Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Together as One

por Andrusca ღ, em 02.04.11

Capítulo 23

Problemas * Parte 3

 

Danny

 

O silêncio reinava nesta casa de banho, e do lado de fora apenas se ouviam breves sussurros.

Suspirei, eu é que a tinha posto aqui. Eu é que tinha provocado tudo isto.

Sou tão estúpido, de alguma maneira, acabo sempre por magoar as pessoas com quem me preocupo. Não é de estranhar que todas elas me deixem, não faço nada certo.

A porta abriu-se lentamente e rápido olhámos os três para Boogy, que trazia a sua pistola na mão. Este gajo metia nojo.

- O que é que nos vais fazer? – Perguntou Ellie. A voz dela tremia, não se notava muito, mas eu já a conhecia o suficiente para saber.

- Sabes… ainda não sei – Boogy sorriu –, mas por agora, e já que vos tenho, vão ter que me render alguma coisa.

- Como assim? – Perguntou Michael.

- Um resgate. Vinte e cinco milhões – Vinte e cinco milhões?! Mas este gajo é louco, ou passa-se?!

- Ninguém te vai pagar nada – disse Ellie.

- Estás errada. Já negociámos – Boogy soava triunfante. Que raiva!

- Quando sairmos daqui, estará tudo acabado para ti – disse eu, com a raiva a fervilhar na voz –, tudo!

- Tu nunca te sentes satisfeito, pois não? – Abanou a cabeça ao perguntar isto – Os roubos não são o suficiente, o dinheiro não é o suficiente. O que é? O que é que queres para seres feliz Danny? Porque isto é tudo culpa tua, foste tu que causaste isto. Foste tu que ameaçaste ires-te embora, e já devias saber, que ninguém me diz que não.

- Tu és detestável – Disse Ellie. Ela odiava-o, notava isso, talvez o odiasse mais que a mim… talvez…

- Eu sei minha querida – respondeu-lhe ele – Agora venham, têm os papás ao telefone, eles querem uma prova em como estão vivos.

Agarrou Ellie pelo braço, pois ela não queria ir, e eu e Michael avançámos com Shane e Kevin com as pistolas apontadas a nós.

- Fala com a mamã – ordenou Boogy, dando o telemóvel a Ellie.

- Mãe? – Perguntou ela, ao atender – Não mãe… sim, eu sei… sim, estamos bem. Não, o Michael também cá está. Não mãe… nós vamos ficar bem, prometo. Sim, sim…

- Já chega – Boogy retirou-lhe o telemóvel e continuou a falar.

 

Ellie

 

Ele estava a levar demasiado tempo ao telefone. Sorri interiormente, podia ser bom ladrão, podia não ter consciência o suficiente para se arrepender de matar um homem, mas não estava familiarizado com sequestros. Se alguma coisa aprende de todas as noitadas com a família a falar de leis e crimes, é que nunca se deve passar muito tempo ao telefone, torna a chamada demasiado fácil de localizar.

Este canalha ia ser apanhado, ele e os outros dois.

Lembrei-me de Danny e Michael, que lhes iria acontecer?

 - Vamos – ordenou Shane –, voltem para a casa de banho.

Obedecemos, que mais podíamos fazer?

Voltei a sentar-me em cima do tampo da sanita, e eles os dois no chão. Suspirei, será que a polícia ia demorar muito? Esperava que não, tinha que sair daqui o mais depressa possível, estava a começar a ficar demasiado transparente, a deixá-los ver o quão aterrorizada me sentia por dentro.

Estivemos em silêncio tempos e tempos, até que começámos a ouvir sirenes. Sorri e olhei para eles, que me olharam de volta.

Os três rebeldes do sítio entraram pela casa de banho à pressa, Shane agarrou-me pelo braço e Boogy empurrou Danny. O meu irmão saiu a bem, não foi preciso usar-se força nenhuma. Se bem o conheço, também ele está a morrer de medo, apenas não mostra.

Mas também, apenas um louco não estaria minimamente assustado.

- Fiquem quietos! – Ordenou Boogy, enquanto verificava se a porta da casa estava trancada, pela milionésima vez.

Encostaram-nos a uma parede e enquanto Kevin andava às voltas – notava-se que ele era o que estava mais assustado dos três; não parecia ter tanto sangue frio quanto os outros –, Shane e Boogy falavam entre si.

As sirenes pararam, tinham chegado.

- Saiam da casa com as mãos no ar! – Ouviu-se, através de um altifalante.

- Pois sim – disse Boogy, devagar – Eu juro que disparo se algum de vocês se mexer – ameaçou.

Eles continuavam quietos, tal como Michael e Danny. Tinha que fazer qualquer coisa, qualquer coisa que fizesse a polícia entrar, de outro modo estaríamos aqui para sempre. E já bastava.

Quando vi Boogy de costas a falar com Kevin, e Shane também de costas a mexer no telemóvel, desviei-me da parede e peguei silenciosamente numa estátua em miniatura que estava mesmo ao meu lado. Michael ainda me agarrou no braço e lançou um olhar, mas estava decidida, não ia ficar aqui nem mais um segundo.

Dei três passos em direcção a Shane, pois estava sozinho, mas ao ouvir uma pistola a ser accionada estagnei e apenas segundos depois me voltei para trás.

- Não devias tentar fazer dessas coisas – Disse Boogy.

A seguir tudo se passou muito depressa, e de qualquer maneira, na minha mente, parecia ser antes em câmara lenta.

- Ellie! – Gritou Danny, ao mesmo tempo que correu para mim.

Posso jurar que até vi a bala a sair da pistola na minha direcção, tudo em câmara lenta, tudo ao detalhe. Provavelmente era do medo, ou choque, ou qualquer outra coisa. Fechei os olhos, apenas desejava que fosse depressa, que não sofresse, tal como o outro homem que Boogy matou também não sofreu.

Senti alguém vir contra mim, fazendo-me cair, porém ficou essa pessoa em pé.

- Danny não! – Gritei, ao ver que a bala lhe ia acertar sem dúvida. Fui atingida pelo pânico, apenas olhava para ele, já não via mais nada à frente.

A bala passou por ele e ele desviou-se um pouco, porém continuou em pé e observou Boogy.

Só então percebi que a bala apenas lhe tinha passado de raspão pelo braço, e respirei pesadamente; o ar teimava em não entrar enquanto o meu coração não abrandasse.

A partir daqui tudo se passou a correr, os polícias invadiram a casa, a apontar armas para tudo quanto era sítio, e levaram-nos de lá.

Danny sentou-se na ambulância enquanto os paramédicos lhe viam a ferida, e após um longo abraço aos nossos pais – que também cá estavam –, Michael e eu tivemos que ir dar depoimentos enquanto levavam Boogy, Kevin e Shane.

- Então estás-me a dizer que este rapaz e o outro não tiveram nada a ver com isto, certo? – Perguntou-me o polícia, pela segunda vez. Eu não os podia acusar de nada, Michael era meu irmão, e Danny… Danny levou um tiro por mim.

- Certo. Eles foram raptados, tal como eu fui – confirmei.

- Muito bem, por agora é tudo, mas provavelmente vou voltar a precisar de falar convosco – avisou.

- Obrigado – dissemos eu e Michael.

Michael olhou para mim apenas quando o polícia se afastou, parecia aliviado.

- Obrigado – disse-me.

- Poupa-me – ainda estava chateada com ele, era impossível não estar.

- Vamos para casa? – Perguntou a minha mãe, chegando-se ao pé de nós com o meu pai.

- Vocês precisam de um bom banho, e de descansar – reforçou o meu pai.

- Vamos – concordámos, eu e Michael.

Íamo-nos dirigir para o carro quando olhei para trás. Danny estava agora lá sentado sozinho, em tronco nu, com um penso no lugar onde a bala tinha passado de raspão. Suspirei, apesar de mal o poder ver à frente neste momento, ele impediu-me de ser baleada, o mínimo que podia fazer era agradecer.

- Vão andando – pedi –, eu vou já.

Caminhei até à ambulância e ele olhou para mim. Eu sabia que ele sabia que não estava perdoado, não é assim tão ingénuo.

Levantou-se e ficámos frente-a-frente por um pouco.

- Desculpa ter-te feito ser baleado – disse-lhe. Ele sorriu, porém não era um sorriso aos quais estava habituada, este continha tristeza, culpa, dor.

- Desculpa ter-te metido nesta confusão – pediu – Ouve, já sei que me defendeste em frente ao bófia, obrigada eu… - não o deixei acabar a frase, já não aguentava mais, já tinha aguentado demasiado.

- Não – disse-lhe, enquanto abanava a cabeça.

- Mas eu tenho que dizer isto – ele sorriu e falou por cima de mim – A razão por teres sido raptada fui eu. Eu causei isto tudo, desculpa. O que aconteceu foi que… - suspirou –, eu meti-me nos assaltos porque gostava da adrenalina que me fazia sentir, mas depois conheci-te a ti. Ao começo achava piada chatear-te porque… simplesmente porque sim, mas depois algo aconteceu, e o resto passou a importar menos. Desde que me beijaste naquela festa que nunca mais fui o mesmo, e eu sei que estavas bêbeda, mas também sei que sentiste algo, tens de ter sentido. E então comecei a dar-lhes para trás, a não ligar aos roubos… O Boogy não gostou, pensou que tu fosses o problema, por isso decidiu cortá-lo pela raiz. Ele sabia que o Michael não ia aceitar, e ambos éramos substituíveis, por isso não perdia nada ao tratar dele também. Ellie eu sei que fiz muita porcaria, sei mesmo, mas tu foste a melhor coisa que já me aconteceu tu… tu és maravilhosa e…

- Pára – pedi. Ele calou-se e olhou para mim. Custou-me ouvir o que me disse, o que pensava. Custou-me perceber que se importava comigo, que até gostava de mim. Mas ainda me ia custar mais dizer o que tinha que dizer. Uma lágrima teimou em cair, e pela primeira vez em todo o dia de hoje, não a consegui impedir e por isso ela viajou pela minha face – Nunca mais fales comigo de novo – o seu sorriso desvaneceu-se e eu engoli em seco. Isto era mais doloroso do que pensava, mas neste momento simplesmente não conseguia estar sequer ao pé dele, não o conhecia, não era o Danny ao qual estava habituada. Mais uma lágrima caiu – Porque eu posso ter sido a melhor coisa que já te aconteceu, mas tu foste o maior desapontamento da minha vida. Por isso afasta-te de mim, não quero ter nada a ver contigo.

- Ellie…

- Danny, se gostas minimamente de mim, vais-me deixar em paz.

E tão simples quanto isto, virei-lhe as costas e conhecer a andar, enquanto que a cada passo que dava me sentia a despedaçar ainda mais por dentro, a morrer aos poucos, como se parte de mim estivesse a ser lentamente arrancada.

26 comentários

Comentar post

Pág. 1/3