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Destino Amaldiçoado

por Andrusca ღ, em 06.03.11

Capítulo 29

Namorada Nova

 

- Não vais ler isso? – Perguntou Luc.

Estávamos os dois encostados à cabeceira da cama e eu estava a segurar o pedaço de papel que tinha trazido do passado há já algum tempo.

- Vou, não sei é quando. – Respondi. – Por incrível que pareça tenho um bocado de medo de abrir, como se fosse desencadear alguma coisa do meu passado. Porque é que eles escreveram isto? A não ser que soubessem que iam morrer…

- Bem, nunca vais saber se não abrires e leres.

- Pois, acho que tens razão.

Bateram à porta.

- Sim? – Perguntou Luc.

Chad entrou.

- Não marquem nada para hoje ao almoço, almoçam comigo, quero-vos apresentar uma pessoa. – Disse-nos.

- Uma pessoa? – Perguntei.

- Sim, uma pessoa, vocês vão adorá-la. – Respondeu ele, recuando e saindo.

- Sabes alguma coisa sobre isto? – Perguntei a Luc, depois de ele sair.

- Não faço ideia. – Respondeu.

- Achas que ele tem uma namorada?

- Não sei, mas se tiver tão bom gosto quanto eu então deve estar melhor que bem. – Respondeu, rindo-se e agarrando-se a mim.

Passado um pouco descemos e sentámo-nos na mesa, prontos para a grande surpresa de Chad quando vimos ele entrar, com a mão à volta da cintura de uma rapariga extremamente esbelta, parecia uma modelo.

- Sheilla, Louis, maninho, Jô, esta é a minha namorada, Ellen. – Esclareceu Chad.

A rapariga, Ellen, era morena, tinha o cabelo quase até à cintura, ondulado, apanhado num grande rabo-de-cavalo e usava uma mini-saia aos quadradinhos brancos e vermelhos escuros, com uma blusa preta. Parecia muito tímida. Sheilla foi a primeira e pronunciar-se.

- Bem, isto é uma… óptima notícia, estou muito feliz por vocês. – Disse ela.

- Obrigada. – Disse Ellen. – O Chad fala imenso de vocês, porém às vezes parece que se obriga a parar, faz-vos parecer bastante misteriosos.

- Nós? Misteriosos? – Perguntou Luc. – Deve ser impressão tua. Eu sou o Luc, o irmão do Chad.

- Eu calculei. – Respondeu ela.

- Vês? Já estás a fazer sucesso, eles parecem gostar de ti. – Disse Chad a Ellen, dando-lhe um beijo.

Não sei porquê, e apesar de não conhecer esta rapariga, sentia que algo não estava bem, como se não fosse… real, mas agora de novo, eu não a conhecia.

Ela sentou-se ao meu lado e, apesar de normalmente eu estar com um óptimo bom humor, hoje não era o caso, parecia que ela me puxava para baixo… normalmente não me enganava em relação às pessoas, claro que nem sempre acerto, mas normalmente quando tenho um mau pressentimento sobre elas, a razão é boa e válida.

Acho que desta vez vou ter que fazer um esforço por Chad, ele parece gostar mesmo dela. Quem sou eu para lhe tirar essa felicidade?

Ellen passou o tempo a falar dela própria e todos pareciam bastante interessados. Descobri que ela praticava equitação, devia ser óptima com crianças pois trabalhava numa creche, tinha uma casa no centro da cidade e nos tempos livres fazia voluntariado, parecia simplesmente… perfeita. O problema era que não era tudo tão simples, não podia ser, senão porque razão estaria eu com aquele aperto tão grande?

- Tão fofinhos! – Exclamou ela, levantando-se da mesa e dirigindo-se aos pequenotes. – Posso pegá-los?

- Claro que sim. – Respondeu Louis.

Ela pegou em Luc ao colo e ele começou imediatamente a chorar. Luc não costuma estranhar as pessoas e raramente chora ao colo de alguém, mas após uns segundos Ellen voltou a pousá-lo para que ele se calasse.

- Luc querido, que se passa? Anda cá à mãe. – Chamou Sheilla.

- Luc? Esse não é o teu nome? – Perguntou Ellen a Luc, o crescido.

- Sim é, foi uma coincidência. – Respondeu-lhe ele, rindo-se e disfarçando.

O almoço mais pareceu uma tarde inteira, apesar de entre termos comido e conversado, ter levado apenas duas horas. Ellen foi-se embora e Chad levou-a. Deu para perceber durante o almoço que ela não sabia das nossas vidas mágicas. Sentei-me no sofá da sala para ver televisão, mas estava tão pensativa em relação a Ellen que nem reparei que me tinha sentado em cima do comando e que a televisão estava desligada. Luc sentou-se ao meu lado pouco depois.

- Então, que achaste da Ellen? – Perguntei-lhe.

- Normal, o comando?

- Sim, mas… um normal, normal ou um normal não tão normal?

- Joanna, um normal, normal. Tens o comando da televisão?

- Sim, toma. Mas ela não te pareceu demasiado…perfeita?

- Estás com ciúmes?

- O quê? Claro que não, estou só preocupada com o Chad, só isso. E se ela não for quem ele pensa?

- Mas sabes de alguma coisa?

- Não quer dizer… nada em concreto, mas posso investigar…

- Ou podes ficar quieta. Isso são coisas da tua cabeça Jô, de certeza que não se passa nada de errado, além disso o Chad ia ficar muito chateado contigo se investigasses alguma coisa.

Levantei-me e subi até ao quarto.

- Antes chateado do que morto. – Murmurei baixinho. – Também, se ele não souber não faz mal.

Fui até ao escritório buscar o meu livro e levei-o para o quarto. Desfolhei-o de capa a capa e não encontrei nada sobre ela, o que me deixou mais descansada, porém, mais intrigada. Luc entrou nesse instante.

- Jô! – Exclamou. – Pensava que tínhamos concordado que não ias investigar nada.

- Não, tu concordaste sozinho, eu não concordei em nada, mas se ajudar não encontrei nada sobre ela no livro.

- Óptimo, estás satisfeita?

- Satisfeita não digo, mas mais descansada estou.

- Vais parar com essas desconfianças, certo?

- Claro que sim. – Assegurei-lhe, fazendo figas com os dedos por trás das costas.

A meio da noite entrei no quarto do Chad e vi o número do telemóvel de Ellen e de manhã decidi telefonar-lhe para combinarmos qualquer coisa, ela aceitou de imediato e combinámos almoçar juntas. Vesti uns calções de ganga com umas collants transparentes e uma blusa de manga comprida castanha clara com umas botas de salto alto, também castanhas. Pus espuma no cabelo de forma a que fizesse caracóis e pintei as unhas de bordô, pois o verniz que tinha posto já estava a cair. 

Desci e fui tomar o pequeno-almoço. Depois ajudei Sheilla a despachar os pequenos para Louis os levar à escola. Voltei a descer e sentei-me a ver umas coisas no portátil, a fazer tempo para me ir encontrar com Ellen. Luc sentou-se ao meu lado e observou-me.

- O que foi? – Perguntei. – Tenho alguma coisa na cara?

- Não, mas tens qualquer coisa… - Respondeu ele.

- Qualquer coisa… tipo o quê?

- O que é que andas a tramar?

- Nada. – Respondi, encolhendo os ombros com um ar bastante inocente. – Porquê?

- Porque tu não desistes das coisas. Joanna, eu conheço-te. Andas a tramar alguma e o Chad não vai achar piada nenhuma.

- Eu não ando a tramar nada Luc. Não te preocupes.

- Tu lá sabes. Olha, queres almoçar comigo? Podíamos fazer um almoço romântico no parque.

- Pois… hoje não dá, desculpa.

Ele fez-me uma cara de quem estava à espera que me justificasse.

- Talvez… - Comecei eu. – Talvez até esteja a tramar alguma coisa. Mas não é nada de mal, juro. Agora tenho que ir. Até logo. – Disse-lhe, levantando-me e beijando-o para me despedir. Saí antes de ele ter tempo para falar.

Encontrei-me com Ellen à porta do restaurante combinado e almoçámos juntas como programado. Apesar dos meus esforços, Ellen parecia ser uma pessoa normalíssima, talvez Luc tivesse razão e eu esteja só com ciúmes, não sei bem porquê, mas é a única explicação. Depois do almoço demos um passeio e quando já era quase de noite, despedimo-nos. Segui-a até à casa dela e reparei que era numa rua muito próxima à rua em que eu costumava morar. Como não vi nada de estranho, vim embora.

Quando cheguei a casa já se estavam a preparar para jantar e eu juntei-me a eles. Depois do jantar fui mudar de roupa para ir ao High Spot. Vesti um vestido preto, com um grande decote, e de cavas e calcei umas botas com um salto muito fininho, também pretas. Pus uma pulseira dourada e uns brincos. Pintei-me. Quando abri a porta do quarto para sair, Chad estava lá.

- Chad! – Exclamei. – Assustaste-me.

- Desculpa. – Disse ele, entrando. – Eu já sei que passaste a tarde com a Ellen.

Fiquei sem reacção, mas ele continuou.

- Espero que já estejas feliz Joanna. Já te convences-te que ela não é má? Eu pensava que confiavas em mim Jô.

- E confio. Em ti sim, confio e preocupo-me também, foi por isso que quis almoçar com ela, para saber se também podia confiar nela.

- Pela primeira vez que vos apresento alguém, tu fazes isto Jô.

- Desculpa, eu sei que foi um bocado mau mas…

- Mas? Tu não confiaste em mim, nas minhas escolhas e pensaste que eu tinha trazido para cá um demónio.

- Podia acontecer Chad, não ias ser o primeiro a trazer um.

- Pois não, não ia, porque isso normalmente és tu que fazes.

- Ok, eu sei que fiz asneira mas essa foi escusada.

- Achas que só tu é que tens o direito a estar feliz com quem gostas? Eu não tenho direito é?

- Chad, não é nada disso, claro que tens. E eu quero que sejas feliz, eu só me quis assegurar que isso acontecia percebes?

- Não, não percebo.

- Chad, vá lá, não fiques chateado.

- Tarde demais. – Respondeu ele, virando costas e indo-se embora.

Eu deixei-me cair, atravessada na cama. «Não consegues estar quieta nem calada não é Joanna? Depois só fazes é asneira.» pensei. Luc entrou.

- Então, estás despachada? – Perguntou.

- Vão vocês, eu perdi a vontade.

- Então, passou-se alguma coisa?

- Chad…

- Pois, eu detesto dizer isto mas…

- Tu avisaste-me. Eu sei Luc. Vá, vai lá. Divirtam-se. – Disse eu, interrompendo-o.

Ouvi a porta da rua a fechar-se e a casa ficou num silêncio total. Eu continuava imóvel, em cima da cama a pensar em Chad. Será que me ia perdoar? E Ellen, será que percebera o porquê de a ter convidado para sair? Isto não podia ficar assim. Tinha decidido, tinha que falar com Ellen, explicar-lhe tudo e pedir-lhe desculpas, depois era só rezar para que me perdoasse.

Levantei-me, agarrei num casaco e nas chaves de casa e saí. Fui até ao apartamento de Ellen e os nomes estavam escritos na caixa do correio, ela era do 5ºandar, apartamento A. A porta da rua estava aberta por isso entrei e subi. Quando cheguei à porta dela bati e toquei à campainha várias vezes mas ninguém atendeu. Vi umas sombras por baixo da porta e imaginei que ela estivesse em apuros por isso usei os meus poderes para destrancar a porta e abri-la. Quando entrei fiquei especada a olhar, apesar do mau cheiro que lá estava, a casa estava quase vazia, não havia nada além de um sofá que parecia ser muito velho e teias de aranha nos cantos. Entrei nas outras divisões e constatei que se encontravam vazias, até que entrei numa em que tinha um altar de bruxa. Estava lá uma cama de pedra e à frente tinha um caldeirão, bonecas de vudu e animais mortos pendurados «Eu sabia que não tinha estes pressentimentos à toa». Senti uma pancada na cabeça e perdi os sentidos.

Acordei deitada na mesa de pedra, com as correntes a prenderem-me os pés e as mãos e com Ellen ao lado, a misturar coisas no caldeirão.

- Tinhas que ser intrometida não era Joanna? – Perguntou, sarcasticamente. – Também, já planeava matar-te, não esperava era que viesses até mim tão facilmente.

- Eu sabia! – Resmunguei. – Eu sabia que não podias ser boa! Eras demasiado perfeita para seres real.

- Essa magoou. – Disse ela, ainda a gozar comigo.

Agarrou numa faca e aproximou-se de mim. Tentei tirar-lhe a faca das mãos com o poder de telicnese mas não funcionava.

- Oh minha querida, achas mesmo que te punha aqui sem me proteger primeiro? Enquanto tiraste esta pequena soneca bebeste um suminho bastante bom. Tirou-te os poderes. Também não vale a pena pensares em chamar o teu namoradinho porque, se tecnicamente não és uma bruxa, ele não te ouve.

- Não. – Sussurrei, entrando em pânico.

- Tem calma, isto só vai doer um bocadinho. – Disse ela, rindo-se maleficamente, aproximando-se com a faca.

Fez-me um pequeno corte na mão, de forma a deitar um pouco de sangue, que juntou ao que quer que fosse que já estava dentro do caldeirão.

- Só isso? – Perguntei, um quanto espantada.

- Por agora. – Respondeu, com uns olhos maquiavélicos.

Olhei em volta mas não vi nada que me pudesse ajudar. Nenhum dos meus poderes funcionava e as correntes já me estavam a começar a magoar os pulsos e os tornozelos. Lembrei-me de uma vez em que tive que entrar à força numa loja por causa de um demónio e usei um gancho para abrir a fechadura. Tentei desesperadamente chegar ao cabelo e consegui tirar um gancho. Muito lentamente, consegui abrir a primeira fechadura, libertando-me a mão esquerda, depois a direita e depois, ainda mais devagar e sem fazer barulho, os pés. Pus os pés no chão e tentei não fazer barulho ao desviar-me mas assim que dei um passo as botas fizeram muito barulho, devido aos saltos e ela voltou-se para mim. Desatei a correr e entrei numa divisão, fechando a porta à chave.

- Oh meu Deus, o que é que eu vou fazer?! – Perguntava-me, em pânico. – Luc! Luc!

Esperava que essa história de Luc não me ouvir fosse mentira, mas após um tempo a chamá-lo, pareceu bem real. Ela tentava derrubar a porta mas depois foi-se embora por um bocado. Respirei fundo e, encostada à porta, tentei explodir uma das caixas vazias que lá se encontravam, mas nada. Estava, oficialmente, sem poderes.

- O telemóvel! – Lembrei-me, levando a mão à perna, à procura do telemóvel que anda sempre nos bolsos. – Claro, não tenho bolsos no vestido. Esqueci-me. Raios!

Ouvi-a voltar e fui empurrada com muita força contra a parede paralela à da porta, quando me soltei as caixas que se encontravam por cima de mim vi-a. Estava em pé, à frente da porta, que se encontrava já destruída em muitos pedacinhos. Tinha-a explodido. Mas como? Esse era o meu poder!

- Como? – Perguntei, com uma voz um bocado frágil e com as costas a doerem bastante. Também estava a deitar sangue de uns arranhões no braço esquerdo.

- É fácil. Eu tirei-te os poderes e guardei-os no caldeirão, depois tirei-te o sangue e misturei tudo e depois foi só beber. – Disse ela, com um ar de psicopata.

Tentei levantar-me mas fraquejei, estava demasiado aleijada. Ela aproximou-se de mim e preparou-se para me explodir em milhões de pedacinhos. Eu não tinha reacção, só conseguia pensar em como tinha desistido da ideia que ela era má tão facilmente, como é que não tinha acreditado nos meus dotes?!

- Desculpa Joanna, mas tu facilitaste demasiado. – Disse ela.

Ouvi-a dar um grande grito e transformar-se em pó. Fiquei sem perceber nada até ao pó assentar e ver Chad, em pé, ao pé da porta.

- Chad. – Murmurei.

Ele correu até mim e ajoelhou-se.

- Jô, oh meu Deus, o que é que eu te fui fazer? Isto é tudo culpa minha.

- Chad, Chad, Chad, calma. Eu estou bem, estou só um bocado… magoada. Não te preocupes. Mas como é que sabias que eu estava aqui?

- Não sabia. Vim visitá-la e ouvi-a a falar, quando entrei vi isto tudo e vi-te a ti e…

- Mataste-a. – Completei.

Ele levou-me para casa onde Luc me curou. Estava completamente sem sono por isso vesti um casaco e sentei-me a um canto, no chão da varanda do meu quarto. Chad bateu no vidro e aproximou-se.

- Como é que estás? – Perguntou. Notava-se que estava bastante perturbado.

- Bem, e tu?

- Melhor. Nem sei o que estava a pensar. Desculpa por tudo o disse, no final tu tinhas razão, já devia estar habituado, tu tens sempre razão.

Levantei-me e aproximei-me dele.

- Eu não queria ter razão Chad.

- Eu sei. E obrigado por não teres dito “eu avisei-te”, porque sim, tu avisaste-me. Eu é que não quis ouvir.

- Pensa assim, agora tu estás de volta, por isso cuidado solteiras de São Francisco.     

- Mas é que é mesmo. Nem sei o que me deu para ter uma namorada. Eu costumo é ter várias.

- Chad, ela está a chegar, eu sei que sim, e quando chegar, vai ser ainda melhor que tudo o que possas ter imaginado.

- Obrigado. – Sussurrou-me ele ao ouvido, abraçando-me.

Voltámos a entrar e Chad foi para o quarto dele deitar-se e eu vi na minha mesa-de-cabeceira, o tal papel do passado.

«Já é tempo de ler isto» pensei, desdobrando o papel.

 

«Joanna, antes de tudo queremos que saibas que te adoramos muito e que significas tudo para nós. Um dia vais-te tornar numa óptima mulher, forte, amável e lutadora… sabemos que o futuro do mundo está bem entregue, vais ser uma óptima bruxa. A tua irmã, Kendra, teria muito orgulho em ti. Sabemos que não te lembras dela, ainda tinhas poucos meses quando foi raptada por um demónio, mas onde quer que ela esteja, de certeza que tem tanto orgulho em ti como nós. Não te preocupes connosco, estamos melhor assim, lembra-te de nós e chora a nossa morte, porém, não pares de viver.

Esperamos que sejas muito feliz, beijos, mãe e pai.»

 

Já sabem... os 13 ^^

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