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Espinhos de Rosas

por Andrusca ღ, em 30.09.10

O penúltimo capítulo... espero sinceramente que gostem.

É claro que posto a continuação!

 

Capítulo 23

Ajuste de contas

 

Fomos no carro de Verónica até à escola, e depois caminhámos até ao início do bosque. Olhei para a vastidão do bosque, é impossível fazer o que eles querem. Eles estão a pôr demasiada fé em mim e num sonho velho.

Respirei fundo e dei o primeiro passo para dentro do bosque, com Gary à minha direita e Verónica à esquerda.

Andámos alguns passos, sempre à velocidade humana, ao acaso. Eu não fazia a mínima ideia para onde nos estava a levar. A ideia deles era eu lembrar-me do caminho da casa, como no sonho, mas este bosque parece-me todo igual. Para qualquer lado que olhasse via apenas árvores e mais árvores, e ir por um lado ou pelo outro parecia-me completamente igual. Nunca tinha pensado na imensidade deste bosque, agora que penso bem, ele consegue esconder um lago e um pequeno jardim maravilha à sua volta, e uma casa velha e assustadora, aparentemente.

- Então, parece-te alguma coisa familiar? – Perguntou Gary.

- Claro, as árvores parecem iguais – respondi, sem pingo de fé na voz.

- Vá lá Chloe, concentra-te – pediu Verónica – Tu consegues fazer isto.

- Verónica, eu quero lembrar-me, a sério, mas não consigo, e pensar que consigo é uma loucura.

- Tu prometeste à tua irmã que ia correr tudo bem, que íamos todos regressar bem. Não queres cumprir a promessa? – Ela tem razão nisto, mas também não me pode pedir para fazer uma coisa que não consigo.

- Ela tem dez anos Verónica. Querias que lhe dissesse que pensava que ia morrer?

- E pensas? – Perguntou Gary.

- Eu vou para uma casa infestada de vampiros e humanos malucos. Como é que queres que pense? Vocês já me conhecem, e sabem que não sou lá muito optimista. Claro, com sorte vocês saem de lá, mas eu? Acham mesmo que eu saio de lá bem?

- Se não acreditas, porque é que vais caminhar para a morte? – Se ele acha que é com estas perguntas que me faz mudar de ideias está muito enganado.

Veio-me a imagem de Derek à cabeça. Ele está sozinho no meio daqueles lunáticos todos, por isso como podia não fazer nada? Como podia ficar quieta quando sabia o que lhe queriam fazer? Eu tenho que o ajudar, tenho que acreditar que pelo menos ele sairá disto com vida.

Lembrei-me da última conversa que tínhamos dito. Ele estava tão convicto que eu não queria ouvir o que me queria dizer. Até eu estava. A verdade é que não faço ideia do que lhe diria se não tivéssemos sido interrompidos. Eu amo-o? Sim, amo. É oficial, eu estou apaixonada por um vampiro. Conseguia dizer-lhe? Não sei. Não será mais fácil afastar-me já do que prender-me a esperanças inúteis? Quer dizer, nós não temos um futuro. Ele nunca será humano, e eu nunca serei vampira. Eu nunca conseguiria deixar os meus irmãos pela imortalidade, por egoísmo. Acho que por isto é que lutei tanto quanto ao que sentia, por não me querer magoar. Acho que estou a ficar mais burra, ao finalmente abraçar o que sinto.

Ia responder a Gary quando olhei para duas árvores à nossa direita, que inclinadas faziam um arco. Veio-me um flashback à cabeça, em que eu, mais nova, ia a andar em direcção àquele arco formado pelas árvores, e que poucos passos depois virava à esquerda e depois de mais uns quantos voltava à esquerda de novo.

Andei em direcção às árvores e pousei a mão na do lado direito.

- Eu acho que sei por onde ir – murmurei. Quando me virei para trás, para eles, já eles estavam ao meu lado.

Eles olhavam para mim atentamente, à espera do meu próximo passo.

Andei para a frente e contei vinte passos, virei à esquerda e contei vinte e cinco, e voltei a virar à esquerda.

Estávamos agora numa parte com a erva altíssima, quase do nosso tamanho. Tenho a certeza que nunca aqui estive, mas sinto que este sítio me é familiar de qualquer maneira. Como?

- Vamos por aqui – disse-lhes.

Fui andando e não sei como, mas sabia exactamente por onde ir.

Devemos ter andado por quase quinze minutos, e já se via mal por causa da escuridão da noite, até que avistámos uma casa ao longe.

Era feita de madeira, mas não era muito grande. Dava para ver, com esforço, que as janelas estavam tapadas com mais madeira.

- É aqui – murmurei, acho que um bocado espantada. Acho que apesar de tudo, nunca cheguei a acreditar realmente que a casa do meu sonho existia mesmo.

- Estás pronta? – Perguntou Verónica, num tom baixo. Será que é mesmo preciso falar baixo a esta distância toda? Acho um bocado impossível alguém nos ouvir, mas pronto.

- Não, mas acho que nunca vou estar – respondi, no mesmo tom.

- Consigo cheirar três humanos e um vampiro, os outros devem estar mais longe – disse Gary – Nenhum dos humanos é o Josh, e o vampiro também não conheço.

- Óptimo – pensei, em voz alta –, assim facilita as coisas.

- Ok, mãos à obra, o vampiro também já nos deve ter cheirado e sabe que tem visitas – sussurrou Verónica.

Gary agarrou em mim pela cintura e eu comecei a espernear e a gritar para ele me largar. Ele e Verónica aproximaram-se da casa a uma velocidade superior à dos humanos, e senti o estômago a resmungar. Isto de andar a super velocidade enquanto sou agarrada à força não é confortável…

Chegámos ao pé da porta, que também era de madeira, e consegui ver, no meio da escuridão, uns canteiros com rosas negras e murchas espalhados ao redor da casa e numa trepadeira que ia até ao andar de cima.

Dois rapazes saíram da casa e puseram-se à nossa frente. Verónica e Gary já estavam com a cara assustadora à qual já me tinha habituado. Os rapazes, um loiro com o cabelo curto e o outro com o cabelo rapado e com uma tatuagem de um dragão a subir-lhe pelo seu peito nu até ao pescoço, também se transfiguraram. Outro vampiro tinha-se juntado àquele que Gary tinha cheirado.

- Larga-me! – Gritava eu, para Gary.

- Larguem a rapariga – disse o rapaz da tatuagem.

- Dêem-nos o nosso irmão – retorquiu Verónica.

Oh, eu estou mesmo a ver o final disto tudo.

Apareceram mais três rapazes à porta, mas não se transformaram. Acho que são humanos, pelo menos tremiam como tudo.

O rapaz loiro deu um passo em frente, para Verónica, e antes que os meus olhos humanos o conseguissem seguir, já estavam a lutar um com o outro. Mal consegui ver o da tatuagem atirar-se a Gary, só sei que de um momento para o outro deixei de estar nos braços de Gary para estar no chão.

Os três rapazes dirigiram-se a mim e ajudaram-me a levantar. Parecem tão normais, tão perfeitamente normais, e no entanto anseiam por se tornarem monstros. Há pessoas que nunca vou compreender.

- Anda para dentro da casa – disse um dos rapazes, um moreno com uma camisola com riscas verdes.

Obedeci e ele entrou primeiro, eu a seguir e os outros dois atrás de mim. Ao passar pela porta milhões de pensamentos passaram-me pela cabeça. Será que esta será a minha última noite? É claro que eles parecem simpáticos, mas apenas porque esperam que eu seja a sua primeira refeição. A este ponto o vampiro que matou o meu pai já deve saber que eu estou dentro da casa, e deve estar prestes a vir ter connosco, por isso tenho que me despachar.

Eles fizeram-me sentar-me num sofá velho, no hall de entrada que servia de sala de estar. Não havia televisão, apenas o sofá e mais dois divãs pequenos. Dois deles sentaram-se nos divãs, mas o da camisola às riscas verdes ficou de pé. Estavam todos à espera que eu dissesse alguma coisa, alguma coisa que uma pessoa na minha situação diria. Eu conheço estes rapazes, eles são da escola. Não sei os nomes deles, mas lembro-me de os ver por lá.

- O que eram eles? – Perguntei, com um terror falso. Eu nunca fui boa actriz, lembro-me de há dois anos, quando fizemos a peça Romeu e Julieta na escola, e eu fiz de Julieta e desatei a rir do nada, no meio da peça. Foi uma das maiores vergonhas da minha vida.

- Vampiros – respondeu-me o rapaz que estava de pé.

- Oh meu Deus… - murmurei. Tentei chorar, mas as lágrimas não vinham – Estamos a salvo aqui?

- Sim, eles não nos magoam aqui – respondeu um dos que estavam nos divãs.

- Vampiros são reais? Oh Deus… - continuei.

- Tu não sabias? Tu andas sempre com eles – observou o outro, que tinha estado calado o tempo todo.

- Eu não sabia, como é que poderia? Têm a certeza que aqui não nos conseguem magoar?

- Absoluta – voltou a respondeu o da camisola das riscas.

- Então… posso usar a casa de banho? Eu estive com eles o dia quase todo e… foi tão assustador, eu pensei que eles me iam matar e…

- Claro – respondeu ele –, vais por ali e sobes as escadas. É a segunda porta à direita.

- Obrigado – respondi eu, com a voz ainda a tremer falsamente, enquanto me levantava.

Enquanto andava tive o cuidado de tentar tremer um bocado, para mostrar que estava aterrorizada. Na verdade não tive que me esforçar muito, na verdade não estou tão calma quanto gostaria.

Virei à direita para as escadas, mas em vez de as subir como ele me disse, entrei na cozinha e fechei a porta. Agarrei numa das seringas, que tinha nos bolsos do meu casaco preto, de cabedal.

Abri a porta da cave e entrei, fechando-a em seguida. Puxei o cordelinho para acender a luz e dirigi-me à porta de metal, que dava passagem para a sala onde eles deviam estar.

Já estava dentro da casa, por isso agora era ter esperança. O que me estava a meter confusão era como é que ainda ninguém veio ter comigo. Se Gary os cheirou de tão longe, com todas as certezas que eles já me cheiraram. Isto só pode significar uma coisa: estão à espera que seja eu a ir ter com eles.

Abri a porta e vi o primeiro lanço de escadas de mármore. As paredes já não estavam pintadas, tinham apenas bocados de tinta branca e cinzenta nuns sítios. Era horripilante. Espreitei antes de passar pela porta, e depois comecei a descer as escadas. A luz, já acesa, era muito fraca e tinha uma tonalidade esbranquiçada. Desci muito lentamente, e quando acabei o primeiro lanço respirei fundo antes de fazer a curva para passar ao segundo. Perguntei-me como estariam Verónica e Gary. Será que os outros vampiros eram mais fortes que eles? Será que eles venceram e já estão dentro da casa? “Concentra-te Chloe, agora é hora de te preocupares contigo”, exigi-me.

Depois de descer o segundo lanço de escadas puxei o puxador de outra porta de metal e abri-a. A vista a partir daí era completamente diferente do resto da casa ou sequer da passagem pelas escadas.

As paredes estavam num tom de prata, numa sala completamente ampla e haviam duas outras portas. Haviam dois sofás, uns quantos cadeirões e uma mesa castanha, enorme. Fez-me lembrar uma sala de espera de um escritório chique. Estava diferente de quando eu tinha sonhado com ela.

Vi Derek sentado num cadeirão vermelho, amarrado e sem se mexer muito, como se estivesse drogado. Vi também Josh e Kevin, juntos do seu refém. Além deles ainda havia mais um rapaz, com uma crista escura, mas não faço ideia se é vampiro ou humano.

Pus-me ao lado da porta e fiz um barulho. Ouvi passos a aproximarem-se e assim que vi um pedaço de roupa, espetei a seringa na barriga do rapaz. Era o rapaz da crista. Ele ficou a olhar para mim, desorientado e confuso.

- Tu não és vampiro, pois não? – Perguntei, já a desconfiar da resposta.

- Ainda não – respondeu ele.

- Pois, desculpa – vi uma pequena estatueta encostada à parede, atrás de mim, agarrei-a e dei-lhe com ela.

Ele ia a cair mas eu agarrei-o e puxei-o até às escadas, onde o sentei.

Quando voltei a espreitar, Kevin já lá não estava. Virei-me para trás e lá estava ele. Agarrou em mim e mandou-me para a enorme sala. Caí de costas, estatelada no chão.

Quando voltei a olhar para ele, ele já estava à minha frente. Levantei-me e levei a mão ao bolso para agarrar noutra seringa. Raios, estão partidas!

Olhei para ele e para Josh, que agora também se encontrava à minha frente.

- Eu não gosto mesmo nada das minhas chances – murmurei.

- Pois, se eu fosse a ti, também não gostava – gozou Kevin.

- É compreensível – respondi.

Despi o casaco e deixei-o cair para o chão, afinal, já estava cheia de calor e só o tinha vestido por causa das seringas, que agora não serviam de nada.

- Algum último pedido? – Perguntou Josh.

- Na verdade sim, gostava que me respondesses a uma pergunta. O que raios é que fizeste para eu ficar presa a ti durante aqueles meses?

- O que é que posso dizer? Eu tenho um charme natural – gozou – É pena, sabes. Nós podíamos ter sido felizes.

- Chloe… - a voz de Derek era fraca, e deu-me um aperto no coração ao ouvi-lo a esforçar-se – foge.

Fugir? Sim, pois, como se mesmo que quisesse, conseguisse.

- Sabes Josh, eu não acho. Demorou, mas finalmente percebi que tu não prestas – ok, empatar é um bom plano, empatar resulta. Na verdade o plano que tínhamos acabou no momento em que entrei para a casa. O plano era para entrar na casa, agora que cá estou tenho que avançar às cegas até que Verónica e Gary cheguem, se conseguirem chegar.

- Força Kevin – disse Josh, sorrindo.

Eu não acredito que namorei mesmo com este tipo!

Kevin aproximou-se de mim e levantou-me pelo pescoço.

- Pára – ouvi.

Kevin largou-me, deixando-me cair no chão e levantei-me. Queria voltar-me. Queria finalmente observar aquela cara, poder finalmente vê-lo para confirmar tudo o que já sei. Mas ao ouvir aquela voz ríspida e grave, todos os músculos do meu corpo me diziam para não o fazer.

Virei-me lentamente e olhei de frente para ele. Exactamente como eu me lembrava. Magrinho, com o cabelo até aos ombros, escuro e liso, e o cavanhaque tão escuro como o cabelo. Agora não se parecia com um vampiro, estava normal, com os olhos castanhos-claros.

- Chloe, que prazer ver-te aqui – disse, num tom ainda mais áspero.

- Aisaec – murmurei.

Ao longo dos anos pensei várias vezes como seria a minha reacção ao ficar frente a frente com o assassino do meu pai, só nunca pensei que iria paralisar desta maneira. Aliás, acho que nunca acreditei que o iria mesmo encontrar.

- Tu lembras-te de mim. Que bonito – continuou. Eu não tinha reacção nenhuma – Sem ressentimentos, espero.

- Seu filho da mãe – murmurei –, tu mataste o meu pai!

- Bem, sim, mas tecnicamente ele queria morrer.

- O quê? – Não é que não me tivesse passado pela cabeça mas… não pode ser, pode?

- Eu vou contar-te um segredo – e começou a aproximar-se de mim –, ele queria que eu o transformasse.

- O quê? Não! Estás a mentir! – Ele está a mentir, só pode estar. O meu pai nunca quereria ser um vampiro. Nunca!

- Não, não estou.

- Mas em vez de o transformares mataste-o. Porquê?

- Porquê? Pela razão por que tudo acontece sempre. Uma rapariga. Kevin, Josh, saiam.

- Mas… - ripostou Josh.

- Agora! – Assim que Aisaec usou o seu tom autoritário, eles saíram os dois.

- Uma rapariga… que rapariga? – Não sei se quero ouvir isto, não sei se quero chorar ou gritar, mas sei que se quero sobreviver e salvar Derek, tenho que aguentar e empatar, sobretudo empatar.

- Eu conheci-a quando ela tinha a tua idade. Ela era uma rapariga linda. Apaixonei-me, disse-lhe o que era, e ela insultou-me e afastou-se de mim. Eu jurei vingança. Um dia, ela iria arrepender-se. Anos depois, o teu pai veio ter comigo, sabia o que eu era, e pediu-me. Eu cheirei-a nele. Nesse dia segui-o e vi-a. Casada, três filhos. O dia tinha chegado.

- Não… não acredito em ti.

- Eu esperei, e esperei, e notei que ela nunca me tinha esquecido.

- Isso não é verdade.

- Por isso dei-lhe o que ela queria. Liberdade. O plano era ela ficar livre de todos, mas infelizmente o teu amiguinho meteu-se no caminho.

- Derek…

Aisaec começou a abancar a cabeça e aproximou-se de Derek.

- Ele teve que estragar tudo. A tua mãe queria deixar o teu irmãozinho em casa também, mas não teve escolha, visto que era o aniversário do pequeno.

- Não. A minha mãe é muitas coisas, mas não é uma assassina!

- Claro que não! Quem devia matar era eu. Nós combinámos tudo.

- Eu não acredito.

- Ela tem estado comigo, todos os anos que não esteve contigo.

Agora começou de novo a aproximar-se de mim.

- Apaixonar-se por um vampiro é uma maldição verdadeira. Mas nós conseguimos resolver o problema. A tua família sempre gostou muito deste tema, não sei porque é que tu não te sentes à vontade.

- Cala-te!

- O quê? Ainda estamos só a chegar à parte boa. Eu vou transformá-la. Quando sair daqui, vou fazê-lo.

Acho que não consigo ouvir mais nada. A minha mãe sabia que o meu pai ia morrer? E deixou na mesma? Não. Ele está a mentir. Tem que estar. Ela não ia fazer isso.

- Acho… eu tinha razão. Vampiros não prestam mesmo – disse-lhe.

- É por isso que estás apaixonada por um? – Ok, depois de me mandar isto tudo para cima, como é que ainda tem a coragem de me mandar isto à cara?!

Não sei se foi a fúria acumulada, mas num momento sem pensar puxei a mão atrás e impulsionei-a para a frente com toda a força, para lhe dar um estalo na cara. Ele agarrou no meu pulso antes que eu o conseguisse fazer, e pela sua força pensei no quanto me iria doer a mão se lhe tivesse realmente dado a chapada.

- Eu provavelmente merecia essa – gozou –, mas agora estou chateado.

Levantou-me e mandou-me para a frente, fazendo-me cair mesmo ao lado de Derek. Ele ainda parecia anestesiado, mas não tanto quanto estava ao princípio. Agora já se mexia, e consegui-a senti-lo a olhar para mim. Virei-me de barriga para cima, porque tinha caído de frente, e olhei para ele. Ele parecia estar sob qualquer tipo de tortura, como se lhe estivessem a fazer o pior que podiam.

Olhei para Aisaec, que me observava, já com os olhos cinzentos e os vasos sanguíneos da cor do sangue. Os dentes dele já estavam um pouco mais descidos e branquíssimos. Passou-me pela cabeça a pior ideia que podia ter passado neste momento: se sobrevivesse podia inventar um reclame de pastas de dentes com vampiros. Abanei a cabeça para evitar estes pensamentos inoportunos.

Levantei-me e senti que me doía o pulso esquerdo, de ter tentado amolecer a queda.

- Oh! – Exclamou Aisaec, do nada – Temos visitas.

Nesse momento Verónica e Gary entraram nesta enorme sala. Acho que se não estivesse frente a frente com a morte, chorava de felicidade. Saber que eles sobreviveram e entraram é um alívio, pelo menos posso parar de fingir que quero ouvir Aisaec a falar e há uma pequena esperançazinha de que Derek saia daqui livre. Verónica e Gary têm uma boa probabilidade de saírem daqui a andar, ajudando Derek a sair também. Neste momento apercebi-me que as minhas probabilidades eram remotas. Mesmo que nenhum vampiro me mate, posso ser feita refém quando pensarmos que tudo acabou. Mesmo que tudo pareça estar a correr bem, pode mudar por minha causa. Eu sou o elo mais fraco da equipa. Claro que fui eu que entrei primeiro e que constatei que Derek ainda estava vivo, ou morto-vivo, mas mesmo assim duvido que Gary e Verónica escolham salvar-me entre poderem salvar o próprio irmão. Ao olhar para eles percebi que já não detestava vampiros. Eles eram a minha equipa, meus amigos. Diz-se por aí que quando se está para morrer todos os pensamentos importantes nos vêm à cabeça. É verdade? Não sei, vou ter que esperar até meio segundo antes da minha morte.

- Tu deves ser o Aisaec – disse Verónica, com crueldade na voz. Arrepiei-me ao ouvi-la falar assim.

- Em carne e osso – respondeu o vampiro assassino, com uma voz orgulhosa – Por essa voz suponho que já tenham ouvido falar de mim…

- Nós queremos o nosso irmão – disse Gary, sem uma cara disposta a negociações.

- Também eu – pronunciou Aisaec, como se tivéssemos um grande problema em mãos –, ele sabe de umas coisas que ninguém precisa de saber, logo vocês percebem o porquê de eu não o poder deixar ir.

Levantei-me muito lentamente enquanto Aisaec estava de costas, e dei os dois passos mais lentos da minha vida até chegar a Derek. Ele já estava bem acordado, mas não sei porquê, não se mexia. Estas cordas não parecem o suficiente para prender um vampiro.

Estava agora em pé, atrás do cadeirão onde ele estava sentado, e comecei a tentar desapertar as cordas.

- Eu não fazia isso se fosse a ti – disse Aisaec, parando o diálogo com Verónica e Gary, para mim.

- Pois… - murmurei.

- Está na hora de acabar com isto – disse ele, com um tom implacável. Ao estalar os dedos, Josh, Kevin e outro vampiro apareceram. Como é que sei que é um vampiro? Simples, eu já o conheço. Lembro-me daqueles caracóis castanhos-claros como se fosse ontem e não há poucos meses. Eu “conheci” este vampiro quando os Thompson me usaram como isca para apanhar o vampiro que andava a matar pessoas aqui, aquele que as vítimas até apareceram no jornal.

- Vamos a isso – desafiou Verónica. Sem ofensa, mas ela parece mais uma modelo que uma lutadora profissional. É completamente impossível imaginar Verónica a lutar.

- A rapariga é para mim, vocês podem ficar com os outros. Matem-nos a todos – ordenou Aisaec, olhando em seguida para mim – Vou contar até quinze, depois vou atrás de ti. Um, dois…

Passei ao lado dele e comecei a subir as escadas que davam à casa propriamente dita. Fechei a última porta, e a da cave também, tirei uma faca da bancada da cozinha e dirigi-me ao hall/sala e comecei a digitar o número de Dylan no telefone que estava na parede. Ouvi passos a aproximarem-se e tive que deixar o telefone pendurado. Sair da casa estava fora de questão. Os três rapazes que me tinham recebido estavam no chão, mas não pareciam mortos, apenas desmaiados. Fui até ao sofá e comecei a remexer nas almofadas até encontrar a minha última seringa. Eu já sabia que a algum ponto as seringas se iam partir todas, por isso decidi prevenir-me.

Agarrei na seringa e passei para a sala de jantar, por um arco de madeira. O chão rangia bastante cada vez que o pisava, por isso acho que nem era preciso usar os “poderes” de vampiro para me encontrar.

- Eu estou perto – dizia ele, enquanto ouvia os seus passos dirigirem-se à sala de jantar.

Encostei-me à parede com as mãos atrás das costas e esperei com o coração aos pulos.

Ele apareceu e começou a aproximar-se de mim com um ar maquiavélico.

- Encontrei-te – disse-me, com uma certa piada na voz.

Eu fiquei quieta e imóvel enquanto ele se aproximava. Ele parou a poucos centímetros de mim e observou-me a cara.

- Algum último desejo? – Qual é a probabilidade de me perguntarem isto duas vezes no mesmo dia?

- Um – respondi. Não tinha que me esforçar minimamente para fazer a voz tremer ou para parecer assustada. Eu estava assustada –, mas não o posso dizer assim.

- Como?

- Alto. Eles podem ouvir e não quero isso.

- Entendo…

Aproximou-se mais e encostou-se a mim como se me abraçasse embora não tivesse as mãos à minha volta, com o seu ouvido perto da minha boca e os seus dentes perto demais do meu pescoço. Um movimento em falso e eu já era.

- Eu gostava… - preparei a agulha e direccionei-a – eu gostava de poder dizer que… - e num movimento rápido espetei-lha na barriga, metendo a água benta para dentro dele.

Logo a seguir ele começou a fazer um peso enorme em cima de mim e fui obrigada a deixá-lo cair.

- Tu… - a voz dele já não era mais que um sussurro, devido à falta de forças.

- Eu gostava de dizer que quem vai à guerra dá e leva – disse-lhe.

Deixei-o no chão, rijo como uma tábua, e corri para a sala debaixo da cave. O nosso tempo agora era limitado, muito limitado, talvez meia hora, quarenta minutos.

Ao descer as escadas agarrei no telemóvel, porque o tinha deixado lá para não se partir, e vi que Dylan já me tinha telefonado. Perfeito.

Entrei para a sala e vi Verónica a lutar com Kevin, e Gary com o homem do beco. Derek continuava no mesmo sítio, ia correr até ele quando vi Josh com um machado com o punho prateado a pôr-se à sua frente. Ele ia matá-lo.

- Não – murmurei. Comecei a correr a toda a velocidade que consegui, tinha que impedir Josh, tinha que salvar Derek – Não! – Gritei, antes de me mandar contra Josh e nos atirar a ambos para o chão.

Agarrei no machado e dei um corte nas cordas de Derek, mas não as consegui cortar todas pois Josh meteu-se em cima de mim e tirou-me o machado das mãos.

- Sua estúpida! – Gritou, levantando-me à bruta em seguida – Tu devias ter ficado quieta, não devias ter brincado com coisas sobre as quais não sabes nada.

Empurrou-me com uma força extrema, possivelmente por causa do sangue de vampiro que bebia, e eu voltei a cair no chão, aleijando-me ainda mais no pulso. Gemi um bocado, mas baixinho.

- Oh desculpa – disse ele, com um tom de gozo –, magoei-te?

Pegou no machado e estava prestes a deixá-lo cair em cima de mim quando foi empurrado contra a parede. Derek estava agora ao pé dele, com o machado na mão. Derek estava completamente fora de si, não que o culpe. Ele estava prestes a afundar o machado no peito de Josh, estava prestes a matar alguém. Ao levantar-me e ao observá-los aos dois, lembrei-me de uma conversa que tive com Derek há alguns meses, no mesmo dia em que lhe contei sobre o assassinato do meu pai. Derek disse-me que apenas duas coisas o fariam matar alguém: proteger ou vingar alguém que amasse. Ele estava prestes a matar Josh. Estava prestes a acabar com a vida de Josh porque este me magoou, porque este quase acabou com a minha. O Derek ama-me mesmo.

Corri até eles, não o podia deixar fazer isto, não o podia deixar matar alguém por minha causa. Pelo que conheço de Derek, apesar de acreditar que o que fez foi pelo bem, ficaria cheio de remorsos por toda a eternidade.

- Derek não! – Gritei, quando estava quase a chegar lá. Ele desviou os olhos de Josh e olhou para mim, ainda a agarrá-lo pelo pescoço com uma mão e o machado com a outra. Finalmente cheguei ao pé deles – Não faças isto, não sejas como eles.

- Mas… - até na voz dele se conseguia notar que estava transtornado.

- Não há “mas”. Não te tornes num assassino. Por favor.

Não sei se foi o meu apelo implorado ou a sua consciência, mas Derek deixou o machado cair e deu com a cabeça de Josh na parede com força suficiente para o desmaiar, mas não matar. Depois deixou-o cair no chão.

- O que é que aconteceu com o Aisaec? – Perguntou.

- Ele está na sala de jantar, com água benta a correr-lhe pelas veias.

Verónica e Gary juntaram-se a nós e vi dois pequenos montinhos de areia escura muito fininha no chão. Não vi nada afiado ao pé de nós, por isso só pude concluir que eles tinham tirado as cabeças aos maus com as próprias mãos.

- Vocês têm que ir. Têm que matar o Aisaec e esconder tudo o que pode apontar para vampiros – disse-lhes – Assim que a polícia chegar, sigam a minha ideia, ok?

- Polícia? – Perguntaram, os três ao mesmo tempo.

- Sim, vão, eu explico depois.

Eles fizeram isso e quando a polícia chegou inventei que tinha sido raptada por todos os que estavam na casa menos os Thompson, que me tinham salvado. Como os meus “raptores” estavam todos no chão, inventei que os Thompson sabiam karaté e outras lutas do género, e a polícia acreditou em tudo, especialmente porque metade deles já tinha registo criminal.

A polícia tinha-nos encontrado através do GPS do meu telemóvel, que como esteve ligado o tempo todo deu-lhes as nossas coordenadas. Assim que Josh e os outros acordaram, não se atreveram a mexer na minha história, porque sabiam perfeitamente que dizerem que pertenciam a um clã de futuros vampiros liderado por um vampiro real não lhes ia melhorar a situação. Josh lançou-me um daqueles olhares malvados, mas tenho a certeza que sem os amiguinhos vampiros ao pé, não faz nada. Depois de umas perguntas a mim e aos Thompson, deixaram-nos ir. Quando saímos da casa havia uma iluminaçãozinha por trás do manto de nuvens. O sol já estava a nascer, ainda bem que é sábado. Nós fomos a pé até ao fim do bosque e depois fomos no carro de Verónica para casa dos Thompson, enquanto os maus da fita foram nos carros da polícia para o posto. Não sei se vão mesmo ficar presos, mas se não ficarem, pelo menos apanham um susto do pior e não se metem numa destas tão cedo, se forem espertos.

Quando chegámos à casa dos Thompson a primeira coisa que fiz foi abraçar Abby e Dylan, que se agarraram logo a mim.

- Estás bem! – Constatou Abby, com uma felicidade constante na voz.

Gwen e Dylan também ficaram felizes e um a um disseram-me coisas como “ainda bem que estás bem” e “fico feliz por te ver outra vez”. Eu disse a Dylan que estava orgulhosa dele, afinal, fez o seu trabalho na perfeição. Assim que o seu telemóvel tocou, com o número desconhecido, ele chamou a polícia e disse tudo sobre o suposto rapto. Assim que a polícia arrancou, ele mandou-me um toque a avisar. Claro que o meu plano era telefonar-lhe do meu próprio telemóvel, mas tive que usar os recursos que tinha na altura.

No meio dos festejos, vi Derek desaparecer pelas escadas acima. Ele estava muito calado desde que o salvámos. Ainda não tinha dito praticamente nada, e sorrido muito menos. Não parecia nada feliz ou aliviado.

Desviei-me da celebração e comecei a subir as escadas. É agora, vou-lhe dizer tudo o que sinto, tudo o que lhe quero dizer. É agora.

Ao chegar à porta do quarto dele, bati e depois abri-a. Ele estava sentado na cama.

- Estás bem? – Perguntei.

- Sim – disse-me, sem muita convicção.

- Podemos falar?

- Ele mentiu. A tua mãe não sabia.

- O quê? Eu não…

- Eu já vivi o suficiente para saber quando alguém finge lágrimas ou sentimentos. A tua mãe não sabia que o teu pai ia ser morto.

- Bem, isso é um alívio, mas não é sobre isso que quero falar. Derek, eu quero falar de nós…

Senti as bochechas a ferver e o meu coração desatou a palpitar assim que pronunciei a palavra “nós”.

- Estou cansado. Posso ficar sozinho? – Ok, não era exactamente a resposta que estava à espera de ouvir…

- Claro – mas para quê discutir? Ainda temos muitos dias à nossa frente.

É oficial, a minha primeira tentativa de lhe dizer o que sinto foi escusada, uma batalha perdida.

 

Não tive muito tempo por isso peço desculpa pelos erros que possam ter encontrado...

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