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Our Scars

por Andrusca ღ, em 24.08.11

É oficial, finalmente acabei de escrever a história.

Btw, a votação vai acabar amanhã lá para as 17h... por isso aproveitem o tempo até lá e votem na história que querem ;)

 

Capítulo 16

Fugir… De Novo

 

- Dawn, tens uma pessoa para te ver! – Tinha acabado de arrumar as coisas indispensáveis numa mala para levarmos, quando ouvi a minha mãe. Os nossos restantes bens seriam levados pelos homens das mudanças, provavelmente amanhã.

Desci as escadas curiosa e com a mala na mão, e pousei-a no chão quando vi Marissa, que me olhava com pena. Ela não me deu tempo para falar, apenas se mandou a mim num abraço bem apertado. Sorri debilmente, o primeiro sorriso que dava desde ontem de manhã, quando tudo aconteceu pela segunda vez. Só de pensar nisso as lágrimas voltam a habitar-me os olhos.

- Vou ter saudades tuas – murmurou-me ela ao ouvido –, quem me dera que ficasses.

- Nunca vai ser o mesmo, Marissa. Espero que entendas – murmurei-lhe também, largando-a em seguida. Ela assentiu com a cabeça e sorriu-me.

- Promete que mandas notícias. Vou querer saber tudo da tua nova vida – pediu.

- Prometo – afirmei.

Ela parecia triste, quase tanto como eu me sentia. Mas não me tratava diferente, pelo contrário, parecia tratar-me como a Marissa que sempre foi. Ela era a minha melhor amiga, e só e apenas agora percebi isso. É pena que apenas percebamos as coisas nos momentos das despedidas.

Ela deu-me mais um abraço e despediu-se com a afirmação de que tinha que ir para a escola, e de que Caleb me mandava tudo de bom. Fora ele a avisá-la que me ia mudar, certamente. Gostei desse pensamento, Caleb a falar com alguém além de mim. Eu sei que o acusei de ter contado tudo a todos mas… estava de cabeça quente, não pode ter sido ele. E aquela mensagem… ele não é desse tipo.

- Tudo pronto? – Perguntou a minha mãe, aproximando-se de mim. Olhei para ela e assenti que sim, vendo-a em seguida agarrar numa mala e pô-la no porta-bagagem do carro. Suspirei enquanto olhava em volta. Apesar de tudo, ia sentir a falta disto. Das pessoas cuscas sempre a espreitar pelas janelas, e do parque verde e limpo, e até daquela bola de pêlo que sempre teimou em me atacar. Ia sentir a falta de Marissa. Ia sentir muito a falta de Caleb. – Dawn? Então?

Olhei para a minha mãe e vi que já se encontrava dentro do carro, enquanto eu ainda estava especada à porta já fechada à chave. Respirei fundo e abri a porta do lado do passageiro, entrando em seguida.

A minha mãe começou a conduzir, enquanto eu me deixava divagar por aqui e ali. Olhei para o meu pulso direito e com a mão esquerda esfreguei-o, para tirar a maquilhagem que cobria os símbolos da minha vergonha. E de pensar que ontem estive tão perto de fazer a mesma asneira. De tentar acabar com a minha vida outra vez. Talvez desta vez não tivesse a mesma sorte. Talvez conseguisse mesmo o resultado pretendido. Mas será que esse resultado era mesmo aquele que desejava?

Lembro-me perfeitamente de quando agarrei naquela faca. Sentia-me tão sobrecarregada, tão farta de tudo. Era como se o mundo fosse algo à parte, e só eu me compreendia. E eu não estava habituada a estar sozinha. Nunca estive sozinha em toda a minha vida, até esse momento. E escolhi o caminho mais fácil.

Lembro-me de quando acordei no Hospital, e de ter a minha mãe sentada toda torta numa cadeira, inclinada sobre a minha cama. Ela parecia cansada, devia estar com uma pilha de comprimidos dentro dela. Cansada e farta.

Lembro-me das semanas que se seguiram. Os médicos a fazerem perguntas, as sessões sem parar com a psicóloga do Hospital. A minha mãe sempre de volta de mim, como se eu fosse um bebé, uma inválida que não consegue fazer nada de bem sozinha.

Talvez esse tenha sido o meu erro. Sempre tentei ser tão perfeita. Perfeita na escola. Perfeita para os amigos. Perfeita para o namorado. Perfeita para os pais. Talvez tenha sido por isso que todos se admiraram tanto quando fiz aquele erro. Talvez tenha sido isso que os levou a tratarem-me como me trataram. Mas eu sou Humana. Tenho direito a errar.

E depois lembro-me de não aguentar mais. Chegou a uma altura que nem os comprimidos ajudavam e que por muitos que tomasse, continuava a sentir-me como se estivesse presa num mundo de escuridão. E então decidimos mudar-nos. E viemos para cá.

Pela primeira vez conheci alguém que não pediu perfeição vinda de mim. Conheci quem me fazia rir mesmo quando me sentia em baixo, e que não me fazia sentir necessidade de fingir estar bem quando estou mal. Caleb percebeu-me. Desde o primeiro olhar que penetrou o meu disfarce e entendeu que eu não era quem aparentava ser. Foi a primeira pessoa a perceber, e a aceitar, que não sou perfeita.

Olhei pelo vidro e vi alguns dos meus colegas na brincadeira, e voltei a olhar para os pulsos.

Quando contei a verdade a Caleb ele apoiou-me. Apesar do medo que sentia em partilhar a minha história com alguém, ele não me julgou, não me gozou. Apenas agiu como se fosse algo normal. Pela primeira vez, alguém fez-me sentir que o que tinha feito não me tornava numa aberração.

E eu gostei desse sentimento. O sentimento de ser compreendida sem ter que me esforçar para que tal acontecesse.

O momento presente era como um déjà vu, excepto que desta vez não estava apenas a abandonar as pessoas que me faziam mal. Abandonava também aquelas que me fazia sorrir. Alguém uma vez disse-me que quando encontramos, nem que seja um pequeno estilhaço de felicidade, não a podemos deixar escapar. Eu não a estava a deixar escapar. Estava a fugir dela, literalmente.

Dirigi a minha atenção para o outro pulso, ainda coberto com a maquilhagem, e suspirei. Fiz um erro e já paguei bastante por isso. Não posso passar o resto da minha vida a fugir e a fingir que nada aconteceu, como a minha mãe quer. Eu não sou perfeita. E estou farta de fingir que sou.

Passámos pela escola nesse preciso momento, e enquanto o carro continuava a andar eu ia-me virando para não a perder de vista.

Sim, a situação era lixada. Sim, os comentários eram piores que algumas das lembranças. Mas não ia durar para sempre. Se continuar a fugir, sempre que alguém descobrir a verdade, vou reviver tudo. Mas aqui já todos sabem. E mais cedo, ou mais tarde, hão-de passar à frente, hão-de seguir para a próxima grande notícia.

- Mãe pára o carro! – Disse-lhe de uma maneira rápida e num tom fácil de ser compreendido. Ela travou repentinamente e encostou o carro ao passeio, olhando para mim alarmada.

- O que é que aconteceu? Esqueceste-te de alguma coisa? – Perguntou-me.

- Sim – respondi, com uma lágrima a querer escorrer-me pelo olho –, de viver. Não vou continuar com isto mãe, não vou continuar a fugir.

- Dawn…

- Tentei suicidar-me, mas agora tenho que seguir em frente. Tenho que começar a viver a vida que quero. E é aqui mesmo, nesta cidade.

Dito isto não lhe dei tempo para responder, abri a porta e saí do carro a correr, em direcção à escola. Passei pelos portões e não me importei em abrandar o passo, nem quando entrei nos corredores. Apenas me preocupei em encontrá-lo. Corri e corri, até que finalmente parei ao avistá-lo ao longe. Dei por mim a sorrir. As coisas iam-se resolver.

- Dawn – senti tocarem-me no ombro para ver Jay, com uma cara confusa.

- Desculpa, tenho que ir – respondi-lhe, correndo em seguida ao rapaz dos meus olhos. Aos olhos de outros pode parecer um rapaz estranho e com hábitos sombrios, mas aos meus é muito mais que isso. Eu vejo-o por aquilo que realmente é, tal como ele me vê a mim.

Ele nem me viu aproximar até me encontrar quase a poucos centímetros dele, e aí mandei-me para o seu abraço, sendo apertada com força.

- Não vou a lado nenhum – prometi, juntando os meus lábios aos dele, num beijo que me foi retribuído sem qualquer problema.