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Destino Amaldiçoado

por Andrusca ღ, em 08.03.11

Capítulo 32

De volta a mim

 

Estava naquele quarto fazia um mês agora, mas tempo era apenas tempo, era como se não significasse nada. Sentia-me completamente vazia, como se não houvesse razões para viver, sentia-me como… uma assassina. Como é que sou diferente de todos os outros assassinos que estão a apodrecer na prisão?

Tive todas as oportunidades para salvar a minha família e desperdicei-as uma a uma. Era como se estivesse presa neste enorme pesadelo que não acabava. Queria acordar. Queria ver que as coisas não eram assim tão más afinal, mas nada me conseguia fazer sair do buraco em que me metera.

Os Connor estavam sempre de roda de mim a ver como é que estava e notava-se que estavam preocupados comigo, mas eu não conseguia reagir, simplesmente não conseguia, as minhas forças tinham-se esgotado todas.

Luc entrou no quarto com um tabuleiro com o jantar e sentou-se em cima da cama, ao meu lado.

- Trouxe-te o jantar. – Disse, amavelmente.

Abanei a cabeça.

- Ouve Jô, eu não sei o que fazer mais contigo. Não comes, não falas. Estamos a ficar preocupados sei lá… e se fosses a um psicólogo? Talvez ajudasse. – Disse-me Luc, ao que eu abanei a cabeça, negativamente. – Faz qualquer coisa então! Podes-me chamar egoísta mas quero a minha namorada de volta, tenho saudades dela! Da rapariga que está sempre a rir e pôr os outros a rir. Ouve, não podemos mudar o passado mas o futuro é diferente… o futuro está a ser construído agora mesmo, eu posso pensar virar para a esquerda mas acabar por virar para a direita e só aí já mudei o futuro. O futuro é construído por pequenos passinhos e são esses passinhos que formam um grande plano. Nós não temos que mudar o grande plano, só temos que escolher bem os pequenos passinhos que damos. Jô, por favor, sai dessa, reage. Nós precisamos de ti! Procura ajuda, fala connosco, mas volta a ser tu.

Encolhi os ombros.

- Bolas Joanna! Diz qualquer coisa. – Disse ele.

Baixei a cabeça.

Ele levantou-se e agarrou numa moldura com uma fotografia minha. Mandou-a para cima da cama.

- Lembras-te desta rapariga? Parece-se imenso contigo, no entanto começo a achar que não têm nada a ver. Por favor, faz um esforço, olha para ela, vê o sorriso enorme na cara dela, vê como estava feliz. Volta a ser assim, por favor. Ou ao menos pensa nisso. A comida fica aí, se quiseres comer come. Vamos comer e depois vamos estar no High Spot, se precisares de alguma coisa. – Disse ele, saindo do quarto em seguida.

Olhei para a fotografia. Foi tirada na cascata no parque. Luc tirou-a. Eu estava a usar umas calças cor de laranja que Luc me ofereceu e uma blusa preta de cavas, era Verão. Tinha um totó de cada lado da cabeça e tinha umas chinelas calçadas. Estava com um grande sorriso que parecia poder vencer tudo e todos.

Olhei para o relógio e vi que eram oito e meia. Senti uma enorme sonolência e caí rapidamente num sono profundo.

De repente estava numa floresta, de frente para o que parecia ser o rio Amazonas. Continuava no meu grave estado de depressão mas apesar de tudo me dizer para parar e desistir de tudo, comecei a andar. Estava definitivamente numa floresta. Havia montes de árvores em todos os lados para que olhasse, montes de arbustos e ervas grandes ou pequenas. «O que é que eu estou aqui a fazer?!» pensei.

- Tens que repensar a tua vida. – Ouvi, soava como um sussurro, uma voz muito suave.

- Está aqui alguém? – Perguntei, olhando em todos os lados para ver se conseguia avistar alguém.

- Segue os teus instintos, não tenhas medo. – Disse de novo a voz.

Continuei a olhar nas diferentes direcções e vi um arbusto a mexer-se. Corri até ele e desviei-o. Olhei em redor, encontrava-me agora no centro comercial. Comecei a andar sem destino. Após andar ali sem sentido, ouvi um grito, mas apesar de não ter vontade nenhuma de averiguar, o meu corpo forçou-me a ir. Vi-me a mim, com montes de sacos de compras no chão, a lutar com um demónio, mas ele derrubou-me. Depois apareceu Luc, que ajudou a outra eu a apanhar as coisas e começaram os dois a falar. Estava de volta ao dia em que conheci Luc.

- Nem tudo é mau. – Disse a voz de novo.

Virei-me e de repente encontrava-me em frente à casa dos Connor. «Que raio… o que é que se está a passar?!» pensei eu, ficando furiosa.

Ouvi gritos e corri até lá. Entrei e passei por Chad, Luc e pela outra eu. Aparentemente ninguém me conseguia ver. A outra eu estava completamente encharcada dos pés à cabeça. Lembrava-me perfeitamente daquilo, foi quando Choeletran, o demónio da água me atacou, foi nesse dia que descobri que Luc era o meu anjo-da-guarda.

Num piscar de olhos estava nas traseiras do High Spot, numa noite em que só eu e Sue tínhamos saído e vimos um demónio a atacar uma mulher e a fomos socorrer. A mulher acabou por morrer, mas não por causa do demónio, teve um ataque cardíaco.

- Às vezes magoa, mas acaba tudo por passar, as feridas acabam sempre por sarar. – Falou a voz misteriosa.

Encontrava-me agora dentro do bar, com a outra eu a olhar, incrédula, para Luc e a outra demónia com quem me traíra e no momento a seguir estava em casa, no dia do meu aniversário, a ver-me a fazer as pazes com ele.

- Não te podes render. Nunca te podes render. – Disse a voz.

As coisas estavam a ficar esquisitas. Estava sempre de um lado para o outro, parecia que tinha gravado a minha vida e agora estava a assistir a tudo, passinho por passinho. Fui levada ao momento em que conheci os Connor, ao momento em que fui raptada por aquele maníaco violador, ao momento em que a minha casa ardeu e até ao momento em que me mudei para São Francisco. Cada episódio a que assistia, a voz dava um comentário. Estava-me a sentir cada vez mais tentada a sentar-me e deixar-me levar, mas não o fiz, o meu corpo não o deixou, era como se já o não o controlasse mais.

Fui levada até um dia em que dancei até cair para ao lado no High Spot, tinha uma felicidade óbvia estampada nos olhos e um sorriso enorme estampado nos lábios. Era como se tivesse tudo o que algum dia poderia desejar, como a vida fosse perfeita. Será que era perfeita mas só eu é que não via isso? Talvez sim, mas se era tão perfeita então porque é que me encontrava agora a meio de uma depressão horrenda? Estaria a exagerar? Olhei para mim a dançar. Estava tão confiante, tão feliz, tão… eu. Estava simplesmente eu, como era costume estar todos os dias. O que é que se passara comigo, quando é que cheguei a esta situação? Seria possível voltar atrás? Será que conseguiria voltar a ser eu outra vez? Talvez um dia, mas não agora. Por agora não tinha forças para isso, usava-as todas para evitar chorar a toda a hora.

- A Joanna Cronwell não é uma desistente. É uma mulher forte, se alguém consegue superar qualquer coisa, essa pessoa é ela. – Disse a voz.

Acordei sobressaltada. Teria sido tudo um sonho? Olhei para o relógio, eram oito e meia. «Estranho, ia jurar que tinham passado horas, afinal nem um minuto?» pensei.

Levantei-me e caminhei até ao espelho. Olhei-me e fiquei ainda mais triste ao ver que a rapariga no espelho não se parecia em nada comigo. Estava extremamente pálida e tinha os olhos vermelhíssimos de estar sempre a chorar. Os olhos já não tinham o brilho que costumava estar lá sempre e o sorriso desvanecera-se. O cabelo despenteado e o fato de treino… nada disto era eu. 

Deixei um suspiro passar e peguei na minha viola, sentei-me na cama e comecei a tocar uns acordes. Surpreendentemente veio-me um sorriso aos lábios, tinha-me esquecido em quão libertador era para mim tocar. Comecei a cantarolar coisas sem sentido mas a verdade é que depois de pouco tempo tinha uma música composta, com letra e tudo. Vi as horas, ainda eram dez e meia. Olhei em volta e voltei a ir até ao espelho.

- Esta não sou eu. – Sussurrei. – Não posso ser.

Abri o roupeiro e comecei a escolher roupa. Vesti um vestido de seda, azul-escuro e calcei umas botas curtinhas, pretas. Fui até ao espelho de novo e penteei-me. Prendi o cabelo atrás com uma mola, para que depois caísse por cima dela, deixei umas farripas de cabelo para a frente. Pus blush e pintei os olhos, e depois de aplicar o gloss voltei a encarar-me no espelho, com mais atenção. Esta já era eu e o sorriso já quase que estava lá.

Desci as escadas e saí porta fora, com a mala numa mão e a viola noutra.

Decidi caminhar em vez de apanhar um táxi. Era bom estar de novo na rua, sentir o vento na cara. Demorei imenso tempo a chegar ao High Spot mas não fazia mal. Entrei pela porta traseira e fui até ao pé do DJ.

- George, achas que me podes emprestar o microfone e passares uma música? – Perguntei, quase implorando.

- Depende se a minha chefe vai ficar chateada ou não. – Respondeu ele.

- Acredita, se ficar é comigo. – Assegurei-lhe.

- Muito bem então. – Disse, virando-se para o público e dando-me o microfone. – Parece que temos uma jovem corajosa. Um grande aplauso para Joanna Cronwell.

- Não pedi para fazeres uma cena mas ok. – Sussurrei-lhe.

- Ei, tu já me conheces. – Disse, rindo-se. – É sempre tudo para a frente.

- Olá toda a gente. – Comecei a andar até ao meio do palco. – Para quem não me conhece chamo-me Joanna e … bem, eu fiz asneira. Mas queria pedir desculpa. Estraguei tudo e tenho agido como se fosse tudo mau, mas não é. Algumas coisas sim, claro, mas não tudo, e especialmente não vocês. – Disse eu, olhando para os Connor. – Por isso, continuando, escrevi esta música. Acho que mostra um bocado como me tenho sentido ultimamente mas também do que vocês significam para mim. Há sempre uma luz ao fundo do túnel, a boa notícia é que nem sempre é má.

Pus o microfone no suporte e fiz sinal a George que pôs a música e dar e eu cantei-a, enquanto a tocava também na viola. Era uma música calma, nada do género que costumava cantar. Quando acabei agradeci e saí do palco, deixando George continuar com o seu show de DJ. Dirigi-me à mesa dos Connor e eles ficaram a olhar para mim.

- Peço desculpa. A todos, por tudo. – Disse.

- Não tens que pedir desculpa por nada. – Disse Claire.

- Tiveste todas as razões para fazeres o que fizeste. Nós compreendemos. – Disse Sue.

Sorri.

- Há séculos que não via esse sorriso. – Disse Chad, levantando-se e abraçando-me em seguida.

- Acho que agora o vais ver mais vezes. – Disse-lhe Sheilla.

Luc levantou-se e veio ter comigo, ficou tão junto a mim que conseguia cheirar o seu hálito.

- Isto significa que estás de volta? – Perguntou.

- Acho que sim.

- Estás bem?

- Não. Nem por perto. Mas vou ficar. – Disse-lhe, sorrindo no fim da frase.

Ele agarrou-me e beijou-me.

- Já não era sem tempo de te ter de volta. – Disse-me.

Fui buscar uma bebida ao bar e até Peter, o bartender, disse que já não me via há tempo demais, mas eu assegurei-lhe que isso ia mudar. Não fiquei no bar durante muito mais tempo e quando ia a sair virei-me e vi-os a todos ali, sentados à volta daquela mesa, felizes.

Agora percebo que não havia razão nenhuma para me sentir tão mal. Tudo o que eu precisava, tudo o que podia desejar, estava mesmo ali, naquela mesa. Eles eram a minha família, e nunca me iriam deixar.

 

Então, que tal?

13... ^^

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