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Pétalas de Rosas

por Andrusca ღ, em 02.10.10

Ok, então cá vai o primeiro capítulo da continuação da história da Chloe e do Derek.

Espero que gostem :D

Beijinhos

(Ahh! E tenham calma se não perceberem bem agora, eu prometo que as coisas melhoram e mais lá para a frente percebem o porquê de tudo)

 

Capítulo 1

O Fim do Conto de Fadas

 

Com tudo o que tem acontecido não tenho alternativa senão aquela que me foi imposta.

Até ela aparecer, há algumas semanas, nunca pensaria que ia ter que tomar uma decisão destas.

Como poderei ser egoísta? Como poderei ter tudo sem dar nada em troca? Não posso. Simplesmente não é possível. Mas não há nada de simples aqui. Esta dor cá dentro, esta dor por algo que estou prestes a fazer, esta dor é o fim.

Passei a semana inteira a evitar Derek. Passei-a a mentir a Verónica, Gary e Gwen, a dizer aos meus irmãos que tudo estava maravilhoso, e a tentar ganhar coragem para a pior coisa que vou fazer na vida.

Enquanto conduzia por esta estrada deserta, fazia uma força tremenda para que as lágrimas não começassem a escorrer desalmadamente. Não podia chorar. Não ainda. Ele notaria, e depois iria tudo por água abaixo. Ou devo dizer sangue?

A escuridão da noite era quase arrepiante. Quase. Se eu não soubesse que estava no caminho certo para casa de Derek, já teria voltado para trás.

Não se ouve um único ruído, e isso torna mais difícil ignorar os meus pensamentos.

Parei o carro em frente ao enorme portão da mansão de Derek, e saí do carro. Mal dei dois passos em direcção ao portão, ele abriu-se. Ele sabia que eu tinha chegado.

Entrei a pé. Queria mais tempo. Mais tempo para pensar como dizer as coisas. Mais tempo para me preparar física e mentalmente. Só… mais tempo.

Passei pelos canteiros de flores e vi-o à minha espera, em frente à porta.

O seu sorriso continuava a brilhar, agora mais que nunca, e os olhos verdes observavam-me com um cuidado especifico. Ele estava preocupado. Bem, tem razões para isso.

Ao aproximar-me ia-me lembrando de todos os bons momentos por que passámos. Desde o primeiro beijo… até ao último.

Finalmente cheguei ao pé dele e ele inclinou-se para a frente, para me beijar. Queria inclinar-me também, queria beijá-lo, mas não podia. Tinha que aceitar. É o fim.

- O que é que se passa? – Na sua voz reinava a preocupação, mas mesmo assim era expressa num tom muito próximo da perfeição, senão mesmo.

- Nós temos que falar – disse-lhe. Tentei que me soasse determinado. Tentei soar decidida. Mas como podia? Em vez disso a voz saiu-me trémula, saiu-me rouca por causa das lágrimas reprimidas, e saiu-me fraca, muito fraca.

- Está tudo bem?

- Podemos falar cá fora? – Ele notou que não respondi à pergunta dele. Detesta quando faço isso, e percebe sempre que há qualquer coisa mal.

- Sim, claro.

Fechou a porta atrás de si e estendeu a mão para ma dar, mas eu abanei a cabeça. Acho que é estúpido que um acto destes me doa tanto fazer.

Começámos a andar, e parámos em frente à minha parte preferida do jardim: o arco de rosas escondido ao pé da piscina.

- O que é que se passa? – Perguntou-me Derek, enquanto me mirava.

- Derek… - tossiquei para clarear a garganta. Eu tinha que soar convincente, tinha que querer dizer o que vou dizer. Tinha que o convencer que era o que queria – Isto… que nós temos… eu quero acabar.

Deu-me um aperto enorme no coração ao dizê-lo, mas teve que ser. As coisas não podem continuar assim, não desta maneira. Ao pronunciar estas palavras senti o mundo inteiro a abanar, como se de súbito me visse no meio de um terramoto que nunca iria acabar. No meio do inferno.

O vento começou a ficar mais forte, e pequenas pétalas de rosa começaram a voar à nossa volta e a cair, vindas do arco.

- O quê? Porquê? Chloe, o que é que se passa?

- Lembras-te quando te persegui, e tu ficaste por minha causa? – Ele assentiu – Estou a ser egoísta outra vez. Derek eu preciso que te vás embora. E que não voltes.

As lágrimas iam começar a cair ao ver a desilusão estampada na sua cara, por isso virei-me de costas para ele e tentei controlá-las.

- É por causa do que sou? – Perguntou.

- Sim – menti – Tu tinhas razão. Parecia suficiente, mas não era. Eu quero mais, preciso de mais.

- Como?

- Como o que não me podes dar. Eu não quero viver para sempre, não quero ir às cavalitas do meu namorado para o cimo de uma árvore. Quero crescer, e quero alguém que cresça comigo. E não és tu. Tu nunca serás humano, e eu nunca vou querer ser como tu.

- Chloe… porquê? Depois de tudo, porquê agora?

Conseguia ouvir na sua voz que, tal como eu, reprimia toda a tristeza que sentia.

- Porque sim. Eu disse-te para ficares, e tu ficaste.

- Por ti! Eu fiquei por ti!

- Eu sei. E agora estou a dizer-te para ires. Se… - Deus, isto custa tanto – ainda sentes alguma coisa por mim, vai-te embora.

- Não assim. Chloe, eu não me vou embora até que não me digas o que é que se passa. Há uma semana estava tudo bem, e agora isto?!

Contornou-me e agarrou-me nos ombros.

- Tu podes confiar em mim, sabes disso – insistiu.

- Eu já não te amo.

Cinco palavras. Cinco palavras que iam mudar tudo. As cinco palavras que eu esperei ardentemente não ter que proferir. As cinco palavras que doeram mais que todas as outras, juntas. As cinco palavras do fim.

- Tens a certeza?

Agora além de incompreensão e angústia, havia dor na sua voz.

Queria contar-lhe tudo. Explicar-lhe tudo. Mas não posso. Não ia adiantar. Ela ia continuar a ameaçar, e mesmo que Derek soubesse… mesmo que Derek soubesse nada mudaria. Eu conheço-o. Ele ia querer pará-la. E ia magoar-se pelo caminho. Morrer, talvez. E conhecendo os seus irmãos, Verónica e Gary, como conheço, iriam querer ajudar. E eu não posso permitir que se magoem a tentar resolver uma coisa que eu criei. Um problema que é meu. Problema meu, consequências minhas. Apesar de não fazer ideia de porque é que ela me escolheu a mim.

Fazer isto, dizer-lhe para partir, é como dizer para pararmos de regar as plantas. Ele é a água, e eu sou a futura verdura morta. Mas tem que ser… tem que ser…

- Derek… isto já durou demasiado.

- Mas Chloe… o que é que fiz? A sério, podes dizer.

- Não é o que fizeste! É o que és. Eu não posso estar com alguém assim. Não é viver. Nós temos que avançar para a frente, e contigo, estou sempre no mesmo sítio.

- E os meus irmãos? Não os posso convencer a ir, isso é uma decisão deles.

- Eu sei. Neste momento só quero que tu vás.

- Porque é que me estás a fazer isto? Chloe, porquê?

- Porque estou farta de fingir. Estou farta.

Senti as suas mãos a fazerem mais força nos meus ombros, e por momentos pensei que me fosse levantar e mandar de encontra a um lado qualquer, mas a pressão aliviou, até que retirou completamente as mãos. Senti-me desiludida nesse momento. Seria tudo mais fácil se me tivesse espalmado de encontra a uma parede. Seria mais misericordioso acabar com isto tudo. Eu, morta numa cova, seria o final perfeito para esta conversa. O final que eu queria para mim, de tão mal que me sentia.

- Eu disse-te que ficava – murmurou –, quando pediste. E se achas que ficas melhor sem mim… - encolheu os ombros – acho que o melhor mesmo é ir. A última coisa que queria fazer era fazer-te fazer uma coisa que não querias. Lamento por todo o tempo que passámos juntos.

Contornou-me de novo e começou a andar em direcção à casa.

- Derek! – Chamei, voltando-me para ele.

Ele voltou-se para mim, e por momentos juro que vi esperança naquele olhar triste e enlagrimado.

- Não voltes – a minha voz falhou completamente ao dizer isto, mas ele assentiu. Ele ouviu. Tudo.

A centelha de esperança que lhe habitava o olhar desvaneceu-se, e ele desapareceu.

Pressionei os lábios com força e comecei a correr até ao portão. Saí e entrei para o carro. Comecei a conduzir, e a esforçar-me ao máximo para não desatar num pranto desalmado. Não podia ainda. Ele ia ouvir. Iam os três.

A meio do caminho perdi as forças e as lágrimas começaram a escorrer-me pela cara desalmadamente. Já mal conseguia ver o caminho, tinha os olhos completamente enevoados.

Vi duas luzes do que supus ser um carro vir na minha direcção e enquanto ele se desviou, eu travei bruscamente.

Fiquei debruçada sobre o volante a deixar as lágrimas escorrerem durante sei lá quanto tempo. Já me estava a doer da cabeça, de tanto chorar, quando voltei a pôr o carro a trabalhar.

Não queria ir para casa, não ainda.

Não ia conseguir mentir a Abby e dizer-lhe que estava tudo bem. Não ia conseguir passar por Dylan e fingir um sorriso como os que tinha nos últimos meses. Eles iam notar. E depois iam-me perguntar. E responder, dizer em voz alta o que tinha acabado de fazer, tornava tudo muito mais real. Tudo mais definido.

Conduzi até à praia e saí do carro. A noite já ia bem avançada, e por isso a praia estava deserta. Descalcei-me e deixei os ténis dentro do carro. Dobrei um pouco as calças e fui até à beira mar. A água ia e vinha sem me tocar nos pés, sempre a milímetros antes. A areia estava fria, e consigo imaginar os meus pés a gelarem ao tocarem na água.

Consigo-me lembrar perfeitamente de quando aqui estive com Derek. Era de tarde e a água estava gelada. A praia também estava praticamente vazia, e Derek agarrou-me ao colo e mandou-me para dentro de água, completamente vestida.

Limpei as lágrimas que me corriam pelas bochechas com uma mão, e suspirei.

Dei um passo para a frente e a água, completamente gelada, molhou-me os pés. Arrepiei-me toda. Senti os meus ossinhos dos pés praticamente a mandarem-me afastar-me, mas não liguei. Não me queria afastar.

Comecei a caminhar pela praia, com os pés dentro de água, e sentia cada vez mais a força da água quando ia para trás. Por breves momentos desejei ir com ela. Por breves momentos desejei não voltar. Mas depois parei. Não queria morrer. Não queria que ninguém morresse, e foi por isso que fiz isto.

Isto, deixar o Derek ir. Mandar o Derek ir, foi a pior coisa que fiz desde que saí da barriga de Margaret.

Quando o meu pai morreu chorei por semanas, meses, mas agora… agora sinto que nunca vou parar de chorar. Derek tinha-me devolvido tudo aquilo que me tinha sido tirado. Tinha-me devolvido esperança, tinha-me devolvido alegria, mas mais importante, tinha-me feito acreditar de novo. Fez-me acreditar que coisas boas realmente acontecem.

- Tretas – murmurei, para mim mesma – Coisas boas não acontecem. Não por muito tempo. E não a mim.

Voltei a limpar a cara e parei. Virei-me para o oceano e contemplei-o. Tão sereno, tão chamativo, e ao mesmo tempo tão perigoso e mortal.

Apesar de não conseguir ver muito bem, a imagem do mar agora, de noite, parecia-me tão bela quanto de dia.

As nuvens ainda reinavam no céu. Tem sido assim desde que Derek e os seus irmãos vieram para Great Falls. Mas apesar das nuvens e do vento, a noite estava agradável. Bem, para quem a pudesse apreciar.

Neste momento, a olhar para o oceano, senti-me um pouco mais calma. Este é o meu sítio preferido de toda a cidade.

Houve uma onda que rebentou um pouco mais forte que as outras e salpicou-me toda. O sossego tinha acabado, e as vozes na minha cabeça voltado.

Lembrar-me da cara de Derek quando lhe disse para ir embora fazia-me chorar ainda mais, e sentir um aperto no coração tão grande que mal me deixava respirar.

Esforcei a vista perante a escuridão da noite e vi vários barcos atracados no porto, num instinto levei a mão ao bolso das calças e constatei que estava lá a chave de que precisava.

Corri até aos barcos e entrei para o meu iate branco e reluzente. Liguei-o e comecei a conduzi-lo para longe.

Enquanto o conduzia, várias lágrimas caíam, e tal como aconteceu com o carro, tive que o parar.

Fiquei ali parada, no meio do mar, sereno, chamativo, reluzente…

Aproximei-me da borda e fiquei a observar o mar a subir e a descer vezes sem conta.

Sem pensar muito – ou nada – deixei-me cair lá para dentro.

Aquela água gelada, aquelas dores nos ossos ao tocarem nela… e no entanto, aquela serenidade total, como se nada nem ninguém me pudesse atingir.

Mas alguém podia. O único alguém neste mundo que podia. Derek atingir-me-ia. E atingir-me-ia bastante. Bastava voltar a vê-lo. Voltar a imaginar sequer que ele estava perto, e ficava com o coração nas mãos.

Deixei-me abanar pelo oceano, a fazer corpo morto, até que veio uma onda que me passou por cima, e depois outra, e depois outra. Senti-me a ficar sem fôlego, e pensei que em breve nada me atingiria, de verdade. Em breve tudo acabaria e iria ficar em paz. Ou então seria para sempre atormentada por esta dor terrível, que carregaria para a campa, para todo o sempre.

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