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Destino Amaldiçoado

por Andrusca ღ, em 10.03.11

Capítulo 35

Destino

 

Há uma semana que não dormia praticamente nada. Tinha medo de me deixar de dormir e de que eles fizessem mal a alguém. Esta última semana tinha sido simplesmente uma amostra de Inferno.

Já estava a ficar farta de estar deitada sem conseguir dormir por isso levantei-me a meio da noite e fui para o sofá. Liguei a televisão e pus o som baixinho para não acordar ninguém. O telefone tocou e apressei-me a atender para que ninguém acordasse.

- Estou? – Sussurrei.

- Jô? – Perguntou a voz do outro lado. – Sou eu, a Sue.

- Sue, está tudo bem? O que é que se passou? Eles magoaram-te? – Perguntei quase em pânico.

- Hahaha tu és tão patética quando te preocupas com os outros. – Disse a voz de Jared.

- Podes descansar, nós dissemos que não íamos magoar ninguém se mantivesses o nosso pequeno segredo. – Disse Paul. – E eu espero mesmo que cumpras com a tua palavra.

- Que eu saiba os demónios são vocês, é em vocês que não se pode confiar. – Respondi.

- Só estamos a dizer para não te armares em espertinha. – Continuou Paul.

- Não se preocupem, eu não escolho batalhas que sei que não posso ganhar. – Disse, desligando o telefone em seguida.

Subi para o quarto e ao vestir-me, sem querer, acordei Luc.

- Passa-se alguma coisa? – Perguntou ele, ensonado.

- Não, nada de especial, volta a dormir. – Disse eu, dando-lhe um beijo na bochecha e saindo do quarto.

Fui até à biblioteca e como ainda era de madrugada era óbvio que ainda não estava aberta. Fiquei lá nos arredores até abrir e quando abriu entrei logo e dirigi-me à bibliotecária.

- Desculpe, pode-me dizer onde estão os livros de sobrenatural? – Perguntei.

- Claro, estão naquele corredor. – Respondeu ela.

Fui para o corredor que ela apontou e vi montes de livros, agarrei nuns quantos ao calhas e levei-os para uma mesa. A maioria não tinha nada de especial, era tudo suposições e piadas, os outros diziam o que eu já sabia. Acreditasse ou não, o melhor livro neste assunto era o meu, e não tinha nenhuma da informação de que precisava. Olhei em mais livros mas nada me dava alguma pista de como os vencer, ou se era possível serem vencidos. A verdade era que tinha que ter o dobro do cuidado, se sequer suspeitassem que eu estava a investigar deitava tudo a perder.

Levantei-me e quando me vinha embora ouvi um sussurro.

- Joanna. – Dizia.

Voltei atrás e voltei a olhar para as prateleiras dos livros, nada me saltava à vista e quando me vinha embora de novo, a voz voltou a soar. Olhei para trás e vi um livro dourado.

- Estranho, tu não estavas aí há bocado. – Disse para o livro.

Fui até à prateleira e agarrei-o. Era dourado, mas parecia estar trancado e tinha umas inscrições a prateado, em latim.

- «Ubi major est, minor cedat». – Li eu. – Onde está a força maior… cessa a menor. O que é que isto quer dizer?  

- Joanna. – Disse o sussurro novamente.

Senti um calafrio e o livro abriu-se, sozinho. Comecei a lê-lo.

 

«Onde está a força maior cessa a menor…

…A Bruxa mais poderosa do mundo este livro deve encontrar, porque nele se encontra a salvação e o que é preciso para a ajudar, mas depois de o seu trabalho estar completo, nunca mais o irão achar.»

 

- Que raios? – Perguntei para o ar.

Continuei a desfolhar o livro, tinha várias profecias, muitos feitiços e poções. Tinha imagens de mulheres em caldeirões das versões populares das bruxas, as velhinhas com uma verruga e o chapéu bicudo. Mas numa das páginas estava uma mulher que se parecia exactamente como… eu. Estava lá escrito que era a Escolhida, a rapariga que deveria salvar o mundo do mal, vezes sem conta, tudo aquilo que já me disseram. Avancei mais umas páginas e vi Jared e Paul. Tinha poucas informações sobre eles, limitava-se a dizer que eram demónios muito antigos, muito poderosos e muito temidos, dizia também que o próprio Mestre os temia e que eles iriam trazer desgraça para todos os lados para que fossem. «Exactamente o que eu precisava.» pensei. Agarrei no livro e levei-o à bibliotecária.

- Quero comprar este livro. – Disse-lhe.

- Peço imensa desculpa mas os livros aqui não se vendem. – Respondeu ela.

Tirei a carteira e lá de dentro um monte de notas.

- Tem a certeza? – Perguntei, abanando-lhe as notas à frente da cara.

- Acho que podíamos abrir uma excepção.

Saí da biblioteca e dirigi-me a casa, entrei muito sorrateiramente e subi para o meu quarto. Escondi o livro dentro do roupeiro e desci as escadas. Estavam todos a tomar o pequeno-almoço, juntei-me a eles.

- Estavas lá em cima? Estranho, não te ouvi chegar. – Disse Luc, dando-me um beijo de bons dias.

- Estava. – Respondi.

- O que é que se passou hoje? Levantaste-te ainda não havia sol…

- Tive um pesadelo.

- Com o que é que sonhaste?

- Nada de especial. Estupidezes. Esquece.

Chad estava a abrir um pacote de leite em cima da bancada e Paul estava ao seu lado a cortar pão, com um facalhão enorme. Levantou o facalhão e apontou-o para a cabeça de Chad, sem que ninguém, além de mim, reparasse e preparou-se para começar a cortá-la.

- Não! – Gritei. Olharam todos para mim. – … Bebas esse leite. – Disse, tentado disfarçar. – Acho que já passou de validade.

- Não, já mandámos esses fora, estes são novos. – Disse Chad.

- Relaxa Joanna, pareces muito tensa. – Disse Jared, sentado na mesa ao lado de Sheilla.

- Pois, acho que estou um bocado stressada. – Disse-lhe.

- Passa-se alguma coisa amor? – Perguntou Luc.

- Não, nada de especial. Eu vou sair. – Respondi.

- Mas ainda agora chegaste. – Disse Sheilla.

- E estou de saída outra vez. – Disse, dirigindo-me às escadas.

- Vais subir as escadas? Não disseste que ias sair? – Perguntou Paul.

- E vou, vou só buscar um casaco. – Respondi, subindo as escadas.

Enquanto estava no quarto a pôr o livro dentro de uma mala para levar Sue apareceu. Num impulso abracei-a.

- Está tudo bem? – Perguntou, desconfiada.

- Não, nem de perto nem de longe. – Disse-lhe.

- O que é que se passa querida?

- Não posso dizer, mas confia em mim, estou perto de resolver. – Disse, saindo do quarto e descendo as escadas a correr.

 Corri até ao parque, à cascata e tirei o livro da mala. Sentei-me numa rocha e comecei a lê-lo melhor. Não havia uma única pista para como os derrotar, havia apenas uma poção muito forte, das mais fortes e por isso ninguém sabia a maneira de conjugar todos os ingredientes, mas naquele livro explicava tudo. Havia também algo que eu sempre considerara um mito, projecção astral, mas não da maneira habitual, de quando a pessoa morre se encontrar a flutuar sobre o seu corpo. De uma maneira menos conhecida, sair do corpo… porém continuar com a forma normal, como se estivesse no corpo de um irmão gémeo. Nunca acreditara em projecção astral porque já tentara umas quantas vezes, porém, se me desse algum avanço ou ajuda para proteger os Connor, tentaria mais uma vez e outra a seguir se fosse preciso.

- Estás aqui. – Disse Luc, aproximando-se.

- Estou. – Respondi, escondendo o livro debaixo da mala.

- Podemos conversar? – Perguntou ele, encostando-se à rocha em que eu estava sentada.

- Claro, passa-se alguma coisa? – Perguntei, já a desconfiar de Paul e Jared.

- Não, está tudo bem…

- Oh ainda bem. – Interrompi, num tom de alívio.

- Jô, o que é que se passa? Andas sempre sobressaltada, na semana passada tiveste aquele ataque de choro e desde então andas sempre desconfiada de tudo e de todos. Fala comigo, sabes que podes confiar em mim e se estás com algum problema… e não me venhas dizer que não se passa nada porque eu já te conheço e sei que se passa alguma coisa. Eu estou aqui para ti.

- Eu… eu estou a passar por uma coisa, que não posso dizer o que é. – Respondi, com a voz a começar a falhar.

- Sabes que podes confiar em mim Jô…

- Eu sei, o problema não és tu, a sério, não és. Não te preocupes, isto resolve-se, a sério. – Assegurei, olhando-o nos olhos. – Vai ficar tudo bem, assim que eu descobrir qualquer coisa vai tudo ficar bem.

Ele foi-se embora e eu continuei de volta do livro por mais um bocado, depois fui para casa, deixei a mala em cima do sofá e fui ajudar Sheilla com o jantar.

- Então mãezinha, o que é que é o jantar? – Perguntou Paul, ao entrar na cozinha.

- Sabes que já tenho dois filhos? Já não preciso de mais nenhum. – Respondeu Sheilla.

- E graças a Deus que ainda tens esses dois. Certo Joanna? – Perguntou, lançando-me um olhar ameaçador.

- Certo. – Respondi, quando tive a certeza que a voz não me ia falhar. – Vamos garantir que continue assim.

- No que depender de mim continua. – Disse ele, ainda com o mesmo olhar.

- Boa. – Disse eu, saindo da cozinha.

- Do que é que estão a falar? – Perguntou Sheilla, a olhar para nós confusa.

- Nada. Uma brincadeira, só isso. – Respondeu ele.

Dirigi-me à sala para ir buscar a minha mala mas quando cheguei ao pé do sofá… não estava lá. «Bolas!» pensei, procurando no chão e à volta do sofá.

- Procuras isto? – Perguntou Jared, com a minha mala numa mão e o livro noutra. – Sabes Joanna, cá para mim andas com umas leituras muito pesadas, nem sei como é que consegues dormir à noite.

- Não consigo, mas não é por culpa das leituras acredita! Devolve-me as minhas coisas!

- Agora vou ter que fazer uma coisa que não queria porque tu quebraste a nossa promessa.

- Eu não disse nada a ninguém.

- Verdade mas, sendo sincero, o que é raro num demónio, eu nunca liguei muito ao nosso acordo, era uma maneira de brincar contigo, só estava à espera que pusesses um pé em falso para ter um pretexto para os matar. Agora já tenho, graças a ti e ao teu livrinho dourado. – Disse ele, com um ar malicioso.

- Qual foi o pretexto para matares os meus pais? – Perguntei, com tanta raiva quanto me era possível expressar.

- Isso foi simplesmente… divinal. Mas agora… como é que vou matar os teus amigos? Alguma preferência?

- Estou a avisar-te, tu não te vais querer meter com eles! – Disse eu, furiosa.

- Estás a avisar-me? Vamos ver como é que ficamos no fim. Podes ficar com o teu livrinho, não é como se dissesse alguma coisa de jeito sobre mim de qualquer maneira.

- O jantar está pronto! Venham para a mesa! – Chamou Sheilla da cozinha.

Fomos para a cozinha e sentámo-nos. Eu não comi uma única garfada, estava sempre a observar os movimentos de Paul e Jared. Eles faziam gestos que pareciam que iam magoar um dos Connor, mas era apenas para me picarem.

Depois do jantar Chad e Luc quiseram ir ao High Spot e como não os queria deixar a sós com Paul e Jared fui-me vestir para ir com eles. Vesti umas leggins pretas e uma túnica azul-turquesa, com um grande decote. Calcei umas sandálias e pus espuma no cabelo para fazer caracóis, quando ia a sair do quarto senti um grande cansaço, perdi as forças e desmaiei para o chão. Quando acordei estava muito zonza e com uma grande dor de cabeça, como se estivesse de ressaca.

Levantei-me lentamente e desci as escadas ainda com a cabeça a andar à roda… e vi a sala completamente destruída. Os móveis pareciam ter sido mandados para o ar e havia marcas de bolas de fogo em todos os lados para onde olhasse. O candeeiro ainda estava a abanar e cheirava a fumo. Estava um pedaço de papel em cima de um dos móveis.

 

«Nós dissemos para não te armares em espertinha. Como é o sentimento de saberes que tudo o que gostas te é tirado por nós?»  

 

Não estava assinado mas não era preciso ser-se um génio para se perceber quem o tinha escrito. «Não, não, não, não» uma grande sensação de desespero chegou até mim. Estava completamente perdida, não sabia o que fazer, como os ajudar. Se fosse até eles desprevenida, eles matavam-me e depois não podia ajudar ninguém, mas se não fosse matavam as pessoas de quem gosto e com quem me importo. Apesar de todas as sensações que me atingiram naquele momento, houve uma que não me atingiu: medo. Depois de tudo isto, não tinha medo que eles me magoassem, apenas que magoassem as pessoas com quem me importo.

Fui buscar o livro dourado e vi os ingredientes para a poção super poderosa, fui até ao armário onde guardávamos os ingredientes para as poções e por sorte tínhamos todos. Preparei a poção e fiz um feitiço para me levar até eles.

Após dizer o feitiço encontrava-me numa gruta muito fria. Ouvi vozes e aproximei-me com cuidado para não fazer barulho com os saltos altos. Espreitei por trás de uma rocha e vi Luc, Chad, Sheilla, Louis, Claire, Sue, Rick, Josh e os pequenos, todos dentro de uma roda feita com os cristais, provavelmente roubados lá de casa.

Sentei-me atrás da rocha e respirei fundo, tentei concentrar-me e abstrair-me várias vezes, porém não estava a dar em nada porque cada vez que fechava os olhos vinha-me à cabeça imagens de Paul e Jared a magoarem os Connor, as mesmas imagens que não me deixavam dormir. Estava prestes a desistir quando dei por mim em frente ao meu corpo. Estava a olhar para mim, o meu verdadeiro corpo sentado no chão. Tinha conseguido, tinha-me projectado astralmente. Como era uma bruxa podia tocar em coisas e ser tocada, era um corpo como qualquer outro, só não era… verdadeiro. Tirei o frasquinho da poção do chão e pus na minha verdadeira mão, peguei num cheio de água, levantei-me e caminhei até eles.

- Bom sítio. – Disse-lhes.

- Estava a ver que nunca mais chegavas. – Disse Paul.

- Deixa-me adivinhar, já tinhas saudades, certo? – Perguntei, aproximando-me mais deles.

- Então vieste mesmo desafiar-nos, mesmo sabendo que não nos podes matar, vieste. Tenho que admitir, és mais corajosa que aparentas. – Disse Jared.

- Obrigado e eu tenho que admitir que vocês são bem mais cobardes do que pensava. – Disse-lhes.

Paul sobressaltou-se e preparou-se para me atacar mas Jared pôs a mão no seu ombro, parando-o e acalmando-o.

- Tem calma, estás a fazer exactamente o que ela quer. – Disse ele.

- Jô eles são demónios! Sai daqui, foge! – Gritou Luc.

- Não te preocupes, eu sei o que faço. – Garanti-lhe, virando-me de novo para Jared e Paul. – Então vamos brincar.

- Alguém está muito confiante. – Disse Jared, avançando para mim.

- Tu sabes, eu disse que não escolhia batalhas que soubesse que não podia ganhar. Se estou cá, é porque sei que lá no fundo, vocês vão abaixo. – Disse, tirando o frasco com a água de trás das costas.

- Uma poção, achas mesmo que isso nos vai sequer arranhar? – Perguntou Paul, dando-me um murro.

Caí no chão e o frasco deslizou para longe. Levantei-me.

- Bolas, apanharam-me mesmo. – Disse eu, sarcasticamente.

- Jô, o que é que estás a fazer?! Eles matam-te! – Gritava Luc.

- Confia em mim. – Sussurrei.

Jared agarrou numa espada que estava encostada a outra rocha e empunhou-a.

- Já te divertiste. Chega de brincadeiras. – Disse, correndo para mim com a espada, super afiada, apontada na minha direcção.

Lutámos um bocado, mas como eu suspeitei, nunca os iria vencer indo desprevenida. Ele fincou a espada em mim, fazendo-me perder as forças e cair para trás.

Num piscar de olhos, acordara, sentada atrás da pedra. Apertei a poção que se encontrava na minha mão e levantei-me. Como durante a luta os tinha feito ficar de costas para a rocha onde me encontrava, mandei-lhes a poção. Fez uma grande explosão e Paul ficou transformado em pedra, que depois explodi com os meus poderes. Jared ficou pasmado a ver, caído no chão, com uns poucos arranhões. Desviei um dos cristais, fazendo com que os Connor pudessem sair de dentro do círculo.

Olhei para Jared, nos olhos dele via-se raiva, nua e crua.

- Acabaste de escolher o teu destino bruxa! – Disse, num tom ameaçador, já levantado.

- Não. – Respondi eu, abanando a cabeça. – Tu é que o escolheste, no dia em que mataste os meus pais e no dia em que pensaste sequer em fazer mal aos meus amigos. Eu só continuei a jogar o jogo. – Disse-lhe eu, impávida.

- Vais-te arrepender disto! – Ameaçou ele, desaparecendo.

- Então não vou ser a única. – Sussurrei.

 

Vocês já sabem... os 13 ^^

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