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Mini Story - Amor à Sombra de Mentiras

por Andrusca ღ, em 01.04.11

Como eu disse, vou postar uma mini história.

Não sei quantas partes vai ter, mas não vai ser muito grande xD

Ps. O que está a itálico são as memórias, o passado e isso. Vocês depois percebem xD

 

Amor à Sombra de Mentiras

 

Parte 1

 

O vento passava furiosamente por toda a cidade, ameaçando levar tudo por trás. Porém eu não me importava.

Sentada no baloiço que se abanava lentamente, e com o vento a mandar-me os cabelos para trás, deixava que as lágrimas me lavassem a cara, sentia que o mundo desabava perante mim.

O que acabara de descobrir não podia ser verdade. Não podia.

Olhei de vislumbre para Dave, sentado no baloiço ao lado do meu, que chiava cada vez que mexia. Também ele tinha uma expressão de dor. Ele sentia o mesmo que eu, e apesar de nesta altura me apetecer ficar sozinha, eu sabia perfeitamente que ele nunca me deixaria. “Podes não querer, mas neste momento a única pessoa que sabe pelo que estás a passar sou eu”, dissera-me ele, assim que nos sentámos nestes baloiços, no vislumbre da noite, neste parque completamente deserto.

E era verdade, ambos estávamos na mesma situação, o que me afecta a mim afectava-o a ele, e vice-versa. Ambos vivêramos a mesma mentira. E ambos fomos traídos pela mesma pessoa.

- Queres ir para casa? – Perguntou-me. Ele tinha voz de choro, apesar de ainda não ter derramado uma única lágrima.

- Não – a minha voz também não estava nada normal, porém, ao contrário dele, eu já tinha chorado demasiado.

Com tanta coisa na minha cabeça, já nem me lembrava como tínhamos chegado a este ponto, o que nos fizera descobrir o que descobrimos. Apenas pedaços soltos, peças que não se encaixavam.

Por momentos desejei que nunca tivéssemos traçado este caminho, que apenas não fossemos tão curiosos ou justiceiros. Que não fossemos tão iguais.

 

 

Era uma manhã como qualquer outra, levantei-me, tomei banho, vesti-me e após o pequeno-almoço fui para a escola.

Ao entrar no autocarro vi Dave. Trazia as suas calças de ganga e uma T-shirt verde que lhe ficava linda. O seu cabelo castanho-escuro, com gel, agitava-se pouco. Sorri, eu era perdidamente apaixonada por ele desde que me lembro, e ultimamente existem rumores de que também ele me ama a mim. Sempre fomos grandes amigos, apesar de nunca frequentarmos a casa um do outro pela simples razão que nunca temos muito tempo fora da escola para estarmos juntos. Suspirei, era pena estar apenas com ele no tempo de aulas.

Mas isso iria mudar, este ano ia ser diferente, pela primeira vez ele estava na minha turma, e pela primeira vez os nossos horários coincidiam. E isso dava-me oportunidade de passar tempo redobrado com o meu melhor amigo.

Caminhei até ele, que me saudou com um sorriso de orelha a orelha e um abraço apertado, e sentei-me a seu lado. Tinha saudades dele, as férias foram longas demais.

- Estás com um bronze! – Elogiou, fazendo-me logo corar – E cortaste o cabelo… eu sabia que mais cedo ou mais tarde ias cedes.

E revirou os olhos. Eu detesto cortar o cabelo, mas desde o último mês de aulas que ele me andava a dizer que precisava de o cortar. E precisava, e por isso lá o tive que cortar.

- E tu… - mordi a língua – Dave, tu continuas igualzinho, mas tu não cresces?!

Ele riu-se.

- Savannah, a comediante do sítio. Agora a sério miúda, já tinha saudades.

- Também eu.

Fomos o tempo todo a conversar sobre as férias e o que tínhamos feito. Também falámos sobre o novo ano, o 12º, e combinámos que íamos ficar juntos a todas as disciplinas.

Tirando a parte de ser apaixonada por ele, Dave é também a única pessoa para a qual não tenho segredos, ele é o meu único amigo verdadeiro, aquele que sei que nunca me deixará.

Normalmente o primeiro dia de escola é uma seca, mas quando tenho Dave ao pé nunca consigo ficar séria; é rir a toda a hora. E isso é bom, é uma das razões pelas quais gosto dele.

Às vezes pergunto-me como conseguimos ser tão iguais.

Após as aulas convidei-o para ir lá a casa, pela primeiríssima vez. E para meu espanto, ele aceitou.

Fomos no autocarro e ele saiu comigo na minha paragem.

Quando chegámos à minha casa ele ficou feito parvo a olhar, era uma pequena vivenda, com a cerca branca, aquele tipo de casa que aparece em filmes, e que normalmente é o grande sonho da personagem principal.

- Vais ficar aí a olhar ou vens? – Perguntei, puxando-o por uma mão.

Não estava ninguém em casa, entrámos e fomos para o meu quarto, onde vimos um filme.

Quando eram sete horas ele disse que se tinha que ir embora, e eu levei-o à porta. Estranhava o facto de o meu pai ainda não ter chegado, porém não liguei muito, ele praticamente vive no seu escritório, e passa a vida a fazer viagens.

Pouco depois de Dave sair, o meu pai entrou pelo meu quarto a dentro. Parecia furioso.

- Quem era aquele rapaz que acabou de sair daqui?! – Perguntou-me.

- Um amigo meu, Dave – respondi, sem tirar os olhos da revista que lia.

- Pois fica sabendo que não quero que te dês mais com ele, percebeste?!

- O quê?! – Agora sim, olhei para ele. Estava-se a passar, só podia. – Pai, estás a gozar, certo? Tu nem o conheces!

- Não interessa Savannah! Eu não te quero perto daquele rapaz, por isso vais-te afastar dele, e já a começar amanhã! Ai de ti, que eu saiba que lhe diriges um simples ‘olá’!

- Porquê?! – Isto era completamente ridículo.

- Porque eu estou a mandar! – Ele gritava tanto que estava a ver que lhe ia dar uma coisa qualquer, e estava mais roxo que sei lá o quê.

A minha mãe entrou no quarto, devia ter chegado também apenas agora do trabalho, preocupada. Não sei como, nem porquê, mas o meu pai consegue sempre convencê-la a ficar do seu lado, e assim, do nada, começaram os dois a dar-me um sermão em como não devia levar amigos lá a casa, nem que queriam que falasse com ele. Tudo por causa de mentiras do meu pai “ele pode ser perigoso”, “é má companhia para ti”, “não te podes desinteressar pela escola, olha a universidade”. Tudo tretas.

Claro que fiquei de trombas o resto do dia. O meu pai não estava bem, era impossível, ele nunca me dissera com quem podia, ou não, falar.

Ao jantar ouve ainda menos barulho que num velório, conseguia notar que ele estava tenso, mas não conseguia perceber o porquê.

Aliás, eu sabia um dos porquês, não sabia era se era esse que o afligia neste momento. Mas não devia ser, ele já trai a minha mãe há demasiado tempo para começar a sentir remorsos agora.

Cada vez que olho para ele sinto raiva ao saber isso. “Não tens provas”, disse-me a minha mãe. Pois, e não tinha, mas eu simplesmente sabia. E ia arranjar provas. Mas ela está tão cegada por aquele homem que não vê os factos que estão mesmo à sua frente, como uma vez em que ele disse que ia uma semana fora em trabalho e depois eu descobri que afinal a empresa não tinha arranjado nada. O que é que a minha mãe disse? Que ele lhe tinha dito – já depois de ser confrontado com a verdade – que tinha feito aquela viajem por conta própria para não perder cliente nenhum. Pff, poupem-me.

 

(…)

 

As duas primeiras semanas de escola já lá iam, e ontem tinha seguido o meu pai. Tinha entrado numa casa qualquer, a uma meia hora de onde vivemos, e só tinha saído de noite. Hoje tinha que voltar a segui-lo, tinha que ver ao menos com quem se encontrava. E tirar uma fotografia talvez… ou duas.

- Savannah? – Ouvi, enquanto me abanavam o braço.

- O que foi? – Perguntei, olhando para Dave. Ele apontou para a frente, e a professora estava de braços cruzados a olhar para mim.

- De novo no mundo da lua Savannah? – Ela abanou a cabeça – Assim não vais longe rapariga, ai não vais não.

A aula a partir daí passou depressa, e tentei concentrar-me minimamente na Geometria, porém não conseguia lá muito bem.

- O que é que tens? Estás esquisita – Perguntou Dave, assim que saímos da sala.

- Nada – menti.

- Vá lá Savannah, sabes que detesto que me mintas – ele parou e agarrou-me no braço, ambos nos encostámos à parede e esperámos que a multidão passasse até recomeçarmos a falar.

- Não é nada, a sério – insisti.

- Eu acho que sei o que é… - ao dizer isto olhou para mim e corou um pouco. Ele não sabia o que era, impossível.

- Ai sim? Então diz lá, o que é? – Perguntei, em tom de desafio.

Ele corou mais. Então mas que raio?

- Tu sabes, não sabes? – E estava atrapalhado. Eu sei? Eu sei o quê?

- Eu sei o quê Dave?

- Que eu… tu sabes, que eu gosto de ti – mexeu no cabelo de uma maneira nervosa.

- Sim… é por isso que nos damos tão bem idiota – dei-lhe um pequeno empurrão mas ele voltou ao mesmo sítio. Olhou-me sério, ok, percebi mal.

- Não assim – disse – Eu estou…

Sorri, e ele calou-se. Ok, agora já tinha percebido, e também eu corei. Respirei fundo e dei um passo em frente, ficando completamente coladinha a ele. Olhei directamente naqueles olhos cor de avelã e sorri de novo, os seus olhos brilhavam.

Pressionei os lábios um no outro, se estivesse errada mandava-me de uma ponte. Cheguei a minha cara lentamente à dele, e quando hesitei foi ele que juntou os seus lábios aos meus. Eu não estava errada, tinha percebido bem.

O beijo demorou a acabar, e eu estava a aproveitar cada segundo dele, mais feliz que nunca, por ele sentir o mesmo que eu, mas infelizmente ninguém vive sem ar, e por isso tivemos que nos afastar.

- Eu também – afirmei, sorrindo.

Ele apenas me sorriu antes de voltar a juntar os nossos lábios.

 

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