Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

SOS Nashville

por Andrusca ღ, em 13.03.11

 

Parte 2

 

O agente deixou-me com aqueles dois completos estranhos, que me levaram para uma quinta numa carrinha vermelha de caixa aberta, completamente a cair de podre.

Não me podiam ter arranjado um abrigo num hotel ou assim?

Abri a porta da carrinha, que rangeu demasiado, e assim que pousei o pé no chão, vi a minha linda e super cara bota afundar numa poça de lama. “Perfeito!”, pensei, furiosa.

- Oh querida, deixa lá, isso limpa-se – disse a mulher, que agora já sabia que se chamava Ellen, quando reparou na minha cara.

“Pois sim, isto vai deixar mancha tipo… para sempre!”, reclamei, interiormente.

- Anda, vem conhecer a casa – disse Joseph, o homem.

- Mal posso esperar – murmurei, para mim, com o sarcasmo no auge.

Caminhámos até uma casa térrea em tons de tijolo, mas comprida e larga. Até não era feia… era pena eram as vacas e os cavalos no quintal.

Joseph abriu a porta e Ellen deu-me a passagem primeiro. Assim que entrei deparei-me com uma sala não muito grande, com um sofá em frente a uma lareira e uma televisão um pouco ao lado da mesma; tinha uma mesa redonda do lado esquerdo do sofá, e um tapete em frente. Tinha um ar… acolhedor. Mas eu estava habituada a sofisticado.

Um rapaz apareceu vindo de uma porta à minha esquerda e sorriu-me. Tal como tudo o resto que tinha visto, ele tinha um ar acolhedor. Mas nada como o resto, também era lindo de morrer. Tinha uns olhos azuis e o cabelo castanho-escuro, com uma franja que lhe tapava parcialmente os olhos.

- Deves ser a Jill – disse-me, estendendo-me a mão. Porém não a apertei, fiquei petrificada ao ouvir alguém chamar-me por um nome que não era meu. Eu não tinha escolhido isto! Porque é que a minha vida tinha que mudar tanto?!

Quando viu que não lhe ia apertar a mão, baixou-a e ficou apenas a mirar-me.

- Tenho um quarto? – Eram provavelmente as terceiras palavras que dirigia a esta família.

- Sim – respondeu Ellen.

- Posso ir para lá? – Perguntei.

O rapaz franziu as sobrancelhas, o que é que esperava, que eu desatasse aos pulinhos por estar numa casa no meio da bicharada com uma família que não conheço?!

- Claro, segues aquele corredor e é a segunda porta – disse Joseph, apontando-me o corredor.

- Obrigada.

Segui o corredor e lá entrei na porta. O quarto tinha uma cama de ferro com uma colcha branca e um roupeiro. Tirando isso e as mesas-de-cabeceira com um candeeiro cada uma, não havia absolutamente mais nada. Era deprimente.

Deixei-me cair sentada na cama e pela primeira vez na vida senti-me com uma necessidade incrível de chorar. A minha vida estava arruinada. Tinha visto uma pessoa ser morta, e por ter feito a coisa certa e ter ido à polícia estou a ser castigada. Punida a viver a vida de alguém que não sou eu.

Aos poucos fui poisando a cabeça numa almofada que estava à cabeceira, e deixei as lágrimas caírem todas.

Fiquei assim durante vários minutos ou horas, já nem sabia.

Bateram à porta e limpei os olhos à pressa antes que dissesse que podiam entrar. A minha maquilhagem devia estar toda borrada…

- Entre – disse, com a voz a falhar-me por causa do choro.

Ellen entrou com um tabuleiro com um prato, talheres, pão e um copo de água.

- Não quero comer – declarei, a olhar para o chão.

- Mas tens que fazer um esforço – disse ela, sentando-se ao meu lado – Jill… - estremeci ao ouvir de novo este nome. É Amy! Amy! Mas é claro que nem eles o sabiam – Não sabemos durante quanto tempo te vamos ter por cá, não podes ficar sem comer durante meses.

- Mas eu…

- Faz um esforço. Amanhã vais com o Liam para o quintal para ver se te distrais, e já tens roupa menos… vistosa – vistosa?! A minha roupa não era vistosa! – no roupeiro. A casa de banho é mesmo aqui ao lado, tens lá toalhas lavadas, sente-te como se estivesses em casa.

Pois, isso é inteiramente impossível.

Ellen deixou o tabuleiro e saiu, deixando-me de novo sozinha dentro destas quatro paredes.

Não comi quase nada, apesar da comida estar boa.

Quando eram quase dez horas fui para a casa de banho e tentei, em vão, tomar um banho de água quente. A água cada vez vinha mais fria. Escusado será dizer que este sim, foi o banho mais rápido de toda a minha existência.

Enrolei o meu corpo numa toalha que lá estava, amarela clara e que me dava acima dos joelhos, e fiz um carrapito com o elástico que trazia no pulso.

No caminho de regresso para o quarto parei subitamente e lancei um berro, mesmo antes de ficar petrificada. Cá estava ele, um dos meus enormes receios e a razão por detestar o campo: uma aranha enorme na parede ao lado da entrada para o quarto.

Ouvi vários passos, todos eles apressados, e em questões de segundos Joseph, a sua mulher e Liam estavam a olhar para mim. Limitei-me a apontar, toda a tremer dos pés à cabeça, para a parede.

- Foi isso? – Perguntou Liam.

- Hum hum – respondi, apenas com os sons.

- Ai mãe… - disse ele, não o vi, mas imaginei-o a revirar os olhos. Devia pensar que eu era uma coitadinha, uma menina da cidade. E bem, eu sou da cidade mas é porque a cidade é, em tudo, melhor que o campo!

Liam deu uma cacetada na aranha e esta caiu, começando a andar pelo soalho até um buraco onde se enfiou. Um arrepio percorreu-me a espinha.

- Não a vão matar? – Perguntei.

- Gostavas que um gigante de matasse? – Perguntou Liam.

- Eu não sou uma aranha – respondi.

- Para o gigante pareces – disse ele.

É oficial, enquanto os pais se riem por tudo, este deve ter um humor de cão.

Entrei no quarto e abri o roupeiro. Ia tendo um colapso. As roupas eram simplesmente horríveis! Se a minha roupa não estivesse suja nem as botas enlameadas, acho que preferia usá-la durante toda a minha estadia aqui!

Vesti uma camisa de noite que me dava abaixo dos joelhos e deitei-me. Pela primeira vez vieram-me imagens do assassínio à cabeça. Tinha estado tão preocupada com o meu próprio drama que me esquecera completamente do homem morto praticamente ao meu lado, a sangue frio.

E por tudo isto, acumulado com os barulhos a que associava sempre a bichos nojentos, não dormi nada. Quando finalmente estava a pegar no sono, ouvi a porcaria de um galo. E o pior era que não o podia mandar para o chão como fazia ao meu despertador.

Levantei-me e arrastei-me até à cozinha, que ficava ao lado da sala, e espreitei, vendo a família toda a tomar o pequeno-almoço.

- Oh, olá Jill, vem, senta-te! – Disse Joseph, com um sorriso de orelha a orelha – Faz como se estivesses em casa.

Pela primeira vez sorri. Se estivesse em casa tirava uma maçã e saía porta fora tão rápido quanto os meus pés mo permitissem.

Sentei-me ao seu lado, ficando de frente para Liam, e disse um simples “bom dia”. Ellen fez questão que eu comesse até transbordar, quase.

Descobri que a escola de Liam está em obras, logo ele não tem aulas.

Quando acabámos de comer, Ellen disse-me para me ir vestir que Liam ia-me ensinar a fazer umas coisas. Até tive medo.

Escolher uma coisa para vestir foi um desafio horrível, acabei por escolher uns calções cremes com uma blusa de cavas branca, e uma camisa florida por cima, aberta e apenas com as pontas atadas. Calcei uns ténis que Ellen já lá tinha à minha espera.

Quando me despachei da roupa, fiz um rabo-de-cavalo bem puxado para cima e fui ter com Liam, que me esperava sentado no sofá.

- Preparada? – Perguntou, sorrindo-me. Ok, talvez não fosse assim tão mal humorado…

- Sim – disse, secamente, enquanto ia em direcção à porta.

Primeiro ele quis-me pôr a tirar leite das vacas. Tipo, eu? A tirar leite das vacas? É que não tinha mais nada que fazer…

Depois queria que desse um banho de mangueira aos porcos. Não podia ter tido pior ideia, mas infelizmente esta não me deixou recusar.

Odiei-o tanto nesse momento.

Agarrei na mangueira e rodei a pequena torneira, que assim que deixou passar água, esta correu de uma maneira demasiado forte, que fez com que a mangueira começasse a dançar no ar, molhando tudo e todos, de uma maneira descontrolada.

- O que é que estás a fazer?! – Perguntou Liam, quando viu a confusão que a mangueira estava a fazer junto dos animais. Também, ele é que teve a brilhante ideia de me fazer dar banho aos porcos.

- Está descontrolada! – Disse eu, enquanto a tentava apanhar no ar. Ele revirou os olhos e voltou a rodar a torneira, fazendo com que a água parasse e a mangueira caísse. Pois… senti-me estúpida por não me ter lembrado disso.

- Primeiro agarras a mangueira, e depois ligas – disse ele, porém não parecia chateado.

- Deve ser giro para ti – disse eu, agarrando na mangueira –, ver estas figuras.

- Não posso dizer que não mete graça.

- Só para que saibas, eu odeio campo.

- Já tinha reparado.

- E animais.

- Também já notei.

- Óptimo.

Comecei a mandar água em direcção aos porcos, mas às tantas eles fugiram e quando ia atrás deles escorreguei e caí mesmo numa poça de lama, deixando a mangueira ao meu lado outra vez a dançar sozinha.

“Matem-me já!”, implorei, para dentro.

Um porco aproximou-se de mim e lambeu-me a cara. Que nojo!!!

Liam ria-se, enquanto eu me levantava e ia desligar a porcaria da mangueira. Isto não podia estar a correr pior!

 

Isto está a ficar maior do que àquilo que eu pensei...

16 comentários

Comentar post

Pág. 1/2