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Espinhos de Rosas

por Andrusca ღ, em 07.09.10

Capítulo 1

Não Existe Nenhum “Felizes para Sempre”

 

***

 

Está escuro, e eu estou no mesmo beco de sempre. Não percebo a fixação por este beco. Ouvi um barulho atrás de mim, mas não me vou virar, seja o que for, já não vai lá estar quando o fizer.

Eu sei que há alguma coisa atrás de mim, um tipo de monstro, e também sei que no fim, eu hei-de morrer. Ele vai-me apanhar. Só não percebo: porquê agora? Ao fim de todos estes anos, porquê agora?

Consigo ver a Abby, está encostada à parede, a tremer de medo. E consigo ver o Dylan, abraçado a Abby, também a tremer e a olhar para todos os lados. Eles estão com medo, eu não. Eu sei que não vai ser hoje. Hoje… eu tenho alguém.

Virei-me lentamente para trás e, como já esperava, ninguém estava lá. Voltei a olhar para a frente e lá estava ele. O rosto era uma incógnita, mas mesmo assim, eu sei quem é. Posso não saber o nome, ou nunca mais o ter visto. Mas sei quem é. E o que é. É um assassino. É um vampiro.

Ele abre a boca lentamente e os seus caninos descem. Tão brancos, tão afiados.

Mas então o outro vem. Não sei quem é, mas sei que não me quer mal. Manda-se para cima do vampiro e…

 

***

 

Acordei com o despertador a tocar e automaticamente mandei-o para o chão e cobri a cabeça com o lençol. O despertador não parou de tocar.

- Ok, ok… – murmurei, destapando a cabeça. – Estou acordada.

Levantei-me lentamente e apanhei o despertador do chão, desliguei-o, e voltei a pô-lo na mesa-de-cabeceira.

Arrastei-me até ao quarto da Abby e entrei. Aproximei-me da cama com a colcha cor-de-rosa, tal como o resto do quarto, e sentei-me.

- Abby, querida – disse-lhe, enquanto lhe desviava uma madeixa de cabelo da cara – acorda, temos que ir para a escola.

- Não quero – resmungou ela, virando-se para o outro lado.

- Vá lá – levantei-me e passei para o próximo quarto.

A Abigail detesta o seu nome, por isso faz com que todos lhe chamemos Abby. Tem dez anos, a mesma idade que eu tinha quando parei de acreditar em contos de fadas. Tem um cabelo preto escuro, mas uns olhos azulados muito bonitos, escondidos atrás das lentes dos óculos redondos. Ela, ao contrário de mim, adora histórias de princesas que encontram os príncipes e que vivem felizes para sempre. Apesar de achar que é tudo um monte de tretas, encorajo-a. Se ela está feliz, é o que eu quero. Abby é uma rapariga muito especial, se alguém lhe perguntar quem foi o terceiro presidente dos EUA, ela sabe, tal como sabe como está a economia na Tailândia… às vezes fico a olhar para ela como se me estivesse a falar em japonês.

Entrei no quarto de Dylan e estranhei ao ver a cama já feita. Ele não estava lá, isso explica tudo.

O Dylan tem quinze anos, e anda numa fase de rebeldia. Agora veste-se de preto e pensa que é o maior. Descobri recentemente que anda metido na droga. Até há pouco tempo ele era um miúdo estupendo, mas depois descarrilou. Começou a baldar-se às aulas e a tirar más notas, e então, numa busca desesperada por uma explicação, encontrei pequenos pacotinhos de droga na sua gaveta das meias. Tal como Abby, ele tem um cabelo escuro, que está curto e escadeado. Os olhos são castanhos.

Pelo pouco que me lembro do nosso pai, ele também tinha cabelo e olhos escuros e a minha mãe tem um cabelo loiro e olhos verdes. Eu estou mais perto de ser parecida com ela, infelizmente. Os meus olhos verdes e o cabelo castanho clarinho, em tons de avelã, dão-me um ar exótico. Uma vez, quando o Dylan roubou uma lanterna e eu o levei de volta à loja e o obriguei a devolver, o dono nem acreditou quando eu disse que era irmã dele, por causa da falta de parecenças, e que lamentava muito. Essa é outra das novas manias do Dylan: roubar.

Saí do quarto e fui para a minha casa de banho. Depois de um duche muito, muito rápido, vesti uns calções pretos e uma blusa cor-de-laranja de alças. Calcei uns ténis pretos. Voltei para a casa de banho e penteei o cabelo. O cabelo, cor de avelã e até um pouco abaixo dos ombros, surpreendia-me sempre, uns dias era completamente liso, e nos outros era cheio de jeitos.

Agarrei na mala que estava em cima da minha cama e pu-la em cima da cadeira da secretária. Guardei a almofada no roupeiro de portas de correr, ajeitei os lençóis e puxei a colcha laranja e castanha. Pus umas almofadas das mesmas cores em cima e desci as escadas.

Fui para a cozinha e aqueci o leite para os cereais.

Ouvi a porta da rua a abrir-se e quando fui espreitar vi Dylan a subir as escadas, muito devagarinho.

- Onde é que vais? – Perguntei, assustando-o.

Ele virou-se para mim.

- Bolas! – Disse-me – Queres-me matar de susto?!

- Responde-me Dylan.

- Vou dormir.

Sorri falsamente e mordi o lábio.

- Não, não vais. Vais tomar um banho e vais para a escola.

- Mas não dormi a noite toda!

- Não me interessa! Quando é que vais crescer?!

- Tu não és a minha mãe! – Esta doeu. Sempre que discutíamos, ele atirava-me com isto à cara. «Tu não és a minha mãe». Por incrível que pareça, nunca melhora.

- Pois não, sou tua irmã!

- Exacto! Por isso pára de agir como se fosses minha mãe! – Gritou-me. Virou-me as costas e começou a subir as escadas, apressadamente.

- Talvez parasse! – Gritei-lhe. Ele parou e voltou-se de novo para mim – Se ela cá estivesse talvez parasse!

- Não é culpa dela! – Que típico. Ninguém, nunca, é o mau da fita além de mim.

- Também não é minha! – Ele recomeçou a subir as escadas – Quero-te cá em baixo em dez minutos.

Não voltou a olhar para mim enquanto subia o resto das escadas.

Mas o que é eu fiz para merecer isto?! Devo ter sido uma das piores pessoas na minha vida passada. A minha mãe a passear daqui para ali a tentar realizar o sonho de ser actriz e eu aqui, a aturar isto! E para piorar, eu é que sou a má da fita!

Ela nem sabe que o Dylan anda nas drogas e a roubar. Às vezes aparece cá, talvez de ano a ano, mas nunca nos pergunta nada. A minha relação com ela nunca foi boa, nem sequer quando o meu pai ainda era vivo. Desde que ele morreu, que eu e os meus irmãos temos estado praticamente sozinhos. Se não fosse a nossa vizinha, já tínhamos morrido de fome. Apesar de ela mandar dinheiro, nunca é suficiente.

Eu tenho dezassete anos e já trabalho, limpo a casa, cozinho, e é como se tivesse filhos. Nem quero pensar como vou ser quando tiver quarenta…

Pus o leite em três tigelas e também cereais. Sentei-me a comer e segundos depois aparece Abby, que se senta ao meu lado.

- Ouvi a gritaria matinal – disse-me ela, antes de levar uma colherada à boca.

- Desculpa querida – A verdade é que detesto discutir com Dylan, mas ele não me deixa alternativa.

- Eu sei. Ele é que é parvo.

- Sabes… eu tenho orgulho em ti. E tenho a certeza que o Dylan há-de melhorar.

- Quando? – E revirou os olhos.

- Aí apanhaste-me – murmurei. – Sabes que te adoro, certo?

- Certo. Ei, sabias que há 145 pessoas nas prisões de Great Falls?

- Não fazia ideia – juro que não sei onde é que ela arranja estas informações…

Dylan desceu as escadas e eu olhei para o relógio. Tínhamos que estar na escola em quinze minutos.

Nós moramos relativamente perto da escola onde eu e Dylan andamos, mas temos que levar a Abby também, e a escola dela é um bocadinho mais longe. Se bem que aqui, em Great Falls, Montana, as coisas nunca estão demasiado longe.

- Vamos ou não?! – Perguntou Dylan, resmungão.

- Não comes? – Perguntei-lhe.

- Não.

- Então vais ter que esperar.

- Sim mãezinha… – deitei-lhe um daqueles olhares ferozes que eram capazes de o incinerar. Detesto quando ele me compara à nossa mãe. Eu não sou nada como essa mulher. Nunca na minha vida conseguiria abandonar os meus filhos.

Depois de comermos, pus a loiça no lava-loiça e voltei a pôr o leite no frigorífico.

- É verdade Abby… - disse-lhe, enquanto agarrava na minha mala bordô de pôr ao ombro – Consegues arranjar boleia? Não sei se te consigo ir buscar, tenho que ir implorar por trabalho…

- Claro – respondeu-me ela, com o seu constante sorriso. Agora que reparei bem, ela, com aqueles totós e os óculos, mais o sorriso desdentado (caiu-lhe um dente na semana passada), é bastante cómica – Venho de boleia com a mãe da Kim.

- Obrigado.

Fomos para o carro, um Volkswagen cinzento já meio velhinho, e na minha opinião, a única coisa de jeito que a minha mãe fez por nós.

Dylan sentou-se ao meu lado, no lado do pendura, e Abby atrás, como sempre.

- É verdade, sabiam que 56% das pessoas… - começou Abby.

- Nós não queremos saber Einstein – resmungou Dylan.

- Eu quero – afirmei, ao ver a cara triste de Abby pelo espelho retrovisor.

Depois de a deixarmos na escola, fomos para a nossa, o liceu de Great Falls.

Estacionei e entrámos pela porta do lado Oeste, a porta principal. A nossa escola é enorme.

Assim que pusemos um pé dentro da escola, tocou para a entrada. Fui andando para a minha sala mas vi Dylan a seguir por um corredor que não ia dar à sala de aula dele. Sim, eu decorei o horário dele.

Dei meia volta e fui a correr ter com ele. Agarrei-lhe no braço e puxei-o. Ele voltou-se para mim com aquele ar de enjoado, mas isso era o que menos me interessava.

- Onde é que vais? – Perguntei.

- Para as aulas – respondeu, com um sorriso falso.

- A tua sala não é por aí.

- Óptimo, como se não chegasse controlares-me em casa…

- Eu não tinha que controlar se tu…

- Se eu o quê?! Eu não preciso disto! O que eu quero fazer, não se aprende neste tipo de escola.

- E o que é isso? Roubar? Drogares-te?! – Passou uma rapariga por nós e olhou como se nós fossemos dois extraterrestres.

- Boa, viste o fizeste? O que é que ela vai pensar agora? – Incrível, só se preocupa com coisas insignificantes.

- Tu achas que me importo com isso?! Tu queres dar grandes aparências, mas no fim só fazes figuras tristes. Sabes quantas vezes é que o director me telefonou a fazer queixas de ti?! Quantas desculpas é que tive que arranjar para ele não falar com a mãe?!

- O que é que queres que faça? Que agradeça?

- Não! Quero que comeces a ser responsável! Vai para as aulas.

- Não.

- Dylan – agora já estava praticamente a gritar com ele – vai para as aulas agora!

- Se a mãe cá estivesse…

- Mas não está! Bolas Dylan, quando é que vais encarar a realidade?! Ela está em Beverly Hills, ou em Nova Iorque, ou noutro sítio qualquer! Ela abandonou-nos!

- Não foi isso que aconteceu! Ela volta sempre!

- Sim, mas depois vai-se embora outra vez. Eu também tenho saudades dela… - ou não. Acho que o ódio é maior às saudades – Mas temos que continuar a viver. Vai para as aulas… por favor.

- Porquê? Serve-me de quê? – Ele parecia determinado, mas tal como ele quando me quer magoar, eu também tenho uma “arma secreta”.

- Porque o pai ia gostar – não pronunciei isto de uma maneira chateada, como o resto da conversa. Pronunciei-o com uma voz triste.

Ele fez uma careta e começou a andar de volta ao corredor principal.

- Tudo bem – disse-me.

Fui com ele e vi-o a entrar para a sala. Provavelmente não vai lá fazer nada, e pode até adormecer, mas pelo menos entrou.

Dirigi-me para a minha. Já passavam quase dez minutos do toque e os corredores estavam vazios.

Bati à porta e abri-a.

- Posso entrar? – Perguntei.

- Podes, mas isto não se pode repetir Chloe… - Respondeu-me o Sr. Loung.

O meu professor de Literatura, Sr. Loung, vem da china e é alto e muito esguio.

Dirigi-me à minha mesa e sentei-me. A minha melhor amiga, Gwen, tocou-me nas costas e eu voltei-me para trás.

- Estás bem? – Perguntou-me.

- Sim, foi uma daquelas manhãs – respondi-lhe, no mesmo tom sussurrado.

A aula passou a correr, talvez por ser uma das minhas disciplinas preferidas. Quando tocou para sair, Josh arrumou as suas coisas e dirigiu-se a mim.

- O que é que te aconteceu? – Perguntou-me, com um ar preocupado.

- Não foi nada de especial, só… o Dylan – disse-lhe, metendo a mala ao ombro.

- Ok, se tu o dizes… - Murmurou, beijando-me em seguida.

Josh é o meu namorado. Ele é alto e lindo. Tem um cabelo loiro aos caracóis e uns olhos escuros, mas muito expressivos. Ele joga na equipa de basquetebol da escola. Estamos juntos há aproximadamente três meses e sempre que ele está por perto, Gwen afasta-se. Ela detesta-o.

- Tenho que ir para uma reunião da equipa – disse-me Josh. – Vejo-te daqui a nada, ok?

- Ok – respondi.

Saí da sala com Gwen e sentámo-nos numa das mesas do jardim, à entrada da escola.

- Queres falar? – Perguntou Gwen.

- Na realidade não, desculpa.

- Tu é que sabes – começou a mexer na mochila e tirou de lá um livro.

- “Crepúsculo”… - li, na capa. – Já não tinhas lido esse?

- Já, aí umas cinco vezes.

- Então porque é que continuas a voltar a ler?

- Porque gosto. Mostra que o amor não tem barreiras.

- Pois sim.

- A sério. A Bella é uma humana, mas conhece o Edward Cullen, que é vampiro, e apaixonam-se. Sabes como é que acaba?

- Com a Bella com a garganta rasgada? – O tom que saiu da minha voz foi puro gozo. Eu sei como acaba o livro. A Abby já mo disse aí umas trinta vezes.

- Não. Eles ficam juntos, e com uma filha – respondeu-me, num tom orgulhoso – Ela fica vampira e ficam felizes para sempre.

Não consegui deixar de soltar uma gargalha.

- Gwen… não há “felizes para sempre” – disse-lhe.

- Só se não quiseres. Eu não te percebo. Porque é que és tão… não crente?

- “Não crente”? Isso foi o melhor que conseguiste?

Ela abanou a cabeça e olhou para baixo. Vi um sorriso formar-se no seu rosto e levantou de novo a cabeça.

- O que é que o Josh é para ti? – Perguntou, com um ar triunfante.

- O meu namorado… porquê?

- Não queres ficar com ele para sempre? Casar, ter filhos…

- Não.

De repente a expressão de glória fugiu da sua cara.

- Porquê?

- Porque hoje eu gosto dele, e ontem também gostava, mas ninguém me garante que amanhã vou continuar a gostar.

- Então não é amor. Quando é amor tu sabes. Quando é amor tu queres passar toda a eternidade com essa pessoa.

- Ok.

- Só estás a dizer isso para eu me calar. – Resmungou.

- Yap.

- Sabes que mais? – Empurrou o livro até mim. – Leva-o. Pode ser que te faça bem…

- Gwen…

- Nem refiles – interrompeu-me ela. – Quem sabe, talvez o teu “feliz para sempre” esteja a chegar…

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