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One Shot pt2

por Andrusca ღ, em 28.02.11

Casualidades da Vida

 

 

"- Tenho boas notícias – disse-me – Tu estás em coma!

- Boas notícias?! – Gritei.

- Pelo menos não estás morta! – Gritou-me – Fogo, que histérica!

Em coma? Eu estava em coma? E se não acordar? Posso ficar assim para sempre… oh não, oh não, oh não, estava a começar a entrar em pânico.

- Oh miúda, tem lá calma, tu hás-de acordar – disse ele.

- “Oh miúda”?! – Repeti – Tu nem sabes o meu nome, pois não?!

Ele encolheu os ombros e agarrou numa revista sobre automóveis que começou a ler. Fantástico, eu estou em coma e a única pessoa que me consegue ver é nada mais nada menos que o tipo com quem sempre sonhei que afinal é um atrasado mental de primeira."

 

Parte 2

 

Este iria ser um longo dia...

Pela hora do almoço já a casa estava quase deserta, apenas restavam duas empregadas, o próprio Jensen e eu, uma fantasma cujo corpo se encontra em pleno coma.

Uma das empregadas chamara Jensen para almoçar e agora encontrávamo-nos os dois na sala de jantar, ele sentado e eu de pé encostada à parede.

- Os teus pais não vêm comer contigo? – Perguntei. Ele limitou-se a abanar a cabeça – Porquê?

- Não se importam. Mas não há problema, já estou habituado.

- Como é que te habituas a isso? – Esta pergunta saíu-me sem querer, era óbvio que este assunto o magoava, e essa não era de todo a minha intenção. Eu e a minha grande boca. – Desculpa. Não queria dizer nada disso, só...

- Não faz mal. É assim desde que fiquei famoso, eu ganho dinheiro, eles viajam. Não stresses, já não é novidade.

Fiquei calada durante todo o resto do tempo que ele levou a almoçar. Ainda me fazia confusão não sentir fome, sede ou qualquer cansaço. Era completamente surreal.

Quando ele acabou de almoçar pedi-lhe se podia ir comigo ver a minha família, mas negou-o, afirmando que me faria mal vê-los, afinal, estar com eles e eles não saberem que lá estava, não lhes poder tocar, não lhes poder dizer que vai correr bem... não sei até que ponto conseguiria aguentar.

Subimos de novo para o seu quarto e ele meteu-se no computador ignorando por completo a minha existência. Era incrível o quão insensível estava a ser.

Encostei-me à parede e deixei-me escorregar até ficar sentada no chão, apertei as pernas contra o peito e envolvi-as com os braços e deixei que as lágrimas escorressem, afinal, ninguém se iria importar.

Ao fim de quase uma hora pegada de choro, as lágrimas finalmente começaram a escassear, e foi nessa altura que Jensen que veio sentar ao pé de mim.

- Já acabaste? – Perguntou-me.

- Porque é que te importas? Nem o meu nome sabes – atirei.

- Anda lá, vamos dar uma volta.

Ele pegou num boné e meteu-o na cabeça, e assim fomos os dois para o parque, onde nos sentámos na relva.

- Porque é que és tão imbecil? – Perguntei.

Ele riu-se.

- Sabes... nem sempre fui assim... acho que na verdade não tenho razão nenhuma para não ser...

- Há sempre uma razão.

- Fala-me da tua vida – fiquei surpreendida pelo seu pedido, mas acedi com as maiores das facilidades.

Falei-lhe de Jonas, dos meus pais, e até da minha pequena gata branca, a Lili. E surpreendentemente, gostei. Pela primeira vez senti-me confortável ao falar com ele sobre estas coisas, senti que podia confiar.

Saímos do parque apenas quando o sol ameaçou pôr-se, e caminhámos calmamente até à sua casa. Era a sua vez de me falar da sua vida.

Estas poucas horas mudaram todas as opiniões que alguma vez tinha tido sobre ele. Se primeiro pensava nele como um Deus qualquer, depois passei a pensar como um rapaz mimado e insensível, mas agora finalmente cheguei à única conclusão correcta: ele é só um rapaz.

Claro, é famoso. Sim, tem tantos milhões de raparigas atrás dele quanto dólares no banco. Mas ainda assim é apenas um rapaz com os problemas normais e uns pais que desapontam a toda a hora.

Chegámos à sua casa e subimos para o seu quarto, onde ambos nos sentámos na cama a conversar e a rir.

- Então partiste mesmo os dentes? – Ele cada vez se ria mais – Não parece nada!

- Sim, quando tinha dez anos – e eu ria-me com ele.

Até à hora de jantar não nos calámos, e enquanto ele comia e eu observava apercebi-me que apesar de sempre ter tido esta grande admiração por ele, ao longo do dia de hoje tinha crescido para algo mais. Seria possível apaixonar-me por alguém após passar apenas poucas horas na sua companhia?

“Vá lá Annie, tu estás em coma”, relembrei-me, “Pára de pensar em namoricos, ele nunca vai querer nada contigo”.

Quando finalmente acabou a sua refeição voltámos a refugiar-nos no quarto e vimos um pouco de televisão recostados na sua cama.

O seu telemóvel tocou e vi-o recusar a chamada.

- Porque é que recusaste? – Perguntei. Sabia que não tinha nada a ver comigo, mas mesmo assim tive que perguntar.

- Era de um produtor de um filme para o qual me querem.

- Já tinha ouvido falar dessa notícia! Vais aceitar a proposta? – Vi nos seus olhos que a ideia não lhe agradava muito – Não queres aceitar?

- Estão todos à espera que a aceite.

- Bem... – ajeitei-me de novo a ficar de frente para ele – O que é que tu queres? Porque és tu que o vais fazer, ou não, por isso tens que pensar é no que tu queres, e não nos outros. É a tua vida, as tuas escolhas.

- Eu sei... só não quero desapontar ninguém.

- E não vais... as pessoas não podem sentir a falta de algo que nunca tiveram...

Ele aproximou-se mais de mim até as nossas caras ficarem a milímetros de distância e senti a minha cara automáticamente a ferver.

- Não fazes ideia do quanto te queria beijar agora... – murmurou-me, permitindo sentir o seu bafo quente e com cheiro a hortelã directamente na minha cara, e fazendo com que o meu coração disparasse a mil. Também o queria beijar. Também o queria muito beijar.

- Acho que vamos ter que simplesmente ficar com este momento – murmurei eu, com pena, mordendo o lábio. Ele fazia-me ficar nervosa.

- Pois – agora soava frustrado.

Deixou-se cair de novo para trás ficando esticado ao comprido na cama e eu fiz o mesmo.

- É loucura, sabes? Li na internet que uma das razões pelas quais te posso ver é o facto de partilhar-mos qualquer ligação... mas até esta tarde nunca tinha conseguido perceber bem do que se tratava – disse-me, baixinho, como se falasse apenas para si.

- E do que é que se trata? – Perguntei.

- A verdade é que foi preciso encontrar uma rapariga em coma para descobrir o que é amar. – Senti-me corar com esta sua afirmação. Ele ama-me? A mim? Não podia ser, podia? – Quem me dera que conseguisses acordar.

- Somos dois – murmurei. Ele olhou para mim – Como é que me posso ter apaixonado por ti apenas durante um dia?

- Não sei... – sorriu-me – Mas estou feliz que te tenhas apaixonado.

Sorri também. A única coisa que estragava tudo era ele não saber o meu nome.

Ficámos deitados, de lado e de frente um para o outro até ele adormecer. O resto da noite passei-a a olhar para ele. Parecia tão quieto enquanto dormia, tão perfeito.

Suspirei, será que alguma vez iria acordar?

Quando os primeiros raios de sol invadiram o quarto ele acordou, como se tivesse um relógio no cérebro, e olhou para mim com um sorriso de orelha a orelha.

- Por momentos pensei que fosses em sonho – murmurou. Mas logo depois o seu sorriso perdeu a intensidade que possuía – O que é que se está a passar?

Olhei para o meu corpo por reflexo e vi que aos poucos, estava a ficar transparente. Comecei a ficar ofegante.

- Não sei – disse, em pânico – Jensen não sei!

Ele ia-me dar a mão, mas passou exactamente pela minha o que fez com que uma lágrima me corresse pela bochecha. Eu nunca estaria com ele. Ele nunca seria meu.

Aos poucos desaparecia cada vez mais, até já pouco conseguir ver, ouvir, ou sentir.

- Annie não desapareças! – Foi a última coisa que ouvi. A última, e a que me fez sorrir. Era um sorriso débil, mas sentido. Ele sabia o meu nome.

Senti-me a entrar num mundo vazio e sem fim, até que...

- Ela está a voltar – ouvi. Parecia a minha mãe.

Abri os olhos aos poucos e após me habituar à luz, consegui fixar-me nos rostos das pessoas que me observavam. A minha mãe, o meu pai, e Jonas.

Todos supiraram de alívio.

- Ela está bem – constatou Jonas.

Um médico veio ver-me e assegurou-me que estava tudo bem comigo, porém sentia-me confusa. Teria sonhado com tudo? Só essa possibilidade fazia-me vir uma dor insuportável ao peito.

Encostei a cabeça à almofada e olhei para a janela, que sinceramente não dava para ver nada da rua pois se encontrava demasiado alta.

Ouvi passos a entrar no quarto e virei a minha atenção para aí. E então vi-o. Encarava-me de uma maneira estranha, um misto de surpresa e emoção, o que me fazia sentir ainda mais confusa. Se tinha sonhado, então que estaria uma estrela como ele aqui a fazer? Mas então, talvez não tenha sonhado... não tive tempo de acabar este pensamento pois uns lábios, os seus lábios, colaram-se aos meus numa velocidade espantosa, tornando-se no beijo mais quente, mais romântico, mais perfeito que alguma vez dei. Eu estava a beijá-lo a ele. Beijava Jensen Starlight, e melhor, ele beijava-me a mim.

Apenas nos afastámos ligeiramente quando as máquinas começaram a apitar, sugerindo que o meu coração batia demasiado depressa e estava com pouco oxigénio. E tinham toda a razão.

Jensen permaneceu com a sua testa encostada à minha e sorriu.

- Não sonhei? – Perguntei simplesmente, deixando-o limpar uma lágrima que me escorria pela bochecha. Ele abanou a cabeça.

- Não, não sonhaste – sussurrou – Foi tudo real. E eu estou apaixonado por ti.

Não pude evitar sorrir perante esta sua declaração.

- Tu és um idiota – murmurei. O seu sorriso ia fechar, mas eu apressei-me a continuar – És um idiota, mas sabes o meu nome... e eu também te amo.

E pela primeira de muitas vezes senti todo o amor que alguém podia ter para oferecer. E eu sabia exactamente a quem o oferecer.

 

Fim

 

Que tal?

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