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SOS Nashville

por Andrusca ღ, em 19.03.11

" Sentámo-nos no sofá, ainda meio atordoados. Olhei para Liam e ele para mim, ambos sabíamos que agora não tardaria a desaparecer de Nashville."

 

Parte 7

 

- Acho que isto é a despedida – disse. Liam estava parado à minha frente, já me tinha despedido dos seus pais e agradecido tudo o que fizeram por mim, e eles já se encontravam dentro da casa. O agente do FBI esperava-me para me levar de regresso à minha vida.

- Pois – disse Liam. Tinha os olhos brilhantes, tal como eu adivinharia que os meus estariam também.

- Ei, nós temos telemóveis, e internet… - disse, encolhendo os ombros – Podemos continuar amigos, se tentarmos. – Mas ambos sabíamos que isso não era o suficiente para nenhum de nós.

- Sim, eu sei.

O agente apitou o carro e abracei-me a Liam. Não o queria deixar, não queria mesmo.

- Eu… - “amo-te”, não tive coragem de o dizer em voz alta. Teria sido mau demais, doloroso demais. Logo agora tive que me apaixonar, ainda por cima por ele, que vive a quilómetros de distância e uma vida completamente diferente da minha. – Vou ter saudades tuas – disse.

- Eu também.

Dei-lhe um beijo na bochecha e apressei-me a chegar ao carro preto antes que as lágrimas me começassem a fugir ao controlo. Não ia chorar agora, não ia.

 

***

 

O reencontro com os meus pais foi melhor que podia esperar, houve abraços e a minha mãe até chorou. Houveram também várias promessas de como tudo agora ia ser diferente entre nós, que as discussões tinham acabado, que iam mudar.

Quando finalmente consegui subir para o meu quarto, abri a porta e dei por mim a observá-lo minuciosamente. Estava cheio de cor e fotografias por todo o lado. Minhas e de amigos. O quarto era totalmente a minha cara. E por isso o espanto em mim foi maior ao dar conta que sentia a falta daquele pequeno quarto totalmente impessoal naquela casa térrea em Nashville.

Deixei-me cair em cima da cama e respirei fundo. Tinha sobrevivido a tudo, a assassinos, a porcos lambedores de caras, a mangueiras dançarinas, a uma vida completamente o contrário da minha, então porque é que não me sentia como uma vencedora?

 

***

 

Acordei bem cedo, ainda não eram seis da manhã. Tomei um duche e ao abrir o meu guarda-roupa não encontrei nada que me apetecesse vestir. Era tudo demasiado… elaborado.

Optei pelas calças mais simples que encontrei: eram pretas e justinhas; e uma camisola amarela clarinha com uma camisa aos quadrados, que nem sabia que tinha, por cima.

Quando chegou a hora de escolher o calçado fiquei igualmente confusão. Sapatos de salto alto, sandálias, botas… acabei por calçar o único par de ténis que tinha, uns Nike brancos.

Desci as escadas e liguei a televisão. Fiquei acomodada no sofá até às oito e pouco, quando os meus pais desceram as escadas. Disse-lhes bom dia e pela primeira vez em vários anos tomámos o pequeno-almoço sentados, sem discussões ou trocas de insultos. Fazia-me sentir bem… mas falsa, pois no fundo sabia que não estavam a ser eles próprios.

Fui para a escola no meu descapotável vermelho e assim que saí vi o meu dito namorado, agarrado à minha dita melhor amiga. Sorri com todos os dentes que tinha, não doía nada de nada. Não sentia nada por ele. Por nenhum deles.

Cheguei-me ao pé deles e assim que me viram separaram-se.

- Amor! – Disse ele, abraçando-me – Voltaste! O que aconteceu? Estávamos tão preocupados…

Notou-se.

- Estou bem – disse, soltando-me dele – Qual é a minha banda preferida?

- O quê? – Parecia confuso.

- Por favor, simplesmente responde.

- Não… não sei.

- Pois… - abanei a cabeça –, eu também não sei a tua. – Mas sei a do Liam, e ele sabe a minha – Estamos acabados.

Ia dar meia volta para entrar para a escola mas ele agarrou-me e puxou-me pelo braço, voltando a virar-me para ele.

- Porquê? – Perguntou.

- Porque além de popularidade, não ganhamos nada – respondi, e aí sim, saí de lá.

Enquanto percorria a escola sentia os olhares presos a mim e ouvia os comentários menos discretos. Eram coisas como “o que é que lhe aconteceu?”, “porque é que está assim vestida?” ou “porque é que está loira?”, mas pela primeira vez em toda a minha vida, não me importei com o que ouvia, com o que as pessoas diziam. Simplesmente não queria saber.

Quando as aulas acabaram tinha tomado uma decisão. Esta não era a vida que queria para mim. Mas antes de comunicar a minha decisão, havia uma coisa que tinha que fazer urgentemente, e por isso dirigi-me à minha cabeleireira habitual e voltei a pintar o cabelo, desta vez do seu tom natural.

Quando cheguei a casa os meus pais estavam em silêncio na sala, a ver a televisão. Desliguei-a e pus-me sentada na mesa, à frente do sofá, de modo a ficar de frente para eles.

- Temos que falar – disse-lhes. – Quando era mais pequena pensava que vocês eram heróis… - sorri só com este pensamento –, imaginava que depois de me porem na cama iam voar por cima do mundo e salvar as pessoas dos vilões. Mas estava errada. Vocês são apenas pessoas normais. Não têm poderes, não voam, não salvam o mundo. Por isso preciso mesmo muito que digam que sim ao que estou prestes a pedir-vos porque quero os meus heróis de volta.

- Do que é que estás a falar querida? – Perguntou o meu pai.

- Tu sabes – disse-lhe. Era verdade, eu sabia que ele sabia, apenas se estava a fazer de parvo.

- Então e a tua carreira como modelo? – Perguntou a minha mãe.

- Mãe… eu acho que já não me importo com isso. Eu tenho que voltar para lá.

- Mas lá é tudo tão… campónio. – Sorri com as palavras vindas da boca do meu pai, era tal e qual como eu pensava quando lá cheguei.

- Eu sei mas… lá, pela primeira vez em muito tempo, sorri, senti… vá lá por favor, eu preciso disto.

 

***

 

Contemplei aquela escola tão diferente da minha. Era de tijolo e tinha um relvado à volta. Era bonita até, as obras tinham-lhe feito bem.

Respirei fundo, era isto que queria, sabia-o bem fundo no meu coração.

Caminhei até à entrada mas a sua figura, sentada encostada contra o tronco de uma árvore a ler um livro fez-me parar e retomar o passo pouco depois, desviando o rumo.

A cada passo que dava para me aproximar dele o meu coração disparava a duzentos, nunca pensei que fosse possível bater tão rapidamente.

- Posso-me juntar? – Perguntei, quando finalmente cheguei até ele. Vi-o parar de mexer no livro e muito lentamente virou a cara para mim, como se estivesse com medo de estar preso num sítio que não fosse a realidade.

Ele levantou-se encostado à árvore sem nunca tirar os olhos de cima de mim e pôs-se a uma distância de poucos centímetros de mim.

- Amy… - murmurou. Soube tão bem ouvir o meu nome sair-lhe pelos lábios – Pareces…

- Diferente – completei.

Ele agarrou numa mecha do meu cabelo e pô-la para trás da orelha.

- Não, pareces exactamente igual para mim. Estás aqui.

- Estou – confirmei, sorrindo –, e estou para ficar.

- O quê? – Os seus olhos ficaram reluzentes, e agarrou-me cintura.

- Falei com os teus pais e até ser maior de idade e puder arranjar casa, fico na vossa casa.

- Mas tu… tu queres ficar aqui? Em Nashville? Porquê, tens a certeza?

- Eu quero ficar contigo Liam – disse, fazendo o meu coração passar de 600 para 1200 – Eu…

- Amo-te – completou.

- Exacto – sorri.

Ele não demorou a juntar os seus lábios aos meus, e estivemos entretidos durante algum tempo até nos sentarmos encostados à árvore, eu com a cabeça pousada no seu ombro.

- Ainda não acredito que estás aqui – sussurrou, ao meu ouvido, enquanto brincava com as minhas mãos.

- O quê? Pensavas que ia deixar aquele pobre porco sem mim? – Gozei – Quem é que ele ia lamber depois?

- Muito engraçadinha.

Nisto uma abelha pousou nas minhas calças e eu olhei em pânico para Liam. Abelhas, um dos meus piores pesadelos.

- Não grites – disse-me, com toda a calma possível, enquanto apanhava um pau do chão.

- Ok – disse, com a minha voz toda a tremer – Tira-a, tira-a, tira-a.

Ele tirou-a com o pau e depois respirei de alívio. Tudo bem, tinha decidido ficar em Nashville, mas isso não queria dizer que já estivesse habituada a tudo, bem pelo contrário, e meu grande desafio ia começar era agora. Mas enquanto estivesse com Liam, sabia que estaria bem e feliz. E é apenas isso que posso desejar.

 

E acabou. Então que tal? :p

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