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Together as One

por Andrusca ღ, em 03.04.11

Capítulo 24

Lágrimas & Depressão

 

Danny

 

A polícia levou-me até casa, onde me deixou. Levei a chave à porta e ao abri-la um vulto saltou para cima de mim.

- Mãe? – Perguntei, enquanto a apertava mais para mim.

- O menino está bem? – Perguntou ela, ao largar-me.

- Sim, eu… - não, eu não estava nada bem, em poucas horas tinha perdido tudo aquilo que desejava manter até morrer. Mas não lhe podia dizer isso, ao menos eles preocuparam-se o suficiente para vir para cá – O que é que estão aqui a fazer?

Vi o meu pai aparecer também, vindo da sala, e sorriu-me.

- O menino pregou-nos um susto enorme – isto foi o suficiente para formar um minúsculo sorriso, o que será que aconteceria agora? Provavelmente iam-me por de castigo, tirar o computador, impedir de sair à noite…

- Quando a Alice nos telefonou a anunciar que o menino tinha sido raptado ficámos em pânico, e viemos logo de jacto para cá. Iríamos pagar o resgate, como é óbvio, mas depois a chamada foi localizada e a polícia não nos deixou ir, ao contrário dos outros pais. Os advogados têm aquela gente toda nas mãos. – Explicou o meu pai.

- Obrigada por terem vindo, acho que isto quer dizer que agora vão ficar por aqui e… - e nisto apareceu Alice, com duas malas enormes de viagem. A dor que já sentia antes, por tudo o que acontecera mas especialmente por ter a noção que tinha perdido Ellie de vez, agravou-se ainda mais, mesmo eu pensando que era impossível. Eles não iam ficar, tinham vindo apenas por obrigação, e não por se preocuparem. Se eles se preocupassem minimamente ficavam – Vão-se embora outra vez, não vão?

- Danny, o menino está bem, por que razão haveríamos de ficar? – Perguntou a minha mãe.

Era incrível como ainda considerava esta pessoa minha mãe, depois de tudo o que passei ela nem se digna a prestar-me dois míseros dias da sua vida, apenas dois minutos.

Lembrei-me de uma conversa que tinha tido com Ellie há poucas semanas, e vieram-me as lágrimas aos olhos, nós sorríamos, ríamos, falávamos… e ela tinha razão, tinha sempre razão.

 

*Flashback*

 

- Porque é que não lhes dizes como te sentes? – Perguntou-me, comendo a última garfada de bolo que Alice tinha feito.

- Porque não ia fazer diferença – encolhi os ombros, os meus pais nunca iriam mudar, eles têm a vida deles, e eu a minha.

- Eu acho que estás errado – e sorriu-me. Suspirei, ela era mais teimosa que sei lá o quê – Acho que se soubessem como te fazem sentir, mudavam um pouco. Ou pelo menos tentavam.

- Pois, diz a rapariga que alimenta os sonhos dos pais quando sabe que não quer nada daquilo que eles querem para a vida dela.

- Nisso tens razão – e mais um gole no sumo de laranja – Mas acredita, devias dizer-lhes, eles deviam saber como te sentes. Mesmo que não adiante, ao menos ficas a saber que eles agem assim mesmo sabendo o que achas.

 

*Fashback*

 

Pensar que nunca mais estaria assim com ela era tortura… mas quem causou toda esta situação era eu, mais ninguém.

Mas ela tinha razão, eu tinha que lhes dizer como me sentia, ao menos se fossem embora já não tinham a desculpa de não saberem o que eu pensava.

- Eu não acredito em vocês – disse, firme e seguro das minhas palavras – Hoje fui raptado, e baleado no braço. Vocês vêm, dão-me um abraço e voltam a ir? Que raio de pais são vocês?! Como é que podem simplesmente ir-se embora logo a seguir de terem chegado?! Como é que ainda têm a lata de dizerem que se preocupam comigo?!

- Danny, querido… - a minha mãe ia falar, mas eu não ia deixar, não ainda, não hoje. Hoje, após deitar tudo cá para fora, iria apenas fechar-me no meu quarto e afundar-me nos meus pensamentos obscuros. Apenas isso.

- Não mãe! Vocês viajam e viajam, dizem que me amam mas não me conhecem! Não sabem nada sobre mim! Sabem quem é a minha mãe? A Alice, por amor de deus! É ela que me dá na cabeça, é a ela que eu chamo chata, é ela que está cá e se preocupa!

Eles ficaram perplexos a olhar para mim, e eu limitei-me a virar-lhes as costas – como eles sempre me voltaram em todos estes anos –, e a subir as escadas em direcção ao meu quarto.

Deixei-me cair na cama, o meu braço doía. Porém não tanto como tudo o resto. Estava a sentir um misto de emoções todas embaralhadas umas nas outras, e não as conseguia separar. Por um lado Boogy e os outros estavam apanhados, e isso era bom. Por outro Ellie odiava-me, isso era indiscutível. Apesar de aos olhos de terceiros eu parecer ter saído desta história a ganhar, era completamente ao contrário. Sentia que tinha perdido uma parte mim. Ou todo eu mesmo.

Senti os olhos a ficarem enlagrimados, estava tudo mal. Mas eu não podia chorar, eu não chorava, nunca, e por nada! Eu não ia chorar!

 

Ellie

 

Assim que chegámos a casa pedi para me deixarem ir para o quarto. Sentia-me mal, triste, sem vida.

Tomei um banho rápido, e ainda embrulhada na toalha deitei-me na cama, não tinha frio, não tinha calor, simplesmente não sentia nada. Quem me visse diria que eu não era eu. Que estava possuída, ou fora do meu corpo.

Suspirei, enquanto estava deitada de lado, observando-me no espelho da porta do roupeiro. Hoje tinha sido o pior dia da minha vida. Uma lágrima caiu. Estava finalmente a começar, o pranto que provavelmente duraria a noite toda.

Ouvi baterem à porta, mas não me mexi, e então ouvi abrirem-na.

- Posso entrar? – Era Michael. Limpei as lágrimas à pressa e clareei a garganta, não o queria aqui, não agora, não ainda, mas não o ia deixar perceber que estava mal, não podia.

- Não, vai-te embora – mandei, friamente.

- Ellie… - ele não me ligou nenhuma e começou a caminhar em direcção à cama. Voltei-me para ele e sentei-me, pondo uma mecha de cabelo atrás da orelha – Eu sei que te magoei, e que não presto, ok? Toda a gente comete erros, e o meu erro pôs-te em perigo. Desculpa.

- Desculpa?! – Perguntei, já com a voz rouca – Desculpa? Eles dispararam em direcção a mim, tu estavas lá, tu viste! O teu erro podia ter acabado com a minha vida! E tudo o que dizes é “desculpa”?!

- Nada do que diga vai ser bom o suficiente…

- Bem podes acreditar. Michael vai embora, eu quero ficar sozinha.

- Eu só… eu queria agradecer-te. Afinal não nos entregaste à polícia quando o podias muito bem ter feito. Por isso obrigado.

- És meu irmão – encolhi os ombros –, neste momento não gosto mesmo nada de ti mas… não me conseguiria perdoar se passasses vários anos na prisão. Já podes ir?

- Então e o Danny? Eu vi-vos a falar… também não o denunciaste…

- Michael, já chega! – Gritei. Ouvir o nome dele fazia arder cada pedaço de mim – Fecha a porta, por favor.

Ele assentiu e dirigiu-se à porta, porém antes de sair voltou a virar-se para mim.

- Eu sei que me odeias neste momento mas…

- Eu não te odeio… estou só chateada. Mesmo chateada, por isso preciso de tempo. De tudo. Por favor, respeita isso Michael, dá-me tempo. Vai.

- Sabes porque é que dói tanto? – Perguntou. Em resposta olhei para ele apática – Porque o amas. Eu não sou parvo Ellie, consigo ver isso melhor que tu própria.

  Dito isto saiu, e eu voltei a deitar-me na cama enquanto as lágrimas escorriam. Teria ele razão? Não que nunca tivesse pensado nisso mas… eu não o podia amar, não a ele! A qualquer outro menos ele!

Passei a noite em branco, como não podia deixar de ser. Parecia que revivia o momento do disparo, vezes e vezes sem conta. No breve momento em que pensei que Danny podia morrer esqueci tudo. Tudo que fez, tudo o que disse, todas as mentiras que me contou. Mas ele não morreu, e ainda bem. O problema era que agora não conseguia esquecer.

E o pior era que começava a achar que Michael talvez tivesse razão. Eu amava Danny, ainda que não quisesse.

Passei a manhã fechada no quarto, disse que não me sentia em condições de ir à escola e era verdade. Michael também não foi.

Almocei no quarto, ainda fechava única e exclusivamente, nos meus pensamentos, e não sei quanto tempo estive sem fazer nada.

Kath telefonou-me, preocupada, a dizer que tinha visto a notícia na televisão, e falámos durante um bocado. Consegui não chorar nesse espaço de tempo, o que era incrível considerando como me sentia a despedaçar por dentro.

Depois de desligar-nos fiquei deitada, simplesmente a olhar para o tecto, até ouvir a minha porta abrir de repente e sentir dois corpos mandarem-se para cima da minha cama.

- O Michael telefonou – disse Rachel, sorrindo-me ainda que debilmente.

- Ele contou-nos tudo – continuou Alyssa – Como te sentes querida?

- A morrer! – Ok, talvez estivesse a ser melodramática, mas estava no meu direito!

- Vai correr tudo bem – elas ajeitaram-se e ficaram uma de cada lado, deixando-me no meio. Alyssa, após dizer isto, desviou-me o cabelo da cara e voltou a sorrir.

- Talvez – continuei.

- O que é que podemos fazer para ajudar? – Perguntou Rachel.

- Fiquem melodramáticas comigo – era a única ideia que me vinha à cabeça.

- Tudo bem, podemos fazer isso.

E assim ficámos as três, em silêncio, pelo resto da tarde, deitadas na minha cama. Por estranho que pareça, até me senti um pouco melhor, mesmo sem elas terem dito uma única palavra.

 

Danny

 

Bateram à porta e funguei em seguida, algumas lágrimas tinham fugido ao controlo. Tinha quebrado a minha promessa a mim próprio, tinha chorado por uma miúda. Mas ela não era uma miúda qualquer. Ela era ela.

Vi a figura da minha mãe entrar, seguindo-se da do meu pai.

- Filho perdoe-nos – disse ela, enquanto se aproximava da cama, onde eu estava deitado –, não sabíamos que se sentia assim.

- É verdade Danny, agora que sabemos como se sente, podemos ficar, não nos faz diferença. – Reforçou o meu pai.

- Ficamos até o menino querer – disse a minha mãe, sentando-se – Oh filho, lamentamos tanto, não o queríamos fazer sentir assim.

Não soube o que dizer, por um lado queria-os cá… mas por outro, eles precisaram que eu lhes dissesse para perceberem que algo não estava bem.

- Podem ir – disse-lhes – Eu não me importo.

- Mas filho…

- A sério, eu fico bem, já sou crescidinho. Podem ir.

- Bem, se assim o diz… - disse o meu pai. Eles iam, eu sabia que sim, burro velho não aprende línguas, tal como os meus pais nunca vão mudar.

Amanhã embarcariam rumo à Argentina, o meu pai foi logo comprar os bilhetes.

Mas eu podia viver com isso; já sem Ellie, a história era outra…

 

Logo para a noite posto o outro ^^

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