer, ficas bem?

- Sim, claro.

Ele desapareceu em menos de dois segundos e eu aproximei-me do armário. Nele, entre as camisas, t-shirts e calças de Derek, estava pendurado um vestido violeta clarinho de atar ao pescoço e curtinho, com um cinto preto pendurado por cima, com a fivela engatada no cabide. Era o vestido que ela me tinha comprado para a festa da escola, pouco depois de eu descobrir o segredo deles.

Tirei o vestido do cabide e pu-lo à minha frente, em frente ao espelho.

Bateram à porta e Derek entrou no quarto, dirigiu-se à prateleira dos CD’s e tirou um. Eu mandei o vestido para cima da cama e fiquei à espera que me dissesse alguma coisa.

- Vim só buscar isso – disse-me, dirigindo-se à saída.

- Podemos falar agora? – Perguntei, apesar de já calcular a resposta.

Agora era a altura ideal para ele me dizer o que se passava, visto que estávamos sozinhos.

- Eu tenho que ir, falamos depois, ok? – Ele ia a chegar ao pé da porta mas eu fechei-a – Chloe…

- Eu sei porque é que estás assim. Pelo menos acho que sei.

- Temos mesmo que fazer isto agora?

- Sim. Ouve, quando eu disse que podias falar comigo não estava a mentir. Por isso fala comigo. O que é que se passa?

- Diz-me tu, disseste que sabias o que era.

- É por causa do quase beijo, não é?

- Em parte – ele recuou, mandou o CD para cima da cama e aproximou-se da janela.

- Bem, mas nós não temos que ficar assim estranhos um com o outro. Não aconteceu nada.

- Pois não – agora olhava para a rua.

Saí da frente da porta e aproximei-me dele.

- Então porque é que estás assim?

- Chloe, eu não quero mesmo falar.

- Porquê?

- Porque tu não vais gostar de ouvir o que eu vou dizer!

- Tenta.

- Não.

- Por favor, tenta.

Ele olhou para mim e depois aproximou-se.

- O que é que queres que te diga? Eu sei que não vais gostar de ouvir, e depois ficamos pior do que estamos agora.

- Ok, agora estás-me a assustar. O que é?

- Chloe, eu tenho que sair, não insistas, por favor – e dirigiu-se à porta.

- Não – apressei-me a chegar ao pé dele e agarrei-lhe no braço – Isto não está bem! Tu não estás bem! Tu não andas tu, andas sempre a olhar para baixo, não te ris, não te divertes, andas tristonho… pensas que não notei?!

Virou-se para mim e agora parecia estar a ficar farto do assunto da conversa, mas eu quero mesmo saber o que se passa com ele. Porque é que não me diz?

- Porque é que não me dizes o que se está a passar? – Insisti, de novo.

Ele suspirou e olhou-me nos olhos.

- Porque sei que tu não me queres ouvir a dizer que estou apaixonado por ti.

Fiquei sem reacção durante umas décimas de segundo. Apaixonado por mim? Porquê? Como? Mas… apaixonado por mim? Por mim?!

- Tu estás… por mim? – Mal conseguia dizer poucas palavras, quanto mais formar uma pergunta inteira – Mas…

- Vês? Era por isto que não te ia contar – soltou-se da minha mão que ainda lhe agarrava e braço e abriu a porta.

- Derek espera – supliquei – Vamos falar, por favor.

Ele voltou-se de novo para mim e olhou-me com aqueles olhos de cachorrinho abandonado a brilhar, a implorar-me em silêncio para o deixar ir.

- Chloe eu – agora a voz saí-lhe num tom triste, mas não menos melódico que das outras vezes – não sei o que mais dizer.

- Como… porquê eu?

Apareceu-lhe um sorriso que não faço a mínima ideia do que foi. A minha pergunta foi assim tão estúpida? Sim, é capaz de ter sido.

- Porque sim, não é como se eu controlasse estas coisas.

- Então o quê? Nós íamos namorar três, quatro anos, até às pessoas fazerem perguntas e depois acabava?

Ao ouvir-me dizer isto quase que acreditei em considerar.

- O quê?

- Porque em pouco mais de dez anos eu vou ter idade de ser quase tua mãe, e depois de ser tua avó… Derek eu… tu nunca vais envelhecer, e eu vou.

- Eu sei disso. E sei que é impossível, por isso é que não te ia dizer nada.

- A não ser… – pensei, em voz alta – Tu planeias transformar-me?

- O quê? Não!

- Então, tu amas-me, mas não me queres transformar.

- Não é isso – aproximou-se de mim e olhou-me de novo nos olhos –, eu quero que tu queiras que eu queira transformar-te.

- Hum? Isso não faz sentido – que grande confusão.

- Faz, se pensares bem, faz.

- Mas… - ele levantou o dedo como se me mandasse ficar em silêncio e eu obedeci.

Virou-se rapidamente para a porta e pôs-se à minha frente numa posição protectora, inclinando o corpo ligeiramente para a frente.

- O que é que está a acontecer? – Perguntei, com a voz a tremer.

- Problemas.

Mal ele pronunciou estas palavras, a porta do quarto abriu-se e apareceram Josh e Kevin. Eles olhavam para nós de uma maneira maldosa, e eu sabia o que se seguia. Eles iam tentar apanhar Derek. Se Kevin estivesse com Derek, Josh viria tentar impedir-me de tentar fazer qualquer coisa.

Nem vi Kevin dirigir-se a nós, apenas sair do seu lugar, até Derek o ter empurrado contra uma parede. Engoli em seco. Kevin levantou-se e Derek não teve outra escolha senão tentar apanhá-lo. Agora já estávamos muito perto da janela.

Josh dirigiu-se a mim enquanto Derek tentava neutralizar as investidas de Kevin, e quando estendeu o braço para me agarrar agarrei no candeeiro da mesa-de-cabeceira e dei-lhe com ele na cabeça, mas não lhe fez nada. Se ele bebeu sangue de vampiro, então explica o porquê de não se sentir, nem estar, vulnerável a este tipo de coisas.

Vi Kevin espetar uma agulha no abdómen de Derek e este cair para o chão, com os olhos a quererem fechar-se.

- Não! – Gritei.

Kevin e Josh dirigiam-se agora para mim. Como é que Derek caiu? Como é que ficou assim? Não é como se anestesias resultassem em vampiros.

- Chloe, Chloe, Chloe – disse Josh, com um sorriso malicioso nos lábios – Tens que aprender a escolher melhor as companhias.

- Nem me digas nada – respondi, no tom mais azedo que consegui.

- É pena, ela é bonita demais para ter este fim – disse Kevin.

- Ainda te lembras quando não eras? – Mas porque é que eu estou a provocar um vampiro? Ah, porque ele vai-me matar de qualquer maneira.

Ele rugiu e avançou até mim a toda a velocidade. Agarrou-me pelo pescoço com apenas uma mão e sorriu.

- Adeus – disse-me.

Mandou-me contra a janela, o vidro partiu-se e eu comecei uma queda livre de, tecnicamente, dois andares. Só via o chão a aproximar-se cada vez mais enquanto gritava a plenos pulmões.

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