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Destino Amaldiçoado

por Andrusca ღ, em 26.02.11

Capítulo 20

Juntos de Novo... ou Não

 

Acordei no chão, entre a minha cama e Luc e vieram-me flashbacks da noite anterior à cabeça. «Oh Deus, outra vez não» pensei, enquanto me levantava e vestia o roupão. Vi as horas, eram quase dez. Fui até à sala e sentei-me em cima do plástico que já envolvia o sofá.

- Mas eu sou estúpida?! – Perguntava-me indignada. – Sou algum tipo de masoquista?! Não vou voltar a cair nesta, não posso!

Levantei-me e pus-me a andar de um lado para o outro da sala.

- É que só pode. Uma vez é aceitável. Duas?! Cometer o mesmo erro duas vezes?! Isto não pode estar a acontecer. Não pode! – Dizia-me, enquanto andava. Como é que cheguei a isto?! É que só posso ser estúpida mesmo!

Luc apareceu à porta da sala algum tempo depois.

- Bom dia. – Disse-me.

- Bom dia...

- Ouve Jô, sobre ontem à noite...

- Ontem à noite foi um erro. – Disse, sem lhe dar tempo para dizer mais nada.

Ele franziu os sobrolhos e eu continuei.

- Ontem à noite não devia ter acontecido.

- Pois, mas aconteceu.

- Pois, mas não devia. Não devia porque eu vou para o Japão.

- Ainda vais? – Perguntou-me desiludido.

- É claro que ainda vou! Ontem à noite foi um erro porque já não há nada entre nós.

- Jô...

- Luc... acho melhor ires-te embora, eu tenho que me despachar, tenho que estar no aeroporto ao meio-dia.

- Muito bem... – Disse-me, indo-se embora, porém, deu meia volta e olhou-me nos olhos. – Não! Eu não vou desistir de ti. Não desta vez. Nem que tenha que ir até ao Japão mas vais ver, eu vou-te reconquistar. Eu amo-te e desta vez não vou desistir e simplesmente deixar-te ir. – Disse, teletransportando-se em seguida.  

No momento em que Luc saiu, Sue entrou.

- Bom dia! – Exclamou. – Então, pronta para a grande viagem?

- Não vale a pena tentares fazer-me desistir. – Disse-lhe logo, tirando-lhe as esperanças. Estou com razões de sobra para ir…

- Tudo bem... Boa, o teu cabelo está de volta ao normal! – Disse-me.

- Está? – Perguntei, indo-me ver ao espelho do hall em seguida.

Apesar de ter passado no hall quando me levantei para ir para sala, com as preocupações da viagem e os meus pensamentos centrados em Luc, nem me apercebi que o meu cabelo já não se encontrava loiro. Estava agora já castanho, com a sua tonalidade normal. Perfeito, e eu a pensar que ia permanecer loira mais tempo.

- Bem, isto não durou muito. – Disse baixinho com um desânimo suave na voz.

Sue veio ter comigo e deu-me um beijinho na bochecha.

- Era só para me despedir. – Disse-me, com uma voz suave. – Boa viagem e quando chegares avisa. Mantém-te em contacto ouviste?

- Sim senhora. – Respondi-lhe, rindo-me juntamente com ela.

- Ainda não foste e já tenho saudades tuas. – Sussurrou-me ao ouvido, enquanto me abraçou para se despedir novamente.

Foi-se embora segundos depois e eu fui para o quarto.

Fiz a cama, vesti uns calções verdes com uma t-shirt branca e umas chinelas de salto alto pretas e arrumei as últimas coisas na mala. Ouvi um ruído muito suave vindo do hall e fui ver, sempre com a guarda em cima. Saí do quarto e fiquei maravilhada a olhar para o meu hall de entrada. Estava completamente coberto de rosas, em cima das cómodas, ao pé do espelho, no chão, em todo o lado... então vi um cartão.

 

«Eu disse que não ia desistir. Espero que gostes das rosas. Beijo, Luc»

 

- Luc. – Murmurei, em voz alta, guardando uma das rosas no bolso dos calções.

De um momento para o outro a ideia de me ir embora já não parecia tão certa. E se estivesse a cometer um erro enorme? E se as coisas no Japão não corressem bem e eu tenha deixado os meus amigos e a minha vida? Não! Não posso pensar assim, as coisas vão ser diferentes, não necessariamente piores.

Eram onze horas e um quarto quando o táxi me foi buscar ao prédio. O condutor ajudou-me a pôr as malas no porta-bagagens do carro e depois meteu-se à estrada para o aeroporto.

Passámos pela casa dos Connor a caminho e uma grande onda de tristeza invadiu-me. O condutor ligou o rádio. Conheci a música instantaneamente, era “Home” de Chris Daughtry. A música falava sobre se ir para onde o amor e um bom sentimento não custam nada e que a dor que se sente lá não é nada comparado com a dor real e que esse sítio é a nossa casa, onde o amor sempre nos chegou e é o sítio onde pertencemos.

Na minha opinião, a nossa casa é onde o nosso coração está, e até ao momento a que retornei a São Francisco, nunca me tinha sentido em casa. Nunca ninguém me tinha feito sentir em casa até conhecer os Connor. Cada um deles fazia parte da minha vida, do meu coração.

Num gesto involuntário baixei uma das mãos até ao colo, onde, no meu bolso senti um alto. Fui com a mão ao bolso e tirei de lá uma das rosas que Luc tinha posto na minha casa. Já estava toda amachucada mas fez-me perceber a parva que estava a ser.

- Pare o carro! – Ordenei ao taxista, ao que ele obedeceu.

- Esqueceu-se de alguma coisa? – Perguntou.

- Sim, esqueci... mas agora não importa porque já me lembrei. Pode deixar as malas na minha casa e dizer ao porteiro para usar a chave suplente para as pôr no apartamento? – Perguntei, pagando-lhe e saindo do carro sem lhe dar tempo de reagir.

Corri rua abaixo até chegar a casa dos Connor, bati à porta e entrei sem esperar.

Chad e Luc estavam na sala, sentados no sofá sem fazer nada, a olharem para o vazio. Os pequenos estavam também na sala, sentados no chão a brincar. O pequeno Chad correu para mim assim que me viu, fazendo com que Chad e Luc se virassem.

- Eu pensei que te ias embora. – Disse-me o pequeno Chad, com uma voz muito suave.

- Há duas semanas e pouco fiz uma promessa a um menino. Disse-lhe que nunca me iria embora. Eu cumpro sempre as minhas promessas. – Disse-lhe, ajoelhando-me e abraçando-o.

Ele deu-me um daqueles sorrisos dóceis e meigos que só ele sabe fazer.

Chad e Luc, os adultos, também vieram ter comigo.

- A esta hora não era suposto estares a ir para o aeroporto para embarcares para o Japão? – Perguntou Luc, já com um ar triunfoso.

Decidi dar-lhe a vitória, embora que não fosse a que queria totalmente.

- Não é lá que eu pertenço. É aqui. – Disse-lhe, esboçando-lhe um sorriso que me foi retribuído.

Entretanto chegaram Sheilla e Louis e ficámos à conversa um pouco até eu ter que ir para casa, desfazer as malas.

- O pior das viagens são as malas. – Desabafei. – É a parte mais chata de todas.

Durante caminho para casa estava feliz. Apesar de todos os sacrifícios da minha vida, os momentos bons valiam a pena serem guardados e os amigos verdadeiros, esses definitivamente mereciam ser bem tratados. Ao caminhar deu-me uma vontade se sorrir e de permanecer assim, nada tinha mudado, aliás, as coisas agora com Luc iriam ficar ainda mais esquisitas mas eu sentia-me bem, como se não houvesse problemas. Virei para a rua onde o meu apartamento se situava e quase que me deu uma coisa má. Desatei a correr até à rua em frente do apartamento, onde estava uma multidão a vê-lo a incendiar-se. Corri até um bombeiro.

- O que é que se passou? – Perguntei, aflita.

- A senhora mora aqui? – Perguntou-me.

- Sim, moro.

- Ainda não sabemos de pormenores, os meus colegas e eu estamos apenas a tentar controlar o fogo.

A minha vizinha do terceiro andar, Anna, que morava na casa em cima da minha, estava histérica.

- O meu filho! – Gritava. – Vocês têm que salvar o meu filho! Por favor, é só uma criança, tem oito anos. Por favor! – Implorava aos gritos enquanto chorava. No entanto ninguém parecia ligar-lhe.

- Você não ouve?! Está uma criança lá dentro! – Disse eu para o bombeiro, indignada.

- Não há nada que possamos fazer, entrar lá agora seria suicídio.

- E deixar a criança lá para morrer seria homicídio! – Gritei-lhe.

- Lamento imenso mas como disse não há nada que se possa fazer. – Ao proferir isto, ele permanecia com uma feição normal, como se nada fosse.

- Diga-lhe isso a ela. – Disse-lhe, furiosa, a apontar para Anna.

Fui ter com ela.

- Anna, onde é que o Dylan está? – Perguntei.

- Não sei bem, em casa, mas não sei onde, eu só saí para comprar leite. Joanna…

- Tem calma, vai correr tudo bem. – Disse-lhe, despindo o meu casaco preto e mandando a minha mala para o chão.

Passei por baixo das fitas postas pelos bombeiros para manterem a multidão afastada das zonas de risco e corri em direcção ao prédio a arder. «Péssimo dia para calçar chinelas» pensei para mim própria.

Vi Luc, de relance, que começou a correr para mim a gritar pelo meu nome, mas foi agarrado por um dos bombeiros, que também gritavam para eu voltar para trás. Entrei pela porta, já desfeita e subi as escadas a correr, ainda que um pouco mal por causa das chinelas. Passei pela minha casa e continuei a subir para o terceiro andar. Explodi a porta da casa de Anna e comecei a chamar por Dylan. Estava-se a tornar difícil de respirar e de ver, havia muito fumo e as chamas eram cada vez mais altas. Estava um calor de morrer e eu sentia queimaduras quase em todo o corpo.

- Dylan! – Chamei, no tom mais alto que a minha garganta, agora cheia de fumo, me permitia.

Corri a casa toda e dei por ele debaixo da secretária do seu quarto.

- Dylan anda, eu vou-te ajudar, anda vá. – Disse-lhe entendendo-lhe a mão. – Vai correr tudo bem, não tenhas medo.

- Joanna… - Disse, num tom de súplica.

Agarrei-lhe na mão e começámos a correr. Na sala dele, quando pisei o chão, este desfez-se, fazendo com que eu caísse no chão abrasador. Apressei-me a levantar e a continuar o caminho com Dylan. O prédio começou a cair pouco a pouco e não havia saída possível a não ser uma janela, o problema era que ainda nos encontrávamos no terceiro andar e era muito alto para saltar. Tive uma ideia e aproximei-me da janela com Dylan. Pus-me em frente a ele.

- Dylan, ouve bem eu preciso que confies em mim ok? Eu não vou deixar que te magoes ok?

Ele acenou que sim e aproximou-se ainda mais da janela.

- Não tenhas medo. – Disse-lhe.

Depois explodi a janela, como era um incêndio da parte de fora do prédio iriam pensar que o calor tinha estalado as janelas. Combinei as coisas com Dylan e ele saltou da janela. Eu fiz com que aterrasse sem um arranhão, com o meu poder de telicnese. Ia saltar também, apesar de saber que me ia magoar bastante, quando vi um vulto.

- Está aí alguém? – Perguntei, já a tossir bastante. – Olá? Está aí alguém?

Uma figura horrível apareceu à minha frente. Tinha um capuz vermelho, ou pelo menos parecia vermelho, se calhar era devido às chamas, e uma roupa toda preta. Fez-me arrepios. Tentou dar-me um murro mas eu defendi-me. Não lhe consegui ver a cara, estava toda preta da sombra do capuz mas entre o barulho da madeira a estalar, ouvi um riso. Já me encontrava bem longe da janela quando recuei, para me defender de outro ataque. Voltei a entrar em casa de Anna e ouvi a madeira a estalar por baixo dos meus pés e dei uma grande queda para o andar de baixo, que era o meu. Abri os olhos e estava deitada no chão a escaldar, toda torcida, no meio do meu escritório. Olhei para cima e tive que me desviar bruscamente de um bocado de tecto que quase me caía em cima. Vi o homem/demónio desaparecer e levantei-me. Não conseguia ver praticamente nada, as rosas que tinha dentro de casa faziam com que o fogo se alastrasse mais rapidamente. Doía-me a cabeça e o braço esquerdo. Tentei imobilizar as chamas vezes sem conta mas sem efeito, provavelmente foram lançadas pelo demónio. Já via tudo à roda e não parava de tossir.

Explodi a janela e atirei-me dela sem sequer olhar, caindo nos braços de Luc.

- Está tudo bem, eu agarrei-te. – Disse-me.

Eu não conseguia parar de tossir. Queria agradecer, apesar de tudo ele tinha-me salvo de partir metade dos ossos do meu corpo, mas não conseguia.

Ele levou-me até a ambulância que estava parada no outro lado da rua, onde me deram uma máscara de oxigénio até recuperar a respiração normal e avaliaram as minhas queimaduras e o meu braço. O braço não estava partido, apenas magoado.

- O Dylan? – Perguntei a Luc, quando finalmente consegui parar de tossir mas ainda com a voz muito débil.

- Está bem. Está com a mãe. Eu calculei que tentasses algo desse género, de saltares da janela.

O bombeiro estava agora a ver Dylan, que se encontrava numa outra ambulância.

- Podemos sair daqui? – Implorei a Luc.

- O quê? Estás maluca?

- Estou cheia de dores, leva-me à Sue. Pleaseee.

- Tudo bem, tu lá sabes.

Saímos de lá sem os bombeiros verem e Luc levou-me a Sue que me curou e emprestou umas roupas lavadas, e depois levou-me para a casa dele. Explicámos o que acontecera a Sheilla e Louis que disseram logo para eu ficar lá em casa.

Fui ver ao livro que demónio era e descobri que era um Demónio-Incendiário. Fiquei muito surpreendida na forma como era morto. Fiz um feitiço de localização que me mostrou onde ele estava e fui com Chad e Luc lá.

- Lembras-te de mim ó imbecil?! – Perguntei-lhe em voz alta.

Ele virou-se na nossa direcção.

- Incendiaste-me a casa. – Continuei. – Agora vou inundar a tua.

Ele começou a cuspir fogo e eu atirei-lhe com um frasco dos de poções só que em vez de ter uma poção, estava cheio de água. Ele contorceu-se todo e derreteu.

- Aparentemente a água apaga mesmo muito bem o fogo. – Gracejou Chad.

Nessa noite dormi no sofá dos Connor apesar de Luc me ter oferecido a cama dele inúmeras vezes. Fiquei acordada a maior parte da noite a pensar, quando ouvi passos na minha direcção.

- Bem me parecia que não ias estar a dormir. – Disse Luc, sentando-se no sofá pequenino.

- Já de ti não era de esperar…

- Verdade… - Riu-se. – Então vais ficar por cá?

- Vou. A minha casa ardeu, por isso vão ter que me aturar.

- Não foi isso que eu quis dizer…

- Eu sei. E sim, vou ficar por cá. Mas Luc…

- Já sei, não há nada entre nós, somos só dois amigos, certo?

- Certo.

Luc olhou para a mesa pequena e riu-se.

- Foi a única que sobreviveu? – Perguntou-me, referindo-se à rosa amachucada que tinha estado todo o dia no meu bolso e que se encontrava agora em cima da mesa.

- Foi. Mas acredita, ela chega pelas outras todas.

Passou-se uma semana e eu continuava a dormir no sofá dos Connor e sem encontrar casa, e a usar roupa que Sue me emprestava.

Estava sentada a ver TV quando Sheilla e Louis se sentaram ao pé de mim.

- Sabes… - Começou Louis. – Nós gostamos de te ter aqui. Gostamos muito mesmo.

- Eu sei. – Disse-lhes. – Já estou a abusar, eu sei, mas não é por mal, a sério.

- Não é nada disso. – Disse Sheilla. – O que ele está a tentar dizer é: Queres morar mesmo cá? Definitivamente.

- O quê? – Tinha sido completamente apanhada de surpresa.

- Mesmo quando tinhas a tua casa, passavas mais tempo cá do que lá. Podíamos usar um feitiço para pôr mais três quartos na casa, ia ser óptimo, assim o Chad e o Luc iam ter cada um o seu quarto e tu e os pequenos também. Ia ser perfeito.

- Sheilla, Louis eu… eu nem sei o que dizer…

- Diz que aceitas. – Pediu Louis.

- Claro que sim! – Exclamei, com uma felicidade contagiante.

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