Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Love Between Changes

por Andrusca ღ, em 16.04.11

Capítulo 17

Passagem de Ano

 

Remexi-me nesta cama de ferro e puxei os lençóis e os cobertores mais para cima de mim. A cama rangeu e ouvi o piar de um pássaro. Tapei a cabeça com a almofada, mais um dia a acordar às sete da manhã e dava-me uma coisa má. Voltei a virar-me e a afundar-me mais na roupa da cama. Chiça, se estava frio. A casa da minha bisavó sempre fora fria, mas este ano ainda parecia mais. Não sei, talvez fosse de mim. Mais uma volta. Não conseguia estar na cama de maneira nenhuma. Este ano éramos apenas nós, eu, a minha mãe, e o meu pai, e os meus tios. Os pequeninos não vieram, ficaram nos avós, fizeram birra porque não gostavam dos bichos daqui. Pois, nem eu, mas o que é que se há-de fazer?

Bufei, era inútil tentar dormir mais, não conseguia. Era tudo ao mesmo tempo, o pouco sol a entrar-me pela janela cujas persianas estavam estragadas e só fechavam metade, o frio, a cama a ranger cada vez que me mexia, o piar dos pássaros lá fora e o barulho dos pombos.

Voltei-me de barriga para cima e fiquei assim, quieta, a pensar que nos outros anos não me tinha deixado chatear por nenhuma destas coisas. Aliás, até gostava de acordar cedo, tinha mais tempo para passar com ele. Mas agora ele não está cá, e eu não posso pensar mais nisso. Mas como é que posso evitar que estes pensamentos me venham à mente quando estou no sítio onde tudo começou?

Suspirei e levantei-me, vestindo o meu robe roxo, quentinho, logo de seguida. Fui até à casa de banho e lavei a cara. Era hoje. O último dia do ano. Após quase duas semanas aqui nesta aldeia, finalmente o dia tinha chegado. Comecei a vaguear até este mesmo dia, porém no ano passado. “No próximo ano, independentemente do que acontecer, vou-te beijar”, as suas palavras apareceram-me na mente sem qualquer aviso prévio, e senti-me a desmoronar. Tanta coisa mudou desde o ano passado. Levei mais daquela água gélida à cara e limpei-a em seguida com uma das toalhas que estavam aqui penduradas. Hoje ia ser um longo dia.

Fui até à cozinha e fiz uma caneca de leite com chocolate, peguei numa manta e acendi a lareira. E assim me deixei ficar, a beber o leitinho, sentada no sofá em frente à lareira e embrulhada na manta, a ver aqueles programas horríveis e cheios de interferências por causa do sinal, na televisão.

- Então querida, já acordada? – Perguntou a minha mãe, ao entrar na sala que dava a passagem para a cozinha.

- Sim.

- Mas ainda é tão cedo… - vi as horas no telemóvel, cinco para as nove.

- Pois é.

E pronto, as nossas conversas resumiam-se a isto. Tinha os meus pais por duas semanas, completamente livres do trabalho, mas nem assim estávamos os três bem. Estão cá mas é o mesmo de não estarem.

A partir do momento em que todos se levantaram o tempo passou mais depressa, já havia mais alegria na casa, os meus pensamentos obscuros não tinham espaço cá dentro. Não com os meus tios cá, eles faziam a festa toda por conta deles.

O almoço foi feito pela minha mãe, e depois eu tive que lavar a loiça com a minha tia. Como se já não o fizesse todo o resto do ano…

- Então Daphne, este ano não vais ter com o teu amigo? – Perguntou a minha tia.

- Que amigo? – Perguntei-lhe.

- Aquele com quem passavas a meia-noite, que mora cá, não vais ter com ele?

Por momentos tinha-me consigo esquecer disso. Tinha conseguido tirá-lo do meu pensamento. Mas não durou.

- Não – respondi, limpando o último prato e dirigindo-me ao quarto.

Passei lá a tarde toda. Sentia-me mal por estar a pensar em Logan em vez de no meu namorado. Mas era normal que sentisse a sua falta, ele é que amenizava a tortura que esta aldeia é.

Quando foi a hora de jantar voltei para juntos deles e comemos entre conversas. Ao menos nestes poucos minutos conseguia pensar em mais alguma coisa se não nele.

Quando despachámos tudo sentei-me no sofá. Nove horas… dez horas… onze horas… não aguentei mais, tinha que sair, isto estava demasiado deprimente.

Disse à minha mãe que ia sair e que não se preocupassem, e comecei a andar sem rumo.

E foi assim que cheguei ao descampado. Ao olhar para este espaço fui atacada com mil e uma emoções.

Sentei-me no chão de areia, encostada à cerca que outrora tinha partilhado com Logan, sem sequer me importar se me sujava ou não. Simplesmente não quis saber.

Onze e meia.

Comecei a pensar de como este ano tinha sido. Parte dele tinha sido boa, ou pelo menos pensava que sim, mas agora analisando bem as coisas acho que foi um ano completamente deprimente. Meio ano passei a desejar ver Logan, a outra metade a desejar que o pudesse ver como dantes. Esses são os meus arrependimentos. Mas ia mudar isso, ia ter que conseguir mudar. E Kevin ia-me ajudar, sei que sim.

Onze e cinquenta.

Acho que lá bem no fundo ainda tinha a ingénua esperança de que ele aparecesse aqui, acabado de virar a esquina, com aquelas calças de jardineira e blusa ao xadrez que em qualquer outro rapaz iriam ficar horrendas mas ele ficavam bem. Viria com aquele sorriso de orelha a orelha, sem dúvida, e com o cabelo negro todo despenteado ao sabor do vento da noite.

Apesar de parecer superficial, e má até, por fora, ele conseguiu-me atingir bem cá dentro. Fez-me mudar. Mas mais importante. Fez-me querer mudar. E foi tudo por nada. Em vão. Pois agora que mudei e que já não sou aquela rapariga tão fútil, ele não está cá.

Olhei para o ecrã do telemóvel mesmo a tempo de ver as onze e cinquenta e nove mudarem para a meia-noite.

- Feliz Ano Novo – murmurei, enquanto uma lágrima me escorria lentamente pela bochecha.

O fogo-de-artifício da cidade invadiu os céus, mas eu não lhe prestava atenção.

Ele não tinha vindo. Tinha sido tudo uma ilusão, uma dolorosa e ingénua ilusão.

Senti o meu telemóvel vibrar no meu colo e apressei-me a olhar. Talvez fosse ele, talvez não conseguisse ter vindo… mas não.

- Oi Kevin – atendi, limpando as lágrimas que me tinha fugido ao controlo.

- “Olá… Daph, estás a chorar?” – Perguntou-me. Estava preocupado, dava para nota.

- Não – menti – Onde estás?

- “No The Latest Place, espera, vou-te pôr em alta voz” – Bolas, não queria que me ouvissem com esta voz de choro, mas não o consegui impedir a tempo.

- “Olá Daphne” – ouvi. Eram Amy, Kristen e Lucy.

- Olá pessoal. Feliz ano novo!

- “Para ti também! Isso é fogo-de-artifício?” – Bolas, esta Amy só não ouve o que não quer.

- É.

- “Onde é que estás para ouvires isso, não estavas na aldeia?”

- E estou, consegue-se ver de um descampado.

- “Fixe” – disse Kevin – “Convidava-te para uma dança mas… de qualquer maneira, espero que te estejas a divertir”.

- Oh sim… nem te passa pela cabeça – ironia no seu melhor.

- “Queres dizer mais alguma coisa ao pessoal? Aproveita agora enquanto ainda te ouvem”.

- Quem está aí? – Perguntei.

- “Amy, Kristen, Lucy, Collin, Duke, John e o Logan.”

- Não… divirtam-se.

- “Beijos, adoro-te”

- Também te adoro. Até daqui a dois dias. Beijo.

Desliguei a afundei a cabeça nas pernas que estavam dobradas. Lá estava ele, no bar, e eu aqui.

“No próximo ano, independentemente do que acontecer, vou-te beijar”, isso foi uma promessa. Uma promessa que não cumpriu.

24 comentários

Comentar post

Pág. 1/3