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Together as One

por Andrusca ღ, em 05.04.11

Capítulo 28

Salvamento

 

Ellie

 

- Ok, eu não estou a perceber nada, o Boogy e o Shane fugiram da cadeia?! – O meu irmão estava completamente à toa.

- Hum hum – limitei-me a dizer, e quando finalmente avistei a carrinha preta que da outra vez me tinha raptado a mim e a Danny, comecei a desacelerar, para que não dessem por nós.

- E eles têm o Danny?

- Yap.

- E tu sabes conduzir?

- Vês? Estás a perceber tudo maravilhosamente – disse-lhe.

- Não devíamos chamar a polícia ou assim?! O que é que estás a pensar fazer Ellie?

- Nós vamos chamar a polícia, mas primeiro temos que saber para onde eles vão para podermos indicar à polícia, não achas?

- Certo… bem pensado, bem pensado…

Ficámos em silêncio por breves momentos, até que a carrinha começou a acelerar, raios, tinham reparado em nós!

Acelerei também, não os podia deixar fugir. Eles fizeram uma curva mas eu não reagi a tempo, indo directa ao poste de luz que estava à minha frente. O carro deu um solavanco ao bater, impelindo-nos aos dois para a frente, mas felizmente nenhum de nós se magoou.

- Raios! Bati com o carro do pai! – Murmurei. Estava mesmo a imaginar o sermão que ia levar… ia ser o maior de toda a minha vida. Ai, isto deve ter deixado uma mossa enorme no carro….

- Ellie, eles vão fugir, preocupas-te com isso depois! – Repreendeu o meu irmão.

- Certo.

Fiz marcha atrás e continuei, agora com o cuidado de não ser vista.

Segui-os até uma casa com um aspecto horrível. Era velha, muito velha, e parecia que a qualquer momento podia cair aos bocados. Engoli em seco e dei o meu telemóvel a Michael, eu não ia conseguir falar com os polícias, sentia que a minha voz ia falhar a qualquer altura.

- Ellie… - a voz do meu irmão não soou nada bem, e quando olhei para ele vi que tinha o telemóvel virado para mim. Carregou nos botões e nada – acho que não tens bateria.

- Oh não…

- Tem calma. Há um telefone dentro da casa, já cá estive, só temos que chegar até lá e pronto, estamos safos.

- Ai é Michael? Então e como é que queres chegar ao telefone, hã? É que segundo o que eu percebi, eles também estão lá dentro!

- Tem calma, o telefone é na cozinha, eles quase de certeza que estão na sala ou assim.

- Quase? Quando sairmos daqui, eu vou matar o Danny tão bem que….

- Maninha, quando sairmos daqui, eu sei bem o que lhe vais fazer – apareceu-lhe um sorriso maroto nos lábios e eu dei-lhe uma chapada no braço para o fazer parar. Ai que o meu irmão é cá um idiota…

Estacionei o carro e pus as chaves no bolso, e direccionámo-nos à janela da cozinha, eu sempre atrás de Michael, que ele é que sabia o caminho.

Quando chegámos, estava tapada com tábuas. Olhei para ele com aqueles olhos de “só não te mato porque neste momento és o meu único aliado”.

Começámos a olhar em volta, até que ele apontou para cima. Mordi o lábio… havia um escadote de madeira meio tapado pela trepadeira, que subia até ao parapeito de uma varanda. Não parecia um caminho nada viável.

Nisto ouvi um tiro e o meu coração apertou-se. Danny!

- Vamos – disse, sem sequer pensar mais.

- Consegues subir? – Perguntou-me Michael, quando eu comecei a subir pelo escadote, mas me cortei na trepadeira.

- Tu consegues? – Perguntei, em resposta.

Não conseguia pensar em mais nada. Tinha ouvido um tiro. Danny podia estar ferido. Podia estar a morrer.

“Não Ellie, não penses assim, por favor, não penses assim”, ordenei-me, já com as lágrimas a quererem-me cair pelos olhos. Entrei para a varanda e o meu irmão também, apenas três ou quatro segundos depois, e abri a porta que ia dar a um quarto com aspecto de ter sido um cenário de um filme de terror.

Engoli em seco, estava a tremer das unhas dos pés às pontas do cabelo, mas tinha que me manter firme. Tinha que o ajudar. Não o podia perder. Eu amava-o.

 

Danny

 

Os atrasados sentaram-me numa cadeira no hall de entrada e amarraram-me as mãos e os pés.

- Agora sim, vais saber o que é a dor – ameaçou Boogy. Não tinha palavras para descrever como este gajo me fazia sentir. Era mais que ódio, mais que raiva, mais do que seja qual for o pior sentimento que se pode sentir por alguém.

Ele pousou o taco no chão e estalou os dedos das mãos, fechou um punho e em seguida dirigiu-o à minha cara, fazendo-me virá-la instantaneamente com a força com que me tinha dado o murro.

Senti o sabor a ferrugem na boca, tinha o lábio rebentado. Cuspi o sangue para o chão e voltei a encará-lo.

- Tu não prestas – afirmei.

- Sabes… por algum tempo não percebi muito bem, mas agora acho que já compreendi – disse ele, ao preparar-se para me dar outro murro, o que não tardou a acontecer. O meu maxilar estalou e eu cuspi em sangue uma vez mais, engolindo em seco em seguida – Aquela rapariga deu-te mesmo a volta…

- Nunca mais fales sobre ela, ouviste?! – Gritei-lhe.

Ele deu uma sonora gargalhada, e o som de um tiro soou. Olhei para Shane, que também me olhava com uns olhos sobretudo cobertos de raiva. O sentimento era recíproco.

- Da próxima vez que gritares, não é para a parede que disparo – ameaçou.

- Filho da mãe – murmurei, entre dentes, sendo atingido de novo, desta vez na barriga, pelo punho de Boogy. Comecei a tossir. Isto era tortura, eles não iam parar, não até me matarem, e eu nunca a iria ver de novo. Ellie… eu vou morrer sem que ela me tivesse perdoado.

 

Ellie

 

Descemos as escadas em pezinhos de lã, e quando chegámos ao meio delas pude ver Shane e Boogy de costas, virados para Danny que estava sentado numa cadeira. Respirei fundo, o tiro que ouvi não lhe tinha sido dirigido, porém estava um bocado maltratado, tinha o lábio todo rebentado e a cara a ficar inchada. Senti de novo as lágrimas a quererem sair, e por isso pressionei os lábios com força um no outro.

Rastejei, com Michael atrás de mim, para trás de um móvel e em seguida entrámos na cozinha, fechando a porta. Fui até ao telefone e marquei o número da polícia. Dei o telefone a Michael, para que ele lhes explicasse onde estávamos, e fui vigiar a porta. Danny levou mais um murro de Boogy e desta vez gritou, e cuspiu sangue em seguida. Fechei os olhos com força, esperava que isto fosse apenas um grande pesadelo e que nada disto tivesse acontecido. Esperava acordar e que esta história de Danny e do meu irmão se terem metido nos assaltos fosse toda um grande pesadelo. Mas não, ao abri-los vi Shane a dirigir-se para cá.

“Não, não, não, não, não, não, não”, pensei, em pânico.

- Michael! – Chamei, a sussurrar – Michael, o Shane vem aí!

O tempo acabou, a porta abriu-se e eu encolhi-me toda, para que no pouco espaço que ficou entre ela e a parede, eu conseguisse caber. Nem respirei, não queria que Shane desse por mim.

- Pousa o telefone – ordenou, apontando a pistola ao meu irmão e dando mais dois passos na sua direcção.

Vi que em cima da bancada estava uma frigideira, agarrei nela bem firme, dei um pequeno toque na porta para que se fechasse devagar e dei com ela com força na cabeça de Shane, que deixou cair a pistola e caiu para cima de Michael, que o pousou no chão. “Mas quem é que ele pensa que é para ameaçar o meu irmão? Só eu é que posso fazer isso”, pensei.

Michael disse as direcções à polícia e eles disseram que dentro de dez minutos estavam aqui, depois ajudou-me a amarrar Shane com uma corda que encontrámos dentro de uma gaveta e metemo-lo a um canto na cozinha.

- O meu copo de água Shane?! – Gritou Boogy, do hall.

Engoli em seco, e agora?

Michael agarrou na pistola de Shane e começou a dirigir-se para a porta, mas eu parei-o agarrando-lhe no braço.

- Relaxa mana, eu fico bem – garantiu, ao ver o meu medo.

Um calafrio passou-me pelo corpo mas deixei-o ir, indo mais devagar atrás dele.

Abriu a porta e vimos Boogy à frente de Danny, ainda de costas para nós.

- Estava a ver que não – reclamou ele.

- Pousa a arma – ordenou Michael.

Boogy virou-se e sorriu, desafiante. O tipo é um psicopata, só pode.

- Michael! Que bom ver-te! E vejo que trouxeste a irmã mais nova contigo – engoli em seco, mas não pelo seu comentário. Danny parecia tão magoado. “Ellie, agora não é altura para chorares!”, gritei, interiormente.

- Faz o que ele disse – disse-lhe eu.

- Não te armes em corajosa, gajinha, que aqui não passas de uma mera figurante. O jogo é entre nós.

Ouvi passos pesados vindos de trás de nós e Michael foi derrubado.

- Michael! – Gritei. Shane estava por cima dele, tinha-se libertado da corda, e a pistola estava aos meus pés. Não sabia o que fazer, mas apanhei-a e apontei-a a Boogy.

- Liberta-o já! – Ordenei, completamente a tremer, enquanto desactivava a segurança da pistola.

- Ou o quê? – Desafiou. Eu não ia disparar, ele sabia disso perfeitamente.

Senti um pontapé na dobra dos joelhos da parte de trás e deixei cair a pistola para me equilibrar. Esta, ao cair no chão, disparou e Boogy caiu em seguida, deixando cair a dele também. Tinha sangue a sair pela sua perna, mas eu não me preocupei.

Agarrei na pistola de Boogy e passei-a ao meu irmão, e corri até Danny para o libertar.

- Oh Danny… - murmurei, enquanto lhe desatava os nós das cordas.

Começaram a soar as sirenes, e pela segunda vez esta semana vi a polícia invadir o sítio onde eu estava.

Também pela segunda vez, os paramédicos trataram de Danny e os polícias disseram que o iam levar a casa, nem me dando sequer oportunidade de falar com ele sobre nada. Mandaram-me a mim e a Michael também para casa, dizendo que segunda-feira teríamos que ir dar o nosso depoimento.

Boogy e Shane foram de novo presos, para junto de Kevin, mas antes Boogy ia ser tratado por causa do tiro. Só espero que desta vez seja para durar.

Quando voltei para o carro vi a enorme mossa na parte da frente. O meu pai ia-me matar tão bem, mas tão bem…

Entrámos no carro e conduzi em silêncio.

- Ele vai ficar bem – assegurou Michael, pouco antes de chegarmos a casa.

- Pois vai – concordei.

- Tens que falar com ele.

- Pois tenho.

Não passámos disto. Estacionei o carro na garagem e fomos cada um para o seu quarto. Eram quase seis da manhã, estas tinham sido as horas mais longas de toda a minha vida.

Deixei-me cair em cima da cama completamente esgotada, e adormeci pouco depois, vencida pela exaustão.

 

Danny

 

Que noite… quando cheguei a casa fui directo à casa de banho e vi-me ao espelho. A minha cara estava uma tragédia, e apesar de querer sorrir por ela me ter ido ajudar, nem isso conseguia fazer.

Mas ela tinha-me ido ajudar, e isso devia significar algo. Se bem que se meteu numa situação mais que perigosa por mim. Podia ter saído magoada desta história toda. Suspirei e deitei-me na cama, todo dorido. Tudo o que queria era dormir para ver se esta noite acabava de vez.

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